domingo, 28 de julho de 2013

“Um lance de dados (jamais abolirá o acaso)”: notas sobre a filosofia do vazio do último Althusser



Big Bang: a ausência de uma Causa Primeira?

O texto não será sobre Mallarmé, mas tomará emprestado o trecho de seu famoso poema que colocamos no título. Isso porque tanto esse título quanto o conteúdo (enigmático) do poema, mas também seu formato, ainda mais enigmático, nos leva ao "estranho" ambiente teórico que Althusser tenta construir ao final de sua vida, que colocamos sobre a definição de filosofia do vazio, expressão que o próprio autor atribui ao seu esforço. No poema de Mallarmé, as palavras e frases, quase que de forma desconexa, aparecem e dançam; as possibilidades de existência e articulação se avolumam, mas também se escondem, se findam. Um lance de dados, um ato do poeta; mas que resiste a algo muito maior, a essa força da realidade que não encaixa nunca no querer e controle humano – apesar deste encaixe ser o sonho ocidental mais profundo. Exatamente como Althusser vê o mundo em sua filosofia do vazio, em seu novo (talvez não tanto assim, como mostraremos) modo materialista de ver o mundo, que ele chama de materialismo aleatório (ou do encontro).

Mas de cara um marxista, e com razão, pode questionar: se já temos um materialismo, aliás dois, o histórico e o dialético, que servem como armas de mudar o mundo,  e tão atacado esses dias, porque lançar mão de outro? Não seria jogar a toalha? E outra, como confiar num suposto materialismo que inclui nomes "idealistas" de carteirinha, como o reacionário Heidegger, ou o hermético Derrida, que mais confundem e atrapalham do que ajudam a causa do proletariado?
De fato, são questionamento pertinentes, que nós compartilhamos. Se Althusser em vários momentos buscou solidificar o marxismo-leninismo, através de várias contribuições (como a defesa do marxismo como ciência, da ruptura de Marx com o legado burguês humanista e da dialética hegeliana etc.), com limitações obviamente, é visível que sua última fase contradiz ao que o próprio buscava: não uma filosofia nova, mas uma nova prática filosófica, que não estivesse mais no estatuto da velha filosofia. Entrar no mesmo terreno dos antigos filósofos é negar a revolução efetuada pelo materialismo histórico, que enterrou a filosofia enquanto tal, desde a Ideologia Alemã (e fez surgir a possibilidade do materialismo dialético).

Mas se é possível “usar” minimamente, alguma contribuição de teóricos fora do campo marxista – desvios muito comuns na construção do próprio marxismo, que é dialética, e se efetua na apropriação/destruição do saber “do outro lado” (de outra classe), talvez uma análise sobre esse último Althusser, mais propriamente seu pequeno livro inacabado A corrente subterrânea do Materialismo do Encontro se faça necessário – livro publicado só postumamente em 1994, e no Brasil, presente na revista Crítica Marxista 20 (2005, utilizaremos desta edição).

Além disso esse texto é contemporâneo a uma problemática do “pós-marxismo” de hoje, quer seja,  a busca de elementos que consigam romper com a reprodução/estrutura da ordem vigente. Nele, sujeito, acontecimento, evento, são tantos nomes usados para buscar a possibilidade teórico de uma ruptura revolucionária, já que a proposta “bem planejada” do leninismo não conseguiu (de forma bem simplista mesmo) romper com as cadeias da reprodução capitalista e sua superação em direção ao comunismo. O refúgio na filosofia parece ser o caminho para reiniciar uma nova diretriz teórica. Exemplo disso é o influente “pós-marxista” de hoje, Alain Badiou, que busca unificar a proposta do althusserianismo com outros projetos (da psicanálise lacaniana, do existencialismo, principalmente). Essa articulação possibilitaria uma visão do sujeito e da ação "livre", ou seja, uma intância fora da estrutura social e seu processo de reprodução, radicalmente nova e consistente (ao contrário império de um processo sem sujeito, presente no althusserianismo). Essa visão, compartilhada e construída por outros pensadores, implicaria numa nova forma de encarar a política hoje, e assim encher de esperanças e possibilidades movimentos contra-hegemônicos que se veem de todos os lados presos à dramática hegemonia global do capital pós bloco socialista.

Isso de maneira bem resumida, sem entrar nas consequências outras dessa teoria, que inclui por exemplo um novo conceito de comunismo (por demais platônica, por vezes liberal e até cristã). Mas o que nos chama atenção, e nos faz voltar a Mallarmé, e a Althusser tardio e a atualidade de sua problemática, é a persistência no aspecto contingente da história; da primazia da surpresa, do encontro não planejado, em oposição à suposta sede leninista de buscar “organizar” a revolução. Em Badiou, o evento é “impossível” de organizar, de forma bem grosseira. O que podemos fazer é entrar nele e nos sentirmos felizes por ele aparecer - sendo fiel a ele, em seu linguajar. Não é por outra razão que os “novíssimos movimentos sociais” pós crise de 2008, a la occupys, e sua brutal ausência de organização e estratégia são vistos com bons olhos por teóricos do “pós-marxismo”.

Voltemos de vez a Althusser. Já vimos uma possível utilidade e contemporaneidade das questões que coloca em seu livro já citado. Continuemos.

Resumidamente, o que ele propõe nesse livro? Uma visão materialista que se fundamenta no primado do contingência em oposição à forma; do vazio ao ser; do encontro à causa necessária. Essa visão suporta um mundo guiado não só pela “contingência da necessidade”, mas também pela “necessidade da contingência”. 

Para ele, no fundo, o idealismo seria exatamente a crença humana, moderna, de que o real seja controlável, e segundo a razão humana, ou segundo uma causa maior (teológica etc.). Isso não é novo, pois sua crítica à teleologia hegeliana no marxismo "não-marxista" é mais ou menos por essa razão: tentar colocar à história e ao mundo uma finalidade que esteja de acordo com nossa razão, nossa pretensão, ou qualquer pretensão universal (da Razão, de Deus etc.). Nessa filosofia essencialista, teleológica, onde uma grande Finalidade ordenaria a existência, lógica e realidade se casam no final, após um período de desencontro. E aí estaria o mais profundo idealismo: a primazia desta filosofia seria das ideias, da consciência (humana) do mundo, e não do mundo em si, do real. Althusser com isso nada mais faz que confirmar o diagnóstico da dialética hegeliana como idealista e prejudicial ao pensamento materialista.

Um materialismo consequente, continua, seria a aceitação da contingência do mundo que vai além do controle humano e de qualquer pretensão de contorná-lo segundo um princípio único e eterno (o problema, como vamos ver, é até que ponto vai esse descontrole e essa falta de princípios...). É na história da filosofia que Althusser buscará nomes que contribuíram para esse materialismo do encontro. Esse materialismo teria existido até o momento de forma assistemática, implícita, subterrânea,  perpassando os séculos: começa definitivamente com Epicuro (o mesmo estudado por Marx em seu doutoramento). Epicuro (depois de Demócrito, e antes de Lucrécio) acreditava que o mundo é feito de unidades fixas, os átomos, mas que além e antes deles havia o vazio. No vazio, sempre-já havia uma chuva de átomos, que não se articulam. Assim, o elemento de tudo sempre-já existe, ao mesmo tempo que não há nada. Nesse lance de dados paralelos, sem início nem fim, é preciso a emergência de uma pequena mudança de rumo para que um encontro apareça, e apareça uma forma/unidade: as gotas de átomo tendem ao infinito se não houver um desvio. Essa mudança no entanto existe, apenas (ela é a possibilidade da existência das coisas): mas sem grande causa ou razão anterior, sem sujeito que a opere segundo uma finalidade, permanecendo no marco da objetividade e da aleatoriedade.

Ou seja, no materialismo do encontro, é o vazio, e não a forma que surge do encontro (que pode ser fugaz e infinitamente mutável), o constante, o elemento central. Heidegger, segundo o autor, seria outro nome tardio dessa corrente, porque valorizaria o aspecto do “se deu assim” do mundo, não buscando suas origens e as causas por trás delas; o mundo aparecendo como dom, diferente da corrente ocidental hegemônica (exemplo, aristotélica) que buscaria uma causa maior para tudo que existe.
 
Maquiavel, que Althusser estudou de forma destacada no final da vida, também está presente nessa corrente. No caso concreto da Itália ainda fragmentada do século XVI, com vários pedaços que ainda não se encontraram, nem se fixaram, Maquiavel lançou um chamado genérico a qualquer homem, que de um lugar qualquer poderia efetuar essa unificação. Unificação essa, que da mesma forma dos átomos, não se tem garantia de realização, nem de sua continuidade.

O próximo "materialista" seria Espinosa, esse outro predileto do althusserianismo (em oposição a Hegel para boa parte do marxismo). Espinosa, em vez de começar pelo mundo ou pelo homem, como seus contemporâneos, e acabar montando uma causa último (Deus), começa logo por Deus. A operação que ele faz é, no fundo, desmontar a noção de criação presente na cultura ocidental, pois para ele Deus é tudo, é substância única de tudo, é ele próprio a natureza, e não uma causa externa e anterior a ela. Se Deus é tudo, nada é – nada o diferencia, e este é diluído. De uma forma meio irônica afirma que fora de Deus não há nada, mas esse Deus é o existente, a objetividade, a natureza – e a multiplicidade de formas que surgem disso: uma universalidade/diversidade, o todo e suas inúmeras formas provindas do encontros aleatórios. Da mesma forma, destrói a garantia a priori do conhecimento, de um humano sempre racional, como demonstrava o racionalismo.

Depois Hobbes, que por sua vez destrói a garantia e a fixidez da vida social pelo medo generalizado que faz a condição humana. O lobo do homem, em Hobbes, é o "demônio" que espreita a sociedade e pode tudo destruir – tudo que era sólido, se desfaz – e gera a guerra geral, e infinita. À maneira de um átomo na chuva de Epicuro, um indivíduo pode encontrar e matar qualquer outro violentamente, a qualquer momento. Nessa insegurança eterna,  “o inferno são os outros”, já que estes impedem nossa pretensão individual de domar o mundo a nossa semelhança, só possível a priori num mundo totalmente vazio, sem outras forças e desejos.

Da mesma forma, Rousseau, sendo outro representante "materialista", projeta um estado de natureza puro onde os indivíduos se cruzam, mas não constituem sociedade, até que uma força que não controlam (catástrofe natural, por exemplo) os obriguem a tal (semelhante ao Leviatã de Hobbes, que surge de um acordo “calculado”, e espreitado pelo medo da morte violenta). A recaída, ou o desfazer dessa obra (encontro não controlado),  também é presente de forma constante aqui.

E por esse longo caminho entramos em  Marx. No fundo, a pretensão última do texto é apresentar uma contribuição ao marxismo, como vemos, a sua maneira. O último tópico do texto é sobre a relação entre modo de produção e transição, ou seja, sobre o ponto central do materialismo histórico, cujo materialismo dialético engendra ferramentas que busca posições justas nesse terreno científico.

Para Althusser, toda essa corrente materialista por ele exposta é marcada por uma característica geral: o fim de qualquer garantia histórica (e mais, “ontológica”). Ora, para o autor, esse abandono é exatamente o que possibilita pensar a conjuntura (um conjunto aleatório de “coisas”, que existem momentaneamente, mas que poderiam ter existido de forma diferente) e propor, de uma forma genérica a possibilidade de superação – a ser efetuada, por sua vez numa situação também concreta, singular e não garantida totalmente a priori. Segundo ele, Marx  foi “forçado a pensar dentro (desse) horizonte desfalecido entre o aleatório do Encontro (na história) e a necessidade da Revolução”. Esse horizonte estaria presente em todos aqueles que buscam não só entender a realidade, mas mudá-la; não só pensar, mas fazer política; buscam “não só a essência da realidade, mas sobretudo a essência da prática, e a ligação entre estas duas realidades no momento do seu encontro: na luta [...]”. Ou seja, esse seria o quadro sob o qual o materialismo (o consequente) ganharia ares de revolucionária. E assim como Espinosa, Marx buscaria “pensar seu pensamento, e como é pensamento da prática, pensa a prática através do pensamento”.

De fato Althusser consegue gerar um raciocínio que vai do primado do vazio sob a forma, da contingência sobre segurança, na história, para a importância central do marxismo: a prática revolucionária. A falta de garantia ontológica, de uma grande Razão que se realiza na história, possibilitaria a própria luta na história, e a necessidade de uma avaliação e transformação concreta, segundo uma determinado forma posta. A mesma operação de "desmonte" das velhas pretensões filosóficas e o primado de uma prática numa conjuntura já está presenta nas teses contra Feuerbach, de Marx:

"2- A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica.

11- Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo."

O primado do vazio sobre a forma, traduzindo para o marxismo, da contradição sobre a unidade, nos remete sem dúvida a Mao. A contribuição de Mao na dialética marxista, e que Althusser valorizou tanto, foi a universalidade/diversidade da contradição, que quer dizer: o aspecto provisório da unidade, e a universalidade da contradição, que nunca é única, mas apresenta de forma singular, móvel e hierarquizada de contradições numa conjuntura específica (sobrecontradição). Nesse sentido, até sob os olhos estranhados de Althusser nessa fase, a dialética maoísta se mostra materialista, pois não se fixa em ideais, mas num terreno material, histórico e singular, num constante e verdadeiro processo de criação/destruição (onde realmente podem surgir novas formas, a surpresa pode aparecer, e não um retorno quase idílico a fase pré-alienação como na dialética hegeliana e sua negação da negação). Em vários momentos Mao busca acrescentar a categoria de novo/velho no materialismo dialética, para além da luta de classes (que inclusive pode não se concluir, com o fim da humanidade por exemplo, mas este não é um problema para o verdadeiro materialismo, que não é nem humanismo nem pragmatismo): a luta de classes um dia pode findar-se – mas isso não significaria o fim das lutas, conflitos, e transformações (novamente, ordem/unidade instável, desordem/contradição constituinte e permanente). Nessa visão dialética materialista, a humanidade é um fenômeno "insignificante" frente ao natural, ao universo infinito, e seu própria fim poderia significar inclusive uma superação (com outras espécies, etc.). O humanismo e racionalismo ocidental – ideologia burguesa, cuja religião é o culto do “índivíduo geral” - que tanto impregnou e impregna o marxismo, é lançado ao lixo e fica uma visão científica e de acordo com a luta proletária, que busca uma nova página da história e o papel das massas nesse processo. Não faz nenhum sentido, a não ser para a ideologia burguesa, que lutou contra o absolutismo e o poderio da Igreja, que a natureza ainda tenha uma grande finalidade/sentido, como crê as religiões, e muito menos que esta se guie pela razão e consciência humana “universal”.

Então valeria perguntar: porque priorizar uma "desconstrução" de Derrida e não a dialética marxista, como presente em Mao? Eis uma pergunta que fica. Em partes do livro o autor chega a comentar que é ridículo buscar um fundo político único para esses "novos" autores "materialistas" (exemplo sobre Maquiavel: monárquico ou republicano?), assim como em outra obra criticou o simplismo de reduzir todo saber em ciência burguesa e ciência proletária. Tais teóricos contribuiriam, com limitações e com outra linguagem, ao materialismo. No entanto, isso não responde o “grau” de uso que faz desses autores fora do marxismo. E veremos que é exatamente nesse grau onde está todo o risco da filosofia do vazio de Althusser, que nos lança para terrenos não tão marxistas assim.

Foquemos então nesse risco, assim como na crítica que Althusser dedica a Marx no final do livro. Ponderando suas posições veremos melhor sua justeza.

Deve ter se tornado visível até aqui que a filosofia do vazio pode desembocar numa visão muito prejudicial à prática revolucionária. Há um claro risco de “niilismo” nela, onde tudo é fluido e contingente ao extremo, numa infinita desordem ontológica, onde o mundo tem “uma constituição aleatória”. Essa concepção pode facilmente levar ou ao imobilismo político, ou a perde de prioridades e organização na política.  Esse inclusive é todo o "mal" pós-moderno, cujo ceticismo faz abandonar a luta revolucionária e a aliança com os trabalhadores.

Eis seu risco maior: se tudo é incerto, não garantido, posso preferir (mais “lógico”) nada fazer, ou fazer qualquer coisa. Não tendo nada em minhas mãos, esperarei, não a razão primeira, mas a não-razão primeira!

Contra isso devemos colocar em primeiro lugar a capacidade tecno-científica de controlar vários aspectos da natureza, e que esse saber e técnica, prático, é possível de ser progredido, a história nos prova isso; e que a ciência da história, o marxismo, possibilita ao proletário sim uma atuação segura e sem ser totalmente refém dos acasos, conhecendo para isso as circunstâncias, a estruturas e suas tendências. Como já dizia Engels, e Mao completa, a liberdade é saber e atuar segundo a necessidade - para depois transformá-la radicalmente. 

Ou seja, a unidade, inclusive da vida, da humanidade, não é permanente, mas ela se firma sob uma forma/conjuntura, um encontro já realizado (uma possibilidade em milhões...), com um grau específico de garantia e "duração", sendo possível traçar probabilidades, cujas realizações não são 100% garantidas, mas mais ou menos prováveis, segundo sua posição. De fato, somos jogados, como diz Marx, num mundo e numa história (conjuntura) que não escolhemos, que está aí, poderia ser diferente, e bem provável que seja transitório. Mas o grau de contingência maior ou menor possibilita tanto o conhecimento quanto atuação segura sobre a realidade específica.

Sem cair nos excessos das origens e efeitos aleatórios por completo, sem explicação externa ou interna, discordamos de Althusser ao dizer que nenhuma determinação (lei) nem mesmo é esboçada (!) num encontro. Ora se isso pode ter certa lógica se nos transportamos no infinito do universo, onde as possibilidades de fato são ainda além do conhecimento humana, isso não condiz com um terreno limitado e específico, como a história, uma formação social, um modo de produção etc. Na história da evolução das espécies, por exemplo, o número de possibilidades de formações genéticas diminui cada vez que focamos mais um ramo evolucional ou grupo taxonômico. Isso não impõe a necessidade de uma causa primeira: a própria vida surgiu certamente de um encontro de circunstâncias favoráveis e "não-planejadas", e também é um encontro provisório (a possibilidade do fim da vida em nosso planeta é uma possibilidade sempre real), e que poderia nunca ter ocorrido (como não ocorreu em vários locais do universo que "conhecemos"). Assim como há a constante possibilidade de fim de uma espécie/de sua transferência genética, o fato dessa espécie ter surgido em meio a tantas outras que desapareceram e não vingaram etc. Mas esse fundo sempre existente que possibilita o fim de uma unidade, de acordo com as contradições da realidade, se apresenta não de forma única a todo instante, mas sob força quantitativamente diferenciada, dependendo das circunstâncias.  Mutações muito “contingentes” podem acontecer a qualquer espécie, mas estas só surgem sob uma forma já dada e consolidada, que ainda persiste e produz seus efeitos.

Outro exemplo seria o encontro entre o espermatozóide e o óvulo. Não é nada garantido, porém as circunstâncias que os dois se encontram dentro de um organismo feminino, forma já constituída, aumenta e consolida as probabilidades deste acontecer.

O encontro feliz de tudo que existe e pode deixar de existir, que versa a filosofia do vazio, não é tanto ao acaso assim, como Althusser tenta mostrar alguns momentos. O acaso espreita, existe, mas em menor ou maior grau, dependendo das formas já constituídas e do ponto/momento específico levado em consideração.

No entanto, no final Althusser parece apresentar teses mais coerentes sobre esse aspecto, detectando o risco da contingência extremada. Comenta “concordamos com que não haja nenhuma lei que presida o encontro (...), porém acrescentaremos também que, uma vez “tendo pego” o encontro, isto é, uma vez constituída a figura estável do mundo, do único que existe (porque o advento de um mundo dado exclui evidentemente todos os outros possíveis), nós temos a ver com um mundo estável cujos acontecimentos obedecem, na sua sucessão, a “leis”. Pouco importa, então, que o mundo, o nosso (não conhecemos outro, só conhecemos, da infinidade de atributos possíveis, unicamente o entendimento e o espaço, “Faktum”, poderia ter dito Espinosa), nasceu do encontro de átomos caindo na chuva epicurista do vazio, ou do “big bang” do qual falam os astrônomos; é um fato que temos a ver com este mundo e não com um outro; é um fato que este mundo é “regular” (como se diz de um jogador honesto: pois este mundo joga e zomba bem e belamente de nós), é submetido a regras e obedece a leis. [grifo nosso]. Daí a grande tentação, mesmo para aqueles de nós que aceitariam as premissas deste materialismo do encontro, de refugiar-se, uma vez que o encontro “pegou”, no exame das leis surgidas desta “pega” de formas, repetindo estas formas no seu fundo indefinidamente. Porque é também um fato, um “Faktum”, que há ordem neste mundo e que o conhecimento deste mundo passa pelo conhecimento de suas “leis” (Newton)."

Ou seja, o vazio seria o "princípio" (o não-princípio), ao mesmo tempo o risco constante. Porém, com um encontro constituído, uma unidade vindo a toda, ele é regido por leis específicas, duráveis até seu fim. O medo de Althusser é a generalização ad infinitum dessas leis, da impossibilidade de mudança qualitativa radical - retorno da filosofia idealista/essencialista. E Althusser infelizmente não desenvolve sobre o "tamanho" desse encontro, o que colaboraria para por fim aos riscos de sua construção teórica. Com "tamanho" gostaríamos de dizer exatamente a complexidade e perenidade desse encontro, que diria por sua vez as características e importância de suas leis. Uma unidade "universo", é muito diferente de uma unidade "pessoa": as contradições que atuam sobre as duas possuem níveis diversos, e a segunda é muito mais propícia de ser destruída por um evento aleatório. Mais uma vez vemos a importância de estabelecer os estatutos dessas formas/encontros/unidades: a generalidade nesse aspecto pode muito bem levar essa filosofia para uma boa justificativa teórica do pós-modernismo vulgar e reforçar as correntes pós-estruturalistas (que inclusive namoram bastante com muitas categorias althusserianas).
 
Um exemplo usado por Althusser desse encontro que emana leis, para entrar na polêmica propriamente dita do materialismo histórico, seria o próprio capitalismo:"Em inúmeras passagens, Marx, e não acontece certamente por acaso, nos explica que o modo de produção capitalista nasceu do “encontro” entre o “homem com dinheiro” e o proletário desprovido de tudo, exceto de sua força de trabalho. “Acontece” que esse encontro ocorreu e “pegou”, o que significa que não foi desfeito tão logo realizado, senão que durou e se tornou um fato consumado; o fato consumado desse encontro provoca relações estáveis e uma necessidade cujo estudo fornece “leis”, tendenciais, evidentemente: as leis do desenvolvimento do modo de produção capitalista (lei do valor, lei da troca, lei das crises cíclicas, lei da crise e da decomposição do modo de produção capitalista, lei de passagem – transição – ao modo de produção socialista sob as leis da luta de classes etc.) [...] Podemos avançar ainda e supor que o encontro aconteceu na história numerosas vezes antes de sua “pega” ocidental, mas, por falta de um elemento ou da disposição dos elementos, não “pegou”, então. Servem de prova os Estados italianos do vale do rio Pó nos séculos XIII e XIV, nos quais havia evidentemente homens com dinheiro, tecnologia e energia (máquinas movidas pela força hidráulica do rio) e mão-de-obra (os artesãos desempregados), e, no entanto, o fenômeno não “pegou”. Faltou, sem dúvida (talvez esta seja uma hipótese), aquilo que Maquiavel buscava desesperadamente sob a forma de um apelo para um Estado nacional, isto é, um mercado interior adequado para absorver a possível produção."

Mas novamente, mesmo considerando uma unidade durável, esse encontro não recebe o estatuto necessário. Os trabalhadores e burgueses parecem se encontrar assim como duas moléculas numa solução - sem levar em conta uma fixação num terreno histórico conjuntural de alternativas mais ou menos prováveis. "Elementos flutuantes que se encontram", diz. “Esses elementos não existem na história para que exista um modo de produção" (sic, qual seria a possibilidade deles não resultarem em um modo de produção qualquer? qual queria a probabilidade daquelas formações sociais desaparecem naquele momento histórico de transição, caso não concluíssem nenhum modo de produção? muito pequena, arriscariamos), "eles existem em estado “flutuante” antes de sua “acumulação” e “combinação”, sendo cada um o produto de sua própria história e não o produto teleológico dos outros ou da história deles.”. Ao lançar fora a garantia absoluta de uma alternativa, de uma forma, segundo uma razão e finalidade transcendente, exterior e necessária à história que não existe de fato, Althusser acaba lançando fora também toda e qualquer garantia, ou seja, as probabilidades e leis que emanam da hierarquia de formas cujos elementos aleatórios estão relacionados. O encontro do proletário com burguês, a transição de um modo de produção para um outro, parecem se realizarem no vácuo, só encontrado em locais específicos do universo ou laboratórios científicos. As tendências anteriores são apagadas por completo: são só dois átomos num choque feliz e incontrolável.

Por isso sua recriminação a Marx, na tese de decadência feudal, por ver o proletariado e burguesia surgindo do capitalismo (estrutura anterior aos elementos, razão antes do encontro), e não como elementos que se encontram ao acaso e possibilitam o capitalismo, possui um tom enviesado. Buscando garantir a existência do aleatório, desprende-se da conjuntura. A surpresa existe na história, mas ela seria o fator central da transição de um modo de produção ao outro? Achamos muito arriscado tal afirmação. Essa recriminação a Marx pode muito bem ser transposta na busca marxiana de impor uma finalidade à história em alguns momentos (levada “necessariamente a ditadura do proletariado”).

Tentando colocar o marxismo sob uma maior influência de sua filosofia do vazio, estranhamente Althusser comenta ao extremo "Se a burguesia, longe de ser o produto contrário ao regime feudal, fosse seu acabamento e sua culminância, sua mais alta forma e, por assim dizer, seu aperfeiçoamento?". A contingência aqui, se torna paradoxal: o elemento de desordem é tão contingente que serve à própria ordem que o fundou!

Muitas questões profundas sobre a dialética exigiriam ser continuadas aqui. Mas buscaremos findar nossa contribuição.

Nossa crítica buscou demonstrar que as probabilidades, as tendências mais ou menos duráveis de uma unidade/encontro não negam a permanência da contradição/contingência. Não tira de toda forma existente sua instabilidade radical, rodeada de abismo (como o contrato de Rousseau que paira no abismo e como diz Mallarmé no poema referido “PORQUE o Abismo Branco se expõe furioso sob uma inclinação desesperadamente plana d’ asa”). No entanto, é preciso levar em consideração o estatuto e a articulação dessas unidades, que dependendo da diferença podem estar mais suscetíveis a mudanças, surpresas ou não.

Afinal, nosso planeta não pode muito bem ser destruído, em um período historicamente breve, inclusive pelas bombas humanas como dizia Mao? Isso só afirma que as leis e unidades de agora, podem mudar (a história que é da luta de classes, desde o surgimento das classes, pode acabar, e se iniciar novas formas de lutas e leis), como Marx já dizia. 

Vale a pena trazer de volta a crítica pós-marxista em relação ao leninismo. Vimos que a dialética marxista, e toda a história das revoluções comunistas, demonstra que são as circunstâncias e a conjuntura que são a base de qualquer ação política, e estas não se reduzem a aspectos controlados por sujeitos específicos. O fluxo do movimento de massas se inicia muitas vezes por “coisas pequenas”, “inesperadas”, “contingentes”, de repente (mudança qualitativa), como um movimento grevista, a libertação político-militar de uma região etc., várias vezes não controladas diretamente por uma vanguarda, mas que deve ser disputada e apoiada por ela. E essas surpresas eventuais também nãos surgem no vácuo feliz de uma chuva epicurista, de um encontro puramente eventual, pois tem por trás de si toda uma estrutura e toda uma soma de unidades/efeitos contraditórios que possibilita a base de sua existência, aqui ou ali. E esse "estourar" não tem nada de metafísico, mas está na materialidade da vida das massas em sua constante resistência.

Como também já está presente nas teses... de Marx: somos fruto da nossa educação e das circunstâncias, mas estas também são transformadas por nós, e o educador também precisa ser educado.

Esperamos ter colaborado com algo. Acreditamos que a crítica sincera e não dogmática são os passos que indicam a saída da crise do marxismo. Assumir essa crise, assim como a reconstrução constante do marxismo são essenciais para o atual momento.

*****

Althusser começa seu livro com a chuva. Chove – acontece. E não necessariamente nos lugares que mais precisam, na hora que queremos, acontece. Eis o caráter do universo, que para nós parece irregular, exatamente por não controlarmos totalmente suas circunstâncias. A chuva, assim como a natureza, e a vida, que surgiu nesse planeta (e possivelmente em outros) através de vários “encontros” e caminhos sinuosos e muitos deles ao puro acaso, tem sua beleza e seu lado “enigmático”, mas que isso não nos imobilize, na posição de contemplação do absurdo da existência (tal qual o existencialismo, pequeno burguês, onde o mundo parece caótico, à maneira dos padres, exatamente por não existir transcendência, por nada e nenhum Deus garantir de antemão nada, inclusive a valiosa “vida” pequeno burguesa!). Pois é exatamente na prática que podemos ver os dados serem lançados, o acaso de novo acontecer ou não – e tomar a decisão, de resistir e lutar, ou ser levado passivamente pela chuva dos acasos. Porque, para um marxista, não há outra razão de existir nesse universo infinito a não ter a honra de resistir. Brasileiramente falando: não adianta existir sem ser teimoso, pois teimosia é o fundamento próprio da existência, como já dizia o ditado popular “quem não chora não mama”.

Em texto que reproduzimos aqui no Blog, “a morte é uma exagerada”, encontramos:

“Transformar o mundo e mudar de vida, como exigiam Marx e Rimbaud, parece muita vezes sem sentido. Mas há algum sentido em estar parado? Nos seus Provérbios do Inferno, William Blake garantia: “O que deseja e não age gera pestilência.” 
A guerra dos anjos revoltados contra o poder de Deus é uma guerra perdida. Mas é um grito contra a adversidade.” 
Como escrevia Giambattista de Marino, no seu Satã, “[…] e mesmo se tombarmos vencidos, ter tentado tão alto feito é ainda um triunfo…”"

Mas, pelo contrário, a guerra do povo não é uma guerra perdida a priori, e nem seu prazer está nas derrotas! Das derrotas ela cresce em experiência, de fato, e assim soma sua possibilidade de vitória. Uma vitória não garantida por uma causa primária, mas historicamente aberta, que em uma mão tem as circunstâncias e na outra a atuação, a luta – como se é toda a história, diferente da teologia.

Que nossa pequenez frente ao universo não seja mais que um argumento para criarmos um mundo mais justo, buscar o novo, ao invés de nos prender a estruturas históricas tomadas como eternas e verdadeiras. Que o encontro que possibilitou o capitalismo nos dê certeza de sua historicidade e nos encha de esperança para construir uma alternativa a ele, que se avizinha, e vingará bem provavelmente. Como o próprio Althusser comenta ao final do texto: “se não há Sentido da história [ou da existência] (um Fim que a transcenda, de suas origens até seu término), pode haver sentido na história, porque este sentido nasce de um encontro efetivo e efetivamente feliz ou catastrófico, que é, também, sentido.”

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lenin sobre o reformismo

Reproduzimos a postagem "Lenin sobre el Reformismo (a propósito del reformismo en América Látina)", do blog Odio de Clase. Aos revisionistas brasileiros que ainda insistem em se chamar de comunistas ("com tática realista") e que constroem o "socialismo do século XXI". Que o proletariado e as classes progressistas nos últimos anos aprendam cada vez mais os limites das migalhas oferecidas pelas "políticas públicos" do Estado capitalista; a farsa reforçada pelos reformistas em mostrar que vivemos em uma democracia verdadeira.




Lenin calificó al Reformismo como “un engaño de que la burguesía hace víctimas a los obreros, quienes, mientras subsista el dominio del capital, seguirán siendo esclavos asalariados, pese a algunas mejoras aisladas”. 

Es decir, el intento de confundir, de engañar a los obreros con que su situación mejorará en el marco del mismo sistema para que renuncien a la idea de transformarlo, es la esencia del reformismo, y ello tiene mucho que ver con la propaganda que éste lleva adelante.

Marxismo y reformismo

V. I. Lenin

A diferencia de los anarquistas, los marxistas admiten la lucha por las reformas, es decir, por mejoras de la situación de los trabajadores que no lesionan el poder, dejándolo como estaba, en manos de la clase dominante. Pero, a la vez, los marxistas combaten con la mayor energía a los reformistas, los cuales circunscriben directa o indirectamente los anhelos y la actividad de la clase obrera a las reformas. El reformismo es una manera que la burguesía tiene de engañar a los obreros, que seguirán siendo esclavos asalariados, pese a algunas mejoras aisladas, mientras subsista el dominio del capital.

Cuando la burguesía liberal concede reformas con una mano, siempre las retira con la otra, las reduce a la nada o las utiliza para subyugar a los obreros, para dividirlos en grupos, para eternizar la esclavitud asalariada de los trabajadores. Por eso el reformismo, incluso cuando es totalmente sincero, se transforma de hecho en un instrumento de la burguesía para corromper a los obreros y reducirlos a la impotencia. La experiencia de todos los países muestra que los obreros han salido burlados siempre que se han confiado a los reformistas.

Por el contrario, si los obreros han asimilado la doctrina de Marx, es decir, si han comprendido que es inevitable la esclavitud asalariada mientras subsista el dominio del capital, no se dejarán engañar por ninguna reforma burguesa. Comprendiendo que, al mantenerse el capitalismo, las reformas no pueden ser ni sólidas ni importantes, los obreros pugnan por obtener mejoras y las utilizan para proseguir la lucha, más tesonera, contra laescalvitud asalariada. Los reformistas pretenden dividir y engañar con algunas dádivas a los obreros, pretenden apartarlos de su lucha de clase. Los obreros, que han comprendido la falsedad delreformismo, utilizan las reformas para desarrollar y ampliar su lucha de clase.

Cuanto mayor es la influencia de los reformistas en los obreros, tanto menos fuerza tiene éstos, tanto más dependen de la burguesía y tanto más fácil le es a esta última anular con diversas artimañas el efecto de las reformas. Cuanto más independiente y profundo es el movimiento obrero, cuanto más amplio es por sus fines, másdesembarazado se ve de la estrechez del reformismo y con más facilidad consiguen los obreros afianzar y utilizar ciertas mejoras.

Reformistas hay en todos los países, pues la burguesía trata por doquier de corromper de uno u otro modo a los obreros y hacer de ellos esclavos satisfechos que no piensen en destruir la escalvitud. En Rusia, los reformistas son los liquidadores, que renuncian a nuestro pasado para adormecer a los obreros con ilusiones en un partido nuevo, abierto y legal. No hace mucho, obligados por Siévernaya Pravda, los liquidadores de SanPetersburgo comenzaron a defenderse de la acusación de reformismo. Es preciso detenerse a examinar con atención sus razonamientos para dejar bien clara uba cuestión de extraordinaria importancia.

No somos reformistas -escribían los liquidadores petersburgueses-, porque no hemos dicho que las reformas lo sean todo y que el objetivo final no sea nada; hemos dicho: movimiento hacia el objetivo final; hemos dicho: a través de la lucha por las reformas, hacia la realización plena de las tareas planteadas.

Veamos si esta defensa corresponde a la verdad.

Hecho primero. Resumiendo las afirmaciones de todos los liquidadores, el liquidador Sedov ha escrito que dos de "las tres ballenas" presentadas por los marxistas no sirven hoy para la agitación. Ha dejado la jornada de ocho horas, que, teóricamente, es factible como reforma. Ha suprimido o relegado precisamente lo que no cabe en el marco de las reformas. Por consiguiente, ha incurrido en el oportunismo más palmario, preconizando ni más ni menos que la política expresada por la fórmula de que el objetivo final no es nada. Eso es justamente reformismo, ya que el "objetivo final" (aunque sólo sea con relación a la democracia) se aparta bien lejos de la agitación.

Hecho segundo. La decantada conferencia de agosto (del año pasado) de los liquidadores también pospone -reservándolas para un caso especial- lasreivindicaciones no reformistas, en vez de sacarlas a primer plano y colocarlas en el centro mismo de la agitación.

Hecho tercero. Al negar y rebajar "lo viejo", queriéndose desentender de ello, los liquidadores se limitan al reformismo. En las actuales circunstancias es evidente la conexión entre el reformismo y la renuncia a "lo viejo".

Hecho cuarto. El movimiento económico de los obreros provoca la ira y las alharacas de los liquidadores ("pierden los estribos", "no hacen más que amagar", etc., etc.), toda vez que se vincula con consignas que van más allá del reformismo.

¿Qué vemos en definitiva? De palabra, los liquidadores rechazan elreformismo como tal, pero de hecho lo aplican en toda la línea. Por una parte nos aseguran que para ellos las reformas no son todo, ni mucho menos; mas, por otra, siempre que los marxistas van en la práctica más allá del reformismo, se ganan las invectivas o el menosprecio de los liquidadores.

Por cierto, lo que ocurre en todos los terrenos del movimento obrero nos muestra que los marxistas, lejos de quedarse a la zaga, van muy por delante en lo que se refiere a la utilización práctica de las reformas y a la lucha por las reformas. Tomemos las elecciones a la Duma por la curia obrera: los discursos pronunciados por los diputados dentro y fuera de la Duma, la organización de periódicos obreros, el aprovechamiento de la reforma de los seguros, el sindicato metalúrgico, uno de los más importantes, etc., y veremos por doquier un predominio de los obreros marxistas sobre los liquidadores en la esfera de la labor directa, inmediata y "diaria" de agitación, organización y lucha por las reformas y su aprovechamiento.

Los marxistas realizan una labor constante sin perder una sola "posibilidad" de conseguir reformas y utilizarlas, sin censurar, antes bien apoyando y desarrollando con solicitud cualquier actividad que vaya más allá delreformismo tanto en la propaganda como en la agitación, en las acciones económicas de masas, etc. Mientras tanto, los liquidadores, que han abandonado el marxismo, no hacen con sus ataques a la existencia misma de un marxismo monolítico, con su destrucción de la disciplina marxista y con su prédica del reformismo y de la política obrera liberal más que desorganizar el movimiento obrero.

Tampoco se debe olvidar que el reformismo se manifiesta en Rusia de una forma peculiar, a saber: en la equiparación de las condiciones fundamentales de la situación política de la Rusia actual y de la Europa actual. Desde el punto de vista de un liberal, esta equiparación es legítima, pues el liberal cree y confiesa que, "gracias a Dios, tenemos Constitución". El liberal expresa los intereses de lo burguesía cuando defiende la idea de que, después del 17 de octubre, toda acción de la democracia que vaya más allá del reformismo es una locura, un crimen, un pecado, etc.

Pero precisamente estas ideas burguesas son las que ponen en práctica nuestros liquidadores, que "trasplantan" sin cesar y con regularidad (en el papel) a Rusia tanto el "partido a la vista de todos" como la "lucha por la legalidad", etc. Con otras palabras, los liquidadores preconizan, a semejanza de los liberales, el trasplante de una Constitución europea a Rusia sin reparar en el camino peculiar que condujo en Occidente a la proclamación y afianzamiento de las constituciones durante varias generaciones y, a veces, incluso siglos. Los liquidadores y los liberales quieren, como suele decirse, pescar truchas a bragas enjutas.

En Europa, el reformismo significa en la práctica renuncia al marxismo y sustitución de esta doctrina por la "política social" burguesa. En nuestro país, el reformismo de los liquidadores implica, además de eso, desmoronamiento de la organización marxista, renuncia a las tareas democráticas de la clase obrera y sustitución de éstas con una política obrera liberal.

domingo, 14 de julho de 2013

Por uma nova teoria da ideologia II: a contribuição leninista na crítica ao esquerdismo


Goya, O sonho da razão produz monstros: e as derrotas da esquerda, viria da "alienação" das massas?


No texto anterior Por uma nova teoria da ideologia: crítica à noção de conscientização e à “política racionalista” de esquerda, tentamos colocar o dedo em feridas intocáveis da esquerda brasileira baseadas num paradigma crítico e racionalista, ainda bastante hegemônico em diversas organizações e correntes. Esse paradigma, que está longe do marxismo revolucionário, se consolida como uma práxis da conscientização das massas através do primado da crítica na política.

Nessa política racionalista de esquerda, a crítica teria o poder de quebrar o encanto ideológico e possibilitar uma "revolução mental" nas massas alienadas, pré-requisito para a construção revolucionária. A luta de classes ganharia um contorno iluminista, da disputa entre as luzes (razão) e a escuridão (ideologia). O marxismo viria assim para "realizar" as pretensões burguesas já antigas e largadas por sua classe de origem.

Sob essa linha política subjaz uma certa teoria da ideologia como falsa consciência que precisa ser eliminada. Em Lukács, por exemplo, encontramos esse paradigma sob diversos aspectos: o problema da consciência do proletariado, um problema quase moral, seria quase o principal entrave da continuidade da revolução proletária. Nesse caso, a ação política revolucionária dependeria da consciência totalizadora e esclarecida, fora do âmbito reificado das relações dominantes.

Tentamos por fim apresentar uma alterativa teórica e prática da ideologia que prime pela prática e estrutura sobre a consciência, o coletivo sobre o individual, a partir sobretudo da noção althusseriana de ideologia como "eterna" (ideologia sendo subjetivação em si, formadora de relações sociais essenciais no nível cultural), e da contribuição de Safatle baseada em Marx sobre a diferença de nível entre crença e saber. Elas possibilitam enxergar a política muito mais como campo de forças do que como discursos racionalmente construídos vs. obscurantismo ideológico e fetichista; a importância maior da influência prática e cotidiana de massas frente à disputa, via razão, de consciências individuais. Grosso modo, e sabendo do risco anti-científico se esta tese for radicalizada: em vez de buscar destruir a crença (não-racional) em si, construir novas crenças, através de relações contra-hegemônicas.

Aqui pretendemos continuar nessa linha, agora baseando-se no famoso discurso de Lenin "A doença infantil do "esquerdismo" no comunismo".  Já utilizamos tal texto para criticar o anarquismo, no ensaio "O caminho do inferno é pavimento de boas intenções", e lá já está também argumentos que utilizaremos aqui, de uma forma não tão sistemática. A experiência prática e revolucionária de Lenin reforça e afirma de forma objetiva os pressupostos de uma outra teoria da ideologia que tentamos elaborar através de outros paradigmas não hegemônicos na esquerda hoje.


Sobre o texto esquerdismo... de Lenin

No texto, Lenin discursa em 1920 sobre os presentes desvios de esquerda presente no movimento comunista internacional. Esses desvios apontam críticas justas à traição dos oportunistas (desvio de direita) que levam o movimento revolucionário do proletariado para o reformismo, mas como alternativa prática pecam ao tentar realizar a revolução a partir de princípios (e preconceitos) radicais, eleitos fora de uma conjuntura concreta, e nesse sentido não retirando a lição central da prática bolchevique vitoriosa. Através de motes que condenam qualquer desvio tático, qualquer conciliação, qualquer compromisso com o inimigo e os traidores do movimento, os "esquerdas" pretendem realizar uma caminho puro e reto para a revolução.

Essa solução "fácil" é infantil pois é fora da realidade e não consegue efetivar as imensas tarefas que uma revolução exigem. O esquerdismo possui base ideológica pequeno-burguesa, e por isso, apesar de ser um problema muito menor que o oportunismo (aliás, Lenin demonstra que o esquerdismo é muito mais uma infância do pensamento revolucionário, ainda ingênuo, mas um primeiro passo, e não uma traição), deve ser combatido.

E nessa crítica política, prática, encontra-se uma teoria da ideologia que os comunistas devem se basear. 


Colaboração à teoria da ideologia de Lenin no esquerdismo...

Segundo as características que Lenin elenca sobre o esquerdismo, podemos arriscar e dizer que esse desvio é uma manifestação de "política racionalista de esquerda", que tentamos antes definir, através do anarquismo e da posição de Trotsky, como um escape da realidade objetiva (nível da prática imediata) e a construção de uma linha baseada nos princípios já claros pela vanguarda e que se nega a se "inferiorizar" taticamente. Sob essa coordenada, em Humanismo e Terror, Ponty critica Trotsky exatamente por pensar fora da conjuntura, negando as arbitrariedades e ambiguidades da história, e no fundo se isolar num nível especulativo, de uma consciência (pseudo)revolucionária abstrata, assim mais valendo cumprir o imperativo moral revolucionário "puro" que vencer o inimigo através de desvios. Na política racionalista, a única via de contato com as massas, que estão sob a égide da ideologia dominante e suas instituições, é a via discursiva, na busca de convencimento "de fora" das práticas dominantes e reacionárias, através de argumentos racionais e que dizem respeito à totalidade não vista no nível ideológico.

Criticando o egocentrismo do oportunismo e seu carreirismo parlamentar, assim como o centralismo e o papel de chefe políticos de massa, o esquerdismo acaba alimentando um outro tipo de egocentrismo, por negar a participar e disputar das lutas de caráter não-revolucionário imediato. A vanguarda se torna aquele sujeito que anuncia a verdade, via panfletos e programas, e a massa deve segui-los. O poder da razão é central aqui.

Em oposição a essa primazia da razão, e do saber, fora de uma conjuntura concreta, Lenin propõe a primazia da prática sobre o presente, como as revoluções russas e o poder soviético vitorioso à época ensinou à teoria. Segundo ele, a ideologia não é um erro teórico, ou uma consciência ainda não-esclarecida, recuperável através da propaganda revolucionária e disputa teórica. A ideologia age em outro nível: é um risco constante, para além da consciência, que emana da força "terrível" (p. 296) do "costume" (p. 281). Essa força possui, por sua vez, bases materiais para se perpetuar, como a pequena propriedade, a vigência da lei do valor, ainda presente inclusive no período de transição, um período em que o poder político e instituições são dirigida por revolucionários.

A vitória sobre a ideologia dominante, nesse sentido, não é nada fácil - exigindo assim, muito mais que uma arma, um formato de luta, "puro" e defendido infinitamente sem nunca mudar. Lenin enfatiza várias vezes que essa vitória só será conquistada, seja no período pré ou pós revolucionário para além da propaganda/agitação, em luta prática prolongada e sistemática. As massas tem necessidade de aprender pela prática, num conjuntura concreta, "sofrendo" as contradições e limites na própria pele. Há uma diferença radical entre saber teórico e saber prático (nível das crenças práticas, ideologia): comentando sobre os riscos da ideologia (pequeno-burguesa, no caso) invadir a política do Partido, Lenin comenta: "o reconhecimento teórico, abstrato, de tais verdades não é suficiente" para incorrer no erro (na prática).

Esse "para além da consciência", do saber teórico racional, ou seja, o nível ideológico persistente, que emana das práticas e não é apreendido pela totalidade do saber a todo instância pelos agentes sociais, colocado na citação anterior como problemático para a vanguarda pode ser facilmente transferido analiticamente para as massas.A consciência da exploração, da opressão, da traição dos partidos e organizações reformistas, de que "tudo está errado" de forma alguma é suficiente para gerar uma prática revolucionária, ou seja, romper de vez com as crenças ideológicas. Precisa-se muito além de "saber" isso, seja instintivamente ou teoricamente, possibilitar experimentar na prática a efetividade dessas verdades.

"Sem uma mudança de nas opiniões da classe operária (e da massa progressista) a revolução é impossível, e essa mudança consegue-se através da experiência políticas das massas, nunca apenas com a propaganda." (p.324), conclui Lenin. 

O papel dos comunistas frente às massas é de convencimento, é pedagógico, Lenin não nega: mas essa pedagogia é da prática, e da não conscientização (segundo o paradigma educacionista de que "a educação liberta o povo da alienação"). A própria prática tem um peso enorme da própria formulação teórica e racional, como Lenin demonstra com o ascenso do idealismo e pessimismo na cultura russa após a derrota da primeira revolução (p. 283).

E sobre esse ponto também completa Lenin: o nível educacional e cultural das massas não é empecilho determinante para uma tática correta e a vitória sobre a ideologia dominante. As massas russas eram muito mais "alienadas" que as ocidentais na época da revolução, ainda esmagadas pela cultura semi-feudal, pelo capitalismo atrasado etc. e mesmo assim "as massas compreenderam os bolcheviques" (p. 327) e sua linha tática de recuo quando necessário, sem significar traição. A vitória, sem dúvida, é a prova mais cabal dessa compreensão de poder prático e não meramente especulativo.

E Lenin vai mais longe. Essa compreensão não é uma compreensão "individual". É uma compreensão coletiva, através das classes e das organizações ativas que os sujeitos integram. Lenin comenta que "em qualquer classe, mesmo nas condições do país mais culto, mesmo na classe mais avançada [...] há sempre - e enquanto existirem classes, enquanto a sociedade sem classe não se tiver afirmado, consolidado e desenvolvido completamente sobre os seus próprios fundamentos, haverá inevitavelmente - representantes de classe que não pensam e que não são capazes de pensar. Se assim não fosse o capitalismo não seria o capitalismo opressor das massas" (p. 313). Mais uma vez, o nível cultural e educacional não é o empecilho central. Aliás, é até esperado e normal o desnível entre os sujeitos, por isso mesmo a necessidade de concentração/centralização política da classe ou da massa que consiga superar essa fragilidade. Efeito esperado inclusive porque obedece as estruturas sociais que organizam a prática social em ampla escala da massa.

Concorda-se com Cueva, em texto publicado também nesse blog: "ao ser a cultura uma criação dos homens, é, quer se queira ou quer não, um produto social; não pode compreendê-la a margem de suas condições sociais de produção e, consequentemente, da estrutura social a partir da qual é produzida. Contrariamente ao que postula o pensamento idealista, não é a cultura que confere sentido à sociedade mas sim esta, através de suas estruturas e processos, que confere sentido à cultura; em outras palavras, a sociedade é que a determina."

Os esquerdistas e "racionalistas canhotos" tem razão em dizer que uma ideia que toma a massa realmente torna-se uma força material, fundamentando-se em Marx. Mas é preciso lembrar que essa tomada só é efetiva quando se largam as velhas ideias. E as massas não são passivas, como nos ensina o leninismo: mudam quando entendem por si só, aos olhos vistos, através de incontáveis exemplos vivenciados, que é preciso largá-las. E tudo isso com os pés num solo histórico e material, numa conjuntura específica em que a vanguarda deve também estar, e não no terreno escorregadio das ideias.

Referência:
Lenin: A doença infantil do "esquerdismo" no comunismo. No livro Obras escolhidas (3), Alfa-Omega, 2 ed. 2004.

domingo, 7 de julho de 2013

Muitos dias em poucos: uma esquizofrenia anunciada?







O complexo mês de junho último balançou a luta de classes no Brasil. Em dias, é preciso bater nessa tecla, de jogos de futebol da seleção brasileira em casa, o povo, de maneira história (primeiro aos milhares, depois às centenas de milhares, enfim na casa do milhão), foi às ruas de maneira tão retumbante que nem mesmo a repressão, os engôdos do Estado e seus "intelectuais" de gabinete e a manipulação midiática o pode conter: em poucos dias, todas essas facetas da classe dominante se viu recuada, e em alguns casos, completamente na defensiva. Afinal, onde já se viu a PM brasileira distribuir flores e fotos antes dos atos, ou a mídia monopolista não levantar o direito de ir e vir do cidadão de bem a cada segundo de rua fechada?

No entanto, as muitas "variáveis" que estiveram envolvidas nos protestos de massa exigem uma séria análise por parte dos setores progressistas em nosso país. Até esses recuos do inimigo, não são vitórias absolutas, mas formas de luta/resistência em outro nível de correlação de forças. Sem a compreensão mais ampla da luta, e dos elementos "positivos" e "negativos" que se apresentaram nesse período, ou se cairá num otimismo ingênuo e cego - de que vivemos um período de pré-revolução "proletária" e coisas do gênero, que só meia dúzia de grupelhos autistas creem - ou ficaremos presos na sedutora teia do oportunismo da "esquerda majoritária" - que alarma o risco de um "golpe da direita" aos quatro ventos, e chega ao ridículo de twittar #dilmallende.

Tentaremos apontar alguns elementos. Cabe ao esforço coletivo, e não individual, das diversas organizações que participaram desse processo, construir um histórico não só de datas mas também de explicações sobre o fenômeno, de extrema importância para os próximos passos da luta de classes no país.

Contradições e antagonismos (latentes): 20 centavos + vinagre e tudo se desmancha pelo ar

Dia 17 de junho, El País, perplexo, afirmava que o Brasil estava vivendo uma esquizofrenia. Como pode, estourar uma revolta daquela população, sempre pacífica, cordial e simpática; naquele país, que nos últimos anos é exemplo de política social e crescimento econômico capitalista sustentável e "inclusivo"; e naquele momento, no qual recebia em casa um mundial do esporte que mais adorava e voltava sobre si os olhos do mundo todo (dos investidores e países dominantes, sobretudo)? Sobrevoando o país a jatinhos luxuosos, o governo se perguntava o mesmo, de posse de seus assessores e dados estatísticas (levemente maquiadas). As coisas não estariam melhor do que nunca? Mesmo a economia desde 2011 de forma geral não apresentou lá bons índices, e a inflação comendo pelas beiradas, o fato é que os empregos estavam sendo segurados, assim como a "vontade do povo", aprovação do governo sem questionamentos, ainda mais depois das eleições municipais que reafirmarão a hierarquia político-partidária da nação. Por que logo agora, ano antes das eleições?

Intriga da oposição, ou doença mental contagiosa?

Também não sabiam explicar os representantes governamentais do movimento popular. Craques em manter a luta do povo dentro do limite "respeitável" - passeatas planejadas, exigências possíveis e construtivas, trabalho político via eleições e fóruns da sociedade civil consultivos e "demandantes" - além disso, detendo a maioria das entidades e representações "oficiais" das classes trabalhadoras e populares, pegaram-se surpresos: algo lhes escapava das mãos. Ou jogavam fogo de verdade na fogueira e tinha-se o risco de se perder o que se tem, ou esperava as coisas acalmarem, lançando um ou outro apoio simbólico aqui e ali, e canalizar essa força para dentro das regras do jogos - ou seja, das eternas mesas de negociação, onde migalhas são distribuídas, quando possível, regularmente.

O cenário foi este: 20 centavos a mais para o transporte caótico da megalópole brasileira. Mobilizações... nada mais comum. Centenas de jovens "desocupados" fazendo barulho tentando impedir meia dúzia de empresários de sugar seu lucro de cada dia na sagrada esfera "pública". Em uma ou outra cidade, também ocorria o mesmo. Nada que uma memória de alguns anos para trás não possa relembrar, e trazer com isso tranquilidade. 

Mas havia algo mais em questão. A política repressiva precisava ali não só se fortalecer para não apresentar riscos aos investimentos bilionários na Copa das Confederações, pré-treino dos próximos megaeventos, como os aparatos repressivos precisavam mostrar serviço após o crescimento e investimento (também bilionário) feito pelo governo nos últimos anos. Nada a temer: a "opinião pública" está do lado da repressão: ocupações militares de favelas, chacinas, vídeos e fotos de irregularidades vazados... Nada disso desmontou nos últimos anos a legitimidade de tais forças. Então, à ação: cortar o mal pela raiz, mandar os meninos para a casa.

Não esperavam dois detalhes: 1- a base social na qual reproduziam seu brutal repertório de técnicas clássicas e arbitrárias (como prisão para averiguação, inclusive de vinagre - afinal, quem não deve, não teme gás) e novas ferramentas "não-letais" (o pau de arara, poderia também ser classificado como não-letal?), e 2- a sociedade do espetáculo em que vivemos, onde um celular, na hora certa, no lugar certo (e nas mãos certas) pode ter mais efetividade "pública" que milhões de vozes anônimas. Pensavam que espancavam pobres, negros e trabalhadores da periferia, como o fazem com frequência. No entanto, estavam ali em sua maioria jovens, brancos, das classes médias - incluindo próprios profissionais da mídia que formata a legitimação policial. Alguns gritavam até "sem violência". Em poucas horas o simbólico olho enxado e ensanguentado da jornalista da Folha se reproduziu em todas as telas e folhas da mídia. A brutalidade policial secular da polícia estava a mostra na pele de um inocente até para as classes dominantes (pelo menos para seus membros mais sensatos). A violência então necessária contra os vândalos, tornou-se, da noite pro dia, inadmissível, e os protestos (desde que pacíficos), cinicamente, toleráveis - e para permanecerem na hegemonia dominante, desejáveis em certos limites, segundo pautas e formatos conversados.

Como outros textos já disseram, ali foi a gota d'agua - o que era quase nada, de repente se tornou tudo. Isso porque, além dos dois detalhes, a repressão e governantes esqueceram de um outro: a situação social, em cidades (sobretudo as "sedes" dos jogos reformadas) cada vez mais sufocantes de se viver, que ganha contorno de insustentável, nos seus aspectos mais essenciais. Situação essa que de fato a maquiagem governamental não mostra, mas que o povo sente, na mais cruel realidade irônica. 

Os protestos começaram a ganhar as primeiras páginas dos jornais, afinal, "gente nossa está apanhando", pensavam e declaravam - e pior, também pensavam e não declaravam, quem não deve/pode se levantar está vendo que é possível e força há de sobra para isso. Se não pode com eles, junte-se, ao seu modo, a eles. E durante duas semanas respiramos rebeldia, através de um efeito dominó, que ia do centro para o interior, de norte ao sul do país. O povo virou protagonista, reconhecido. 

Planejadas nas redes sociais a merce das "uniões, centrais e partidos" dos estudantes, dos trabalhadores, etc. que demonstraram sua incompleta crise de representatividade e organização, sendo só mais uma voz abafada e não ouvida - às vezes, escorraçada nas manifestações - as manifestações se tornaram também um espaço onde tudo pode ser "postado". Os cartazes levantados, com frases irônicas ou demandas de todos os tipos e vertentes ideológicas, indicavam que uma geração de fato "saiu do facebook/twitter": a rede social virtual se tornou real, e os "curti", abaixo-assinados onlines ganharam pernas e voz humanas. Saia e trazia consigo toda sua confusão ideológica de anos na apatia política.

Mas sem fetiches: como vários analistas já demonstraram, a rede nada podia fazer se não houvesse milhões de peixes prontos para serem pescados. As redes foram apenas mais uma ferramenta que o povo usou para se defender, como sempre se defendeu da forma possível.

As passagens abaixaram em vários centros urbanos. O governo se viu obrigado a se reunir com os (possíveis) líderes dos movimentos, a dar respostas e "trabalhar" - a burocracia máxima do estado burgues, o parlamento, dessa vez até não saiu de férias tão rápido assim. Estão se desenhando reformas e programas, que obviamente pouco atende os reais anseios do povo e são muito mais um elemento de desvio e desmobilização, que no caso da desorganização e falta de linha revolucionária das classes trabalhadores, se torna (e vem se tornado até o momento) muito eficaz. Um exemplo foi a "promessa" dos royalties do petróleo em saúde e educação, logo após o vergonhoso leilão que tirou de antemão do Estado a maioria das verbas que dali poderia tirar.

Mas, também ironicamente, são dessas migalhas e ilusões quebráveis em curto tempo que se alimentam essas revoltas.


Os riscos e disputas (reais): a repressão, a pequena burguesia e seus aparatos no movimento de massa

Se por um lado, as manifestações desconcertaram o governo, o aparato político burguês e sua cretinice sem fim, além de outros aparatos, incluindo os vendidos e pelegos do movimento popular, esse desconcerto ainda se deu e está se dando de forma incerta. Além de carregar perigosos formatos.

A radicalidade de ações da massa (nos casos que não foram orquestrado por infiltrados e provocadores, como via de regra acontece nos levantes populares em períodos de pouca organização) sem dúvida educaram muitos jovens lutadores na prática. Os parâmetros de manifestações populares no Brasil, em poucos dias mudou completamente. Diretas Já e Fora Collor ficaram para as páginas sem cores da história, enquanto a resistência juvenil dos centros urbanos do país estão pintadas das mais vivas cores, e seus ganhos são reais - mesmo que pequenos, ainda não articulados, mas reais. O inimigo ficou na defensiva, enfim.

Assim como a capacidade de mobilização, mesmo com todo o aparato repressivo e investigativo do Estado, surpreendeu a todos, e também trouxe importantes lições.

Mas também há de se traçar dois riscos importantes: um interno e um externo ao movimento, quer sejam, a pequena burguesia urbana (sob ideologia conservadora, ou revolucionária pequeno-burguesa) enquanto movimento de massa e a ampliação e refinamento da repressão. Os dois riscos já se desenvolviam seriamente nos últimos tempo, e vários textos do nosso blog também os indicavam. No entanto, tudo ficou mais claro, ou mais obscuro nos dias de junho.

Quanto a repressão, podemos observar nos dias de jogo da Copa das Conf. e nas manifestações o seu novo e gigantesco contingente e aparato - em Fortaleza, uma arma supersônica utilizada para acabar com o occupy wall street, foi "inaugurada" de novo, após  um ato de resistência da Aldeia Maracanã; no Rio, manifestações foram alvos de tiros de armas letais, para só citar dois exemplos. Muitos feridos, alguns mortos, dentre esses casos, provenientes da ação das forças da repressão, diretamente na calada da noite, ou indiretamente nas manifestações - no Pará, uma gari não resistiu ao gás lacrimogêneo, usado sem nenhuma "economia" durante junho; em BH, um metalúrgico que tentava fugir do ataque policial caiu de um viaduto e a ação policial impediu de prestarem socorro a ele. 

E, também perigoso, está a ação invisível da repressão, através do monitoramento dos movimentos, sobretudo no terreno vingativo da internet. Por isso, é preciso ver com olhos críticos "as redes": possibilitaram rápida mobilização e troca de informações entre os movimentos, mas podem ser a armadilha perfeita para num momento chave a "festa acabar".

Quanto ao inimigo interno, que se expressam pelas ideologias do apartidarismo, individualismo, nacionalismo, moralismo etc., seja radical-anárquico (ex: o juvenil anarco-nacionalista anounymous e cia), seja mais conservador (ex: militarismo, e no extremo fascista), elas são uma realidade nas manifestações, sobretudo nos grandes centros urbanos do país. No segundo caso, chegou-se às vias de fato em agredir militantes partidários, utilizando-se da massa para se respaldar. Em vários aspectos a pequena burguesia tem conseguido hegemonizar os movimentos e as pautas, seja na sua versão "esquerda" ou "direita", mas sua incapacidade organizativa e ideológica compromete uma unicidade, pelo menos a curto e médio prazo. Mas é um risco, que está se desenvolvendo, mesmo que de forma não tão expressiva ainda - crescimento de gangues nazi-fascistas no sul-sudeste, o sair da toca de grupos ultra-conservadores e anti-comunista etc.


Alguns passos

Cabe, sobretudo aos marxistas, focalizar nessa conjuntura algumas questões:

- Analisar a infraestrutura econômica que possibilitou esse processo e se basear nela (a atual crise do imperialismo, a inserção cada vez mais difícil e subordinada do Brasil na economia mundial): sem isso, a superestrutura política, os supostos embates entre o projeto petista (nacional, popular, bom, democrático, produtivo) e o projeto do PIG/PSDB (vendido, elitista, de direita, especulativo) - e talvez um terceiro, mais militar-fascista, ganharão relevo frente à realidade concreta das classes brasileiras e sua luta. O único fortalecido, a curto prazo, será o projeto oportunista e conciliador petista, cuja tendência é perder força em períodos mais graves de crise. 

- Travar a luta ideológica, defendendo a ideologia da classe operária enquanto única classe capaz de guiar a sociedade para fora da crise: isso significa penetrar na prática cotidiana da massa e questionar a ofensiva ideológica conservadora (sobretudo de versão pequeno-burguesa) que hegemoniza vários aspectos do protesto popular. Disputar a sede progressista dos setores médios urbanos, assim como dos setores marginalizados também presentes e não sectarizá-lo ou ser instrumentado por ele. Isso inclui expor claramente as limitações da "luta por serviço públicos", que subjaz sob uma tese do Estado neutro e regulador (um dos centros da ideologia pequeno-burguesa), o papel desses serviços na diminuição da força de trabalho, os limites de investimento num Estado que serve primeiro ao capital, a determinação em última instância da base econômica etc. Assim como do radicalismo sem propósito e estético. Caso contrário, por exemplo, cairia no anterior embate fajuto e superficial entre "Bem-estar social" via Estado forte x neoliberalismo.

- Organizar a luta, e aprender com a ação do povo. Pensar a longo prazo. Se o PT se tornou símbolo "vermelho" de traição do povo, só a prática nos próximos anos poderá mudar essa opinião. Caso contrário, outras cores poderão crescer e talvez montar sobre o desejo de mudança do povo uma nova/velha escravidão, que nos é fresca na memória.


Para acabar

Em poucos dias, o Brasil entrou na lista de levantes populares dos último anos. Se essa fama se tornará em um projeto político alternativo, coerente e forte, capaz de gerar uma ruptura política em nosso país, ainda se está para ver. O desafio nesse momento fica nas mãos das classes que pretendem fazer a história andar para trás ou para frente, de tornar a insatisfação contra o caráter anti-popular do atual Estado em Estado popular, ou um de nova fachada "nacional".

Esquizofrênicos? Talvez estejamos mais atravessando por uma nova fase das lutas populares, que poderão gerar belos frutos para um povo já cansado de pseudo-revoluções, simulações de soberania e engôdos para dar e vender na história brasileira. Uma catarse ainda em seu início.

Esquizofrênicos talvez aqueles que estão no governo, e aqueles que estão por trás dele (os que mandam, realmente), pois pensam que gastando milhões em marketing política podem maquiar para sempre a realidade; que com estatísticas onde por alguns reais se sai de uma classe e entra noutra acham que vão calar a todos; que com crédito, mercadorias com valor de uso cada vez mais passageiro e futebol podem iludir o povo. Que chamam de democracia a podridão de eleições vendidas e partidos fantoches; de mérito o direito que justifica a expropriação em massa, o desemprego e a miséria.

Esquizofrênicos eles por crerem eterno, só por hoje ser grande, aquilo que é histórico, temporário, fadado à decadência.

À insanidade do capital, que os trabalhadores imponham a sua mais radical sanidade, mostrando que quem tudo constrói também tem o direito de tudo destruir -  e reconstruir, segundo seus interesses. À utopia deles de continuar o mundo, ou o país, no caminho em que estão guiando, aos trancos e barrancos, imponham seu mais perspicaz realismo, ousando mudar o já muito inquestionável.



A história nos reservou dias interessantes. Saibamos então "aproveitá-los".