Mostrando postagens com marcador Imaginação e desejo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imaginação e desejo. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Progressismo na música: duas (semi)homenagens a Marighlella


Marighella: entre a difamação e a glória deturpada


Quando a hegemania cultural é da reação, como hoje em dia, é comum a esquerda ficar alegre, muitas vezes de maneira totalmente acrítica, com qualquer furo nesse acachapante cenário. Fica alegre e reivindica para si, sem nenhuma ponderação qualquer heróico esforço de se contrapor ao status vigente. Muitos riscos moram por aí.

Nessa virada de ano vivenciamos na mídia e na vida cultural do país um retorno do rosto mais odiado da ditadura: o de Marighella. Não é por menos, final de 2011 representou o centenário do internacionalmente conhecido comunista brasileiro. Foi lançado um filme Isa Grinspum Ferraz [1], sobrinha do revolucionário, narrado pelo grande ator Lázaro Ramos; um livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães [2]; uma música/clipe dos Racionais MC's, Mil faces de um homem leal, presente no filme de Isa [3] e que marca o retorno à ativa do maior grupo de rap da história do país; e uma música, mais recente, do dúbio artista Caetano Veloso, Um comunista, que integra seu mais recente álbum "Abraçaço" [4]. Além de outras atividades culturais e políticas de menor impacto na "opinião pública".

Quem foi Marighella, a quem interssa sua "fama"?

A mobilização popular no período de "redemocratização" do país obrigou constar na história oficial a heróica batalha de lutadores que pegaram em armas para defender seu país. Dentre eles Marighella. Mesmo que esse processo ainda não tenha, nem de longe se completado, só ver a fachada da Comissão de Verdade e Justiça tutelada pelo governo federal [5], ou tenha sido menor e menos expressivo, se comparado a outros países da America Latina que sofreram com as ditaduras fantoches do capital estrangeiro, o fato é que conseguiu-se minar, pelo menos para o povo, a legitimidade do terrorismo de estado daquela época.

O monopólio midiático, as forças armadas e diversos outros setores e aparelhos de Estado e das classes dominantes, obviamente, tentam constantemente difamar essa memória, apagar a verdade ou "relativizá-la" desse período histórico de intensa luta de classes em nosso país e no mundo. Um exemplo é o discurso liberal "anti-totalitarismo" que tenta igualar, de maneira ridícula, a violência dos "terroristas de esquerda" com o terror estatal-militar. Esquecem de ver, por exemplo, a maneira como era tratados os prisioneiros de guerra dos dois lados para ver o quão "igual" foi!

Essa ameaça de difamação é constante, e tem ganhado, infelizmente, força nos últimos anos, junto com a reorganização do setor conservador.

Isso mostra que a luta pela memória é uma disputa contínua, uma das facetas da luta de classes. Por isso é importante defender nossos lutadores de toda e qualquer falácia ou ataque. Independente do viés ideológico e da luta política devemos lembrar que nossos mortos são nossos mortos.

Porém o inimigo também pode fazer seu serviço de maneira indireta, não explicitamente. Essa é a forma mais perigosa de ataque e que mais arrasta incautos.

Marighella, de fato, foi o "inimigo nº 1 da ditadura". Um militante revolucionário extraordinário, experiente, que estava disposto, como mostrou na prática, de dar sua vida pela causa do povo brasileiro e da revolução. Mas será que sua fama, mostrado como paradigma de luta contra a ditadura, de alguma forma indireta, favorece o inimigo?

Como se sabe, Marighella e sua organização ALN, foram fortemente influenciadas pelo foquismo, retirando de maneira errônea lição da experiência cubana e sua importação mecânica. Sua saída do imobilismo do velho PC foi em direção a uma linha política extremamente militarismo, de menosprezo da teoria, da política e das massas. A ALN era uma organização de ação, visava a guerrilha urbana como soma de forças para uma guerrilha rural. As armas controlava a política, e não a política as armas. Um erro fatal.

A falência dessa linha para o proletariado e as classes trabalhadoras ficou clara em nosso país. A repressão cirúrgica do regime extirpou durante anos do país organizações revolucionárias. Eliminou-se os quadros revolucionários, eliminou-se tudo. Isso podemos incluir até mesmo uma experiência que tentou escapar do foquismo, a guerrilha do araguaia, como ficou conhecida, liderada pela reconstrução do PC no nosso país.

"Se for para fortalecer uma linha política revolucionária, que seja a errada, mais confusão e esforços inúteis serão espalhados", "pensa" o inimigo (ou pelo menos, é a lógica de seu ataque ideológico). Por isso, de certa forma, a imagem personalista de Marighella e de sua linha política incorreta são um deserviço ao verdadeiro balanço que os revolucionários devem fazer de sua luta histórica e nacional. Isso, fique claro, de forma alguma retira a importância de Marighella, sua luta, sua organização. Como dito, estão do nosso lado, e devemos defendê-la. Porém, também não podemos dispensar a auto-crítica e cair na armadilha ingênua da reação fantasiada. Junto com nossa defesa, devemos levantar nossa crítica e outras organizações "apagadas" (intencionalmente) da fama, que aplicaram políticas mais justas, e tentaram superar o foquismo, o imobilismo de direita e o sindicalismo trotskista. De toda a derrota sofrida na ditadura o que mais devemos aprender é: sem partido e sem teoria revolucioária, a classe, mesmo com quadros armados naquele momento, está desarmada e não conseguirá realizar sua tarefa histórica.

Duas (semi)homenagens a Marighella: um desvio lumpen, um desvio pequeno burguês, ou duas faces da mesma moeda

Se vimos que nem toda reivindicação faz um serviço à nossa memória e à causa, que essa pode servir sim a um deserviço, vamos a dois exemplos práticos, sobre a imagem de Marighella: a música/clipe dos Racionais e a música de Caetano.

Como dito no início do texto, a esquerda cai nos cavalos de tróia do inimigo muitas vezes, pois acata acriticamente o que lhe vem aparentemente como progressista. E realmente caiu nesse caso. Apresentaremos uma breve análise crítica para evidenciar essa afirmação.

Música/Clipe da música dos Racionais:

Letra de Mil faces de um homem leal

A postos para o seu general, Mil faces de um homem leal (2x)/  Protetor das multidões/ Encarnações de célebres malandros/ De cérebros brilhantes/ Reuniram-se no cé/u O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer/ Tô somado, é o que é, assim foi escrito/ Mártir, Mito ou Maldito sonhador/ Bandido da minha cor/ Um novo messias/ Se o povo domina ou não/ Se poucos sabiam ler/ E eu morrer em vão/ Leso e louco sem saber/ Coisas do Brasil, super-herói, mulato/ Defensor dos fracos, assaltante nato(!)/ Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis/ Tramam 30 fariseus contra Moisés, morô/ Reaja ao revés, seja alvo de inveja Irmão,/ esquina de velas pra cima de um rebelde/ Que ousou lutar, honrou a raça/ Honrou a causa que adotou,/ Aplauso é pra poucos/ Revolução no Brasil tem um nome/ Vejam o homem/ Sei que esse era um homem também/ A imagem e o gesto/ Lutar por amor/ Indigesto como o sequestro do embaixador / O resto é flor, se tem festa eu vou/ Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show/ Presta atenção que o sucesso em excesso é cão/ Que se habilita a lutar, fome grita horrível/ A todo ouvido sensível que evita escutar/ Acredita lutar, quanto custa ligar? /Cidade chama vida que esvai/ Clama por socorro, quem ouvirá? /Crianças, velhos e cachorros sem temor /Clara meu eterno amor, sara minhas dores /Pra não dizer que eu não falei das flores / Da Bahia de São Salvador Brasil /Capoeira mata um mata mil, porque /Me fez hábil como um cão /Sábio como um monge/ Antirreflexo de longe/ Homem complexo sim /Confesso que queria /Ver Davi matar Golias /Nos trevos e cancelas /Becos e vielas /Guetos e favelas/ Quero ver você trocar de igual/ Subir os degraus, precipício /Ê vida difícil, ô povo feliz / Quem samba fica, /Quem não samba, camba /Chegou, salve geral da mansão dos bamba /Não se faz revolução sem um fuga na mão /Sem justiça não há paz, é escravidão/ Revolução no Brasil tem um nome/ A postos para o seu general/ Mil faces de um homem leal (2x)  Marighella / Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer /Por mim, por você, por ter coragem em dizer.*

*Em negrito queremos destacar certas aproximações do ideário lumpen. Já o sublinhado quer demonstrar os desvios personalistas.

Percebemos que a música, de sagazes melodia e letra, é uma homenagem a um homem corajoso que ousou lutar contra as injustiças do país e o regime que as sustentava. Tenta mostrar que esse homem brotou da cultura brasileira, era também um homem comum, dividia uma vida em comum. Sua defesa é a defesa de nossa honra.

As imagens que usa diversas vezes são oriundas de um certo misticismo/teologismo (vide as comparações com figuras bíblicas) e também da vida marginalizada do país (chega chamar Marighella de "malandro", assautante nato!). O clipe também faz referências sobretudo ao segundo aspecto. Há cenas que os membros do grupo estão em vielas escuras de favelas, portando armas, em supostas "ações revolucionárias". Eis um duplo desvio ideológico: o personalismo, que desliga Marughella das massas, de sua organização, de seu período histórico, para virar um homem que "faz história" com as próprias mãos, um super-homem; outro, a estetização da pobreza, claramente pequeno-burguês, de identificar na pobreza, na miséria, a força contra o sistema. Para o velho Marx, os Racionais ainda acreditam que são os lázaros do proletariado que são a tropa de choque da revolução, e não elementos de forte propensão reacionária.

Muita confusão para uma criativa homenagem. Mas o deserviço está feito: aqueles conservadores que comparam as expropriações de grupos revolucionários a meros assaltos, a luta política com o crime (e o contrário da mesma moeda, aqueles que acham que o crime é uma "resistência política"), agradecem; aqueles que tentam mostrar que a revolução é um golpe dado por intelectuais e grandes homens que enganam uma população ignorante, também.


Música de Cateano Veloso (e banda Cê):

Letra de Um comunista

Um mulato baiano,/ Muito alto e mulato/ Filho de um italiano/ E de uma preta hauçá/  Foi aprendendo a ler /Olhando mundo à volta /E prestando atenção /No que não estava a vista /Assim nasce um comunista / Um mulato baiano /Que morreu em São Paulo/ Baleado por homens do poder militar/ Nas feições que ganhou em solo americano /A dita guerra fria /Roma, França e Bahia / Os comunistas guardavam sonhos/ Os comunistas! Os comunistas! / O mulato baiano, mini e manual /Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas /Depois por Magalhães /Por fim, pelos milicos /Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas/ Como são os comunistas? / Não que os seus inimigos / Estivessem lutando / Contra as nações terror / Que o comunismo urdia / Mas por vãos interesses/ De poder e dinheiro / Quase sempre por menos/ Quase nunca por mais/  Os comunistas guardavam sonhos / Os comunistas! Os comunistas! / O baiano morreu / Eu estava no exílio / E mandei um recado: "eu que tinha morrido" / E que ele estava vivo, / Mas ninguém entendia / Vida sem utopia Não entendo que exista/ Assim fala um comunista  /Porém, a raça humana /Segue trágica, sempre /Indecodificável /Tédio, horror, maravilha / Ó, mulato baiano /Samba o reverencia /Muito embora não creia/ Em violência e guerrilha /Tédio, horror e maravilha / Calçadões encardidos /Multidões apodrecem /Há um abismo entre homens /E homens, o horror / Quem e como fará /Com que a terra se acenda? /E desate seus nós /Discutindo-se Clara /Iemanjá, Maria, Iara Iansã, /Catijaçara / O mulato baiano já não obedecia /As ordens de interesse que vinham de Moscou / Era luta romântica/ Era luz e era treva /Vento de maravilha, de tédio e de horror / Os comunistas guardavam sonhos /Os comunistas! os comunistas!

*Sublinhado frases "anti-comunistas", negrito apoio tácito e confuso "à causa".

Caetano é um artista dos mais perdidos ideologicamente da história contemporânea do país. Por vezes vem com uma crítica social, um certo anti-conservadorismo. Outras vezes, um anti-comunismo atroz. Essa música só refoça.

A música não vem com a estética feroz dos Racionais. É quase um rock minimalista, um tanto melancólico, nostálgico. Mas a letra também tende a prestar uma homenagem, contar a história, quase literal (e mais completa e contextualizada que na música dos Racionais), das ações de um grande homem. Só que fixa bem esse homem e seus sonhos no passado. Caetano abraça, ceticamente, a "democracia" como verdadeiramente fim da história. Defende Marighella, mas muito mais para se diferenciar dos conservadores, parar gerar polêmica pela polêmica, coisa que sempre gosta de fazer.

No fim da "guerra fria", Caetano lançou uma música com um viés ideológico bem semalhante. "Os outros romanticos" [6] , de 1989, é uma música destinada aos comunistas, que ele chama de românticos, como no caso de Marighella, homens com motivações subjetivas e utópicas que se chocam com a negra natureza humana, imutável, e o mundo muito mais complexo que seus pobres esquemas. O mundo não foi feito para ser mudado, e qualquer afirmação contrária é uma violência, um retorno ao obscurantismo totalitário: eis a tese de fundo. No final da música faz uma referência hegeliana, comparando o marxismo a uma profecia, uma escatologia. Aqui a letra completa:

Eram os outros românticos, no escuro /Cultuavam outra idade média, situada no futuro /Não no passado /Sendo incapazes de acompanhar /A baba Babel de economias/ As mil teorias da economia/ Recitadas na televisão/ Tais irredutíveis ateus /Simularam uma religião /E o espírito era o sexo de Pixote, então/ Na voz de algum cantor de rock alemão /Com o ódio aos que mataram Pixote a mão/ Nutriam a rebeldia e a revolução/  E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil /Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo/ E os primeiros mênstruos /Compunham as visões dos seus vitrais/ E seus apocalipses mais totais /E suas utopias radicais / Anjos sobre Berlim "O mundo desde o fim"/ E no entanto era um SIM /E foi e era e é e será sim.

Mais uma vez, muita confusão. A versão quase lumpen "radicalista" se assemelha com a versão pequeno burguesa desiludida. Duas faces da mesma moeda, dois desvios com origem em comum e final semelhantes.

Críticas exageradas?

De fato é difícil imaginar, em meio a uma correnteza tão forte do hegemônico, uma nova forma de cultura, que não guiadas pelas imagens de ações individuais, mistificadas ou não. Ainda é um caminho longo a ser percorrido, impossível sem mudança das bases sociais. De fato, as homenagens encerram um certo progressismo, é inegável. Um progressismo possível, dentro dessa realidade concreta. Porém, não sem contradições a serem superadas, como tentamos demonstrar aqui.

-----------------------------------
[1] http://itaucinemas.com.br/filme/marighella
[2] http://www.youtube.com/watch?v=AOwddBi7u-o
[3] http://www.youtube.com/watch?v=G-OFK14m6s0
[4] http://www.youtube.com/watch?v=otiZAYPP200
[5]http://www.faccamp.br/letramento/2012/1sem/oficina4/consuelo_dieguez_conciliaCAo_de_novo_piaui64.pdf / ou http://www.anovademocracia.com.br/no-96/4259-comissao-da-meia-verdade-se-arrasta-
[6] http://www.youtube.com/watch?v=EVgP4398kdY

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A morte é uma exagerada

Publicado originalmente no site português: http://5noites.tumblr.com/post/24343296755/a-morte-e-uma-exagerada . Reproduzimos aqui o texto integral.

Glintenkamp


Quando tinha sete anos descobri a morte. Percebi que havia uma espécie de parede inultrapassável e um tempo eterno sem nós. O céu e as nuvens que até ali me tinham parecido coloridos esmagavam-me. Até o silêncio se tinha tornado ruidoso. O meu pai pegou em mim e explicou-me nessa noite as vantagens de se morrer e que nós tínhamos o nosso tempo de eternidade. Na nossa vida havia um pedaço de infinito em que todos os segundos contavam. Era a morte que nos dava a urgência e a necessidade de nos superarmos. A vida podia enganar o tempo, bastava dar-lhe sentido. Ironizava comigo se fosse possível congelar as pessoas, para lhes prolongar a vida quando a ciência tivesse mais desenvolvida, estaríamos a obrigar as pessoas do futuro a descongelar muita porcaria. Poucos meses depois, o meu pai esteve à beira da morte. Ia, com Lino de Carvalho ao volante, para um comício, vinham de várias directas e adormeceram. Esteve 15 dias em coma a lutar para viver. Sobreviveu com mazelas irrecuperáveis. Nunca aceitou as suas limitações. Tentou recuperar pela escrita e pelo trabalho aquilo que tinha perdido em capacidade.

O meu pai queixava-se de o meu avô ter morrido jovem e de nunca lhe ter dito o suficiente. O meu avô nunca o tinha visto jovem, nunca o tinha visto homem. A última imagem que tinha dele, foi quando lhe tinham pedido que o beijasse morto e o meu pai, adolescente, só tinha conseguido chorar.

Tive a sorte de conhecer o meu pai. Um jovem de cabelo branco, preso pela primeira vez aos 17 anos, para quem as causas e as paixões eram a única razão para respirar. Corria atrás do tempo perdido em quatro anos nas celas de Peniche. Dizia-me que a minha geração tinha muito tempo de avanço e que nos cabia aproveitá-lo. Havia uma urgência ditada pela entrega política e pela necessidade de viver em permanente estado de paixão.

Quando a sombra frágil que está ligada à máquina falhar terá ficado nos seus a urgência em que na vida curta tudo vale a pena. As paixões como as revoluções são tentativas de rompermos as leis que nos condenam à mediocridade e à servidão. No fim estaremos todos mortos, o que conta é termos sidos capazes de um gesto livre.

Cresci a escutar a história de uma revolta perdida. íamos mudando de país em país: Checoslováquia, Argélia, Suíça, França e chegámos a Portugal como clandestinos. À noite o meu pai não se cansava de me contar, como se fosse um conto de fadas, a história da Revolta dos Anjos. Dizia-me que depois de muitos abusos e opressão, os anjos tinham decidido revoltar-se . Na véspera do grande dia , o líder dos revolucionários sonhou que triunfava e ocupava o trono do tirano. O pesadelo começava, pouco tempo depois, com a canga das coisas inevitáveis, os revoltados tornavam-se senhores em vez dos senhores que tinham jurado derrubar. Depois de acordar, Lúcifer teria desistido da insurreição. A história tinha uma moral óbvia que nos impelia à prudência. Contudo, teimávamos em não lhe obedecer, apesar de sabermos que a maior parte dos esforços são vãos.

Transformar o mundo e mudar de vida, como exigiam Marx e Rimbaud, parece muita vezes sem sentido. Mas, há algum sentido em estar parado? Nos seus Provérbios do Inferno, William Blake garantia: “o que deseja e não age gera pestilência”.
A guerra dos anjos revoltados contra o poder de Deus é uma guerra perdida. Mas é um grito contra a adversidade.
Como escrevia Giambattista de Marino, no seu Satã, ”(…) e mesmo se tombarmos vencidos, ter tentado tão alto feito é ainda um triunfo…”

Da mesma forma que a nossa vida é um grito que ecoa no meio da morte.

terça-feira, 20 de março de 2012

A obesidade nas obras de Botero: muito além de um mero detalhe

 [Augusto Machado]


Mês que vem (19/03, mais precisamente) se comemora o aniversário de um dos mais renomados artistas da América Latina da contemporaneidade: Fernando Botero. 

Escultor, pintor, pai, e em breve, um homem de 8 décadas de vida, Botero nasceu na Colômbia e teve a oportunidade de estudar e trabalhar em grandes instituições do mundo da arte. Mas ao invés de se vender à estética virtualizada e "líquida" da pós-modernidade, atual período de total falência ideológica do imperialismo, nosso artista buscou em suas origens culturais criar uma estética próprio, de um concreto quase obseno, que o deixou famoso em todo mundo: as formas "gordinhas".

Longe de retratar ou querer denunciar as sociedades do centro do sistema com uma população cada vez mais obesa, graças a um estilo de vida sedentário e uma alimentação "moderna" de baixos valores nutricionais mas muitas calorias e carboidratos, a obesidade nas obras de Botero, que não só atingem figuras humanas, mas também animais, não são nada "empíricas". É uma obesidade quase ontológica, por demais abstrata, de um mundo formado por seres que transgridem a própria forma, de uma essência que incomoda. Que significaria isso? Qual representação ou sentimentos o artista quer expressar, qual ideia sobretudo sobre o humano subjacente?

Botero eleva a gordura a um nível do erótico, mas também da ingenuidade, da jocosidade, da melancolia, ou seja, do humano. Contrapondo-se a um ideário de perfeição corporal de uma beleza do magro propagada pela mídia internacional, resultado de uma era onde a biopolítica implementa sua ditadura mais cruenta, as figuras de Botero, gordas, disformes, altas ou baixa demais, de membros e troncos quase inflados feito balões, forçam-nos a identificá-las como humanos, vivos, e além disso portadores de personalidade, cultura, desejo. Mas os gordos em suas obras não são os diferentes, o que sustentaria um discurso relativista, como dito, é próprio da natureza e a todos nos interpela.

Quando Botero retrata cenas cotidianas das camadas populares, a gordura ganha um ar de fragilidade, quase infantil de pureza, apesar dos grandes e parrudos corpos, ou da nudez e malícia. Quando se retraram cenas burguesas, ou "revisões" de grandes obras, temos um ar de ironia, onde percebemos suas decadências, se tornando quase um teatro dos horrores de sujeitos desajeitados. Quando retrata episódios históricos, ou cenas políticas a gordura ganha um ar quase insuportável: numa cena onde está em ação o Terror, um ponto de inflexão decisivo, da vida ou da história, dialeticamente, a forma mais irrealista (ou seria hiperrealismo?) de nos representar, talvez seja a mais eficiente para nos identificarmos (não acontece isso com Guenirca?).

A obra de Botelho fala de nós próprios, de homens em conjunto e comuns na história e em seus conflitos. A gordura é o que nos une ou nos separa, nos fortalece e nos fragiliza, nos torna iguais ou antagônicos. Em um mundo de ilusão, de fingimento, de virtualidade, a estética não-realista boterista é um exercício de desmistificação da realidade, a construção de um mundo sem photoshop. A singela e estrondosa gordura se torna uma arma materialista contra a ideologia.

A carne humana e o Terror: Botero em Abu Ghraib

A seguir disponibilizamos algumas imagens de uma recente coleção de forte cunho político do artista: Abu Ghraib. O objetivo maior dessa coleção é a denúncia do terror da invasão imperialista do Iraque e das práticas de tortura realizada por países e organismos "humanitários" ou "defensores da democracia" sobre os povos oprimidos. Cenas como as de Abu Ghraib, cujo mundo todo presenciou como se um espetáculo fosse, não são episódios raros na história do capitalismo ou do imperalismo ianque: aconteceu e acontece ainda, em diversas partes do mundo e fazem parte da espinha dorçal dos aparelhos repressivos e terroristas do imperialismo, fundamentais para a continuidade da exploração econômica em escala global. O colombiano aqui denuncia um modelo civilizatório que precisa de uma barbárie para sua continuidade e "normalidade" bem semelhante à barbárie espanhola que dizimou os povos pré-colombianos de sua terra. De extrema historicidade a obra se torna um próprio auto-retrato, já que, enfim, estamos todos nesse mesmo processo histórico.

Acreditamos que estas obras não nos passam um quietismo pessimista, de um mundo sem saída, mas representam um mundo crual que precisamos conhecer, friamente, para transformar: é um chamado à transformação, à resistência e à esperança.





terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entre o sonho e a realidade objetiva: a flânerie de Ezio Flavio Bazzo.


[Konstantinov]*
*Colaborador da revista “Brado!”, historiador.

Ilustração 1: Ezio Flavio Bazzo



Ao observar a figura do flâneur se abre a uma colocação teórica que apreende e interpela a cidade. Quem ou que é flâneur? Flâneur é um conceito vazio. A existência em si deste aventureiro que se joga ao percalço de Paris não é o aporte nuclear para entender a questão iniciadora e labiríntica: “É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nela?”1. A interseção entre a sincronia e diacronia temporal é esta mesma da “flanagem”, movimento que evidencia a fragilidade e fragmentação do espaço urbano. A urbe assim não é em si mesma, não é ontológica, mas pode ser analisada à luz de diversas temporalidades nela incrustadas pelo descolamento que o corte longitudinal torna possível. É neste marco, neste par-ordenado no eixo cartesiano situado nas coordenadas (0,0), onde está o flâneur: referencial vazio que auxilia a articulação da “flanagem”.
Tal articulação teórica ainda não explica ou dá resposta à questão iniciadora. Porém, ela virá aqui a seu tempo tendo claro que este artigo possibilita um encontro com a figura literária de Ezio Flavio Bazzo, literato marginal de Brasília. Se deixa claro aqui a “figura literária” visto que há dois Ezios. Este já mencionado, o da fabulação literária, o flâneur propriamente dito, e o escritor marginal que detêm a narrativa das obras diversas por ele publicadas.
Valeria observar levemente a “flanagem” realizada por Bazzo que esteve a realizar uma rapsódia Samuel Rawet2, ou vadiando na China3, ou perambulando nos subterrâneos do Conic4 “nauseabundo” como ele mesmo dizia, ou perscrutando os mortos em Paris como se obssesivamente os perseguisse em seu “roteiro turístico de cemitérios”5. Bazzo aqui é o flâneur por excelência digerindo por entre uma blasfêmia e outra uma colocação bem memorada e outra o rancor e as neuroses típicas do pequeno-burguês citatino contemporâneo. A cenografia ganha assim um ar marginal dentro das reflexões constantes da urbe. A questão do trabalho perpassa por um dos seus relatos:
“É imensamente revoltante passar pelos fundos das construções, ali na Asa Norte, lá pelas três horas da tarde, na hora em que o sol derrete o cérebro, e ver a dedicação e o martírio desses homens que dão suas vidas em troca de uns grãos de arroz e da promessa falsa de que o trabalho dignifica e empurra para a cidadania. (...)
(...) As calças suadas no traseiro, 120.00 reais, olheiras de abatimento, uma falsa seneridade na fala enquanto lá na calçada, um carro forte espera, para transportar ao banco os lucros do dia... Nos Ministérios, o tédio e a solidão tornam a jornada de oito horas ainda mais vil. O relógio, o calendário, a folha de ponto, a cumplicidade com governos que, de tão tenebrosos, nem sequer permanecem na história, tudo isso se chama trabalho. (...)
E é impressionante observar que praticamente todas as sociedades, tanto as primitivas como as ditas modernas, padecem deste mal! Do mal de trabalhar e de fazer-trabalhar! (...) Para isto, lógico, existem os sociólogos, os psicólogos, os administradores, os psiquiatras e os vigias que o condicionamento e a ordem, para que o teatro produtivo não se degenere em “vagabundagem”. No lugar da paixão, a produção!”6
De modo a cotejar com as devidas proporções todo este desprezo ora aristocrático, ora pequeno-burguês ao mundo do trabalho pode-se muito bem se encaixar na mesma dialética que Rouanet aponta sobre o fetichismo da mercadoria. Bazzo, assim como o flâneur, se depara com uma realidade objetiva indesejável onde o fetichismo da mercadoria ganha um tom aviltante e onde o esteticismo burguês de Ezio sublima a imagem do “operário-escravo”, do servo da honra pelo trabalho e pelo sacrifício, como uma antítese se si mesmo: o passante hedonista que a tudo denuncia e aponta, uma metralhadora verborrágica giratória por assim dizer. Este movimento dialético existe no sentido de a reafirmar a si mesmo, afirmar um eu. Este eu é o bazzo-flâuneur, investido de sonhos de grandeza e megalomania que podem ser compreendidos à luz do sonho da cidade que o habita. Visto por este prisma a pergunta iniciadora pode ser refeita: “ É a cidade que habita Bazzo ou é ele que mora nela?”.
Para Rounet a resposta seria no sentido, como foi exposto acima, de verificar que esta esteticização de Ezio sobre a paisagem do Conic, dos trabalhadores e da cidade ao seu redor são parte dos sonhos que habitam a consciência do bazzo-flâneur que estabelecem um relação expressiva com o corpo real da cidade. O sono repleto de sonhos de Bazzo caminhariam na utopia de suas realizações e nos os mitos da temporalidade do eternamente idêntico, das “fantasmagorias”.
A figura do bazzo-flâneur seria o agente privilegiado da enunciação e que realiza as fantasias aprisionadas na sua temporalidade real. A lascívia sexual irrealizada na uma vida de acadêmico frustado e esquecido despontam no sono povoado de sonhos:
Ilustração 2: Capa de "Lenin nos subterrâneos do Conic."

“(...) A conheci no caixa eletrônico do Conjunto Nacional. Por acaso, sem nenhuma intenção. Estávamos na fila, nos olhamos, trememos dos pés à cabeça. Incrível. Ela bem mais jovem do que eu, uns vinte e cinco, no máximo. Aquele tipo de menina que você sabe de antemão o que leva por debaixo das roupas. Ali mesmo beijei-lhe as costas nuas. (...)
(...) Ela mordia minhas mãos minhas mãos e depois as levava para o meio de suas pernas. Abria com meus dedos a porta de seu tesouro para que eu sorvesse suas riquezas ... Dizia frases perdidas, apaixonadas e desconexas... Ah, e foi naquele momento que descobri que as mãos não foram, em hipótese nenhuma, feitas para o trabalho...”7
Logo reaparece o desprezo pelo mundo vil do trabalho presente na realidade objetiva onde as mãos cumpririam outro papel que não expresso no sono do bazzo-flâneur, o da produção material.O mundo material finca seus pés no Ezio real que projeta suas falastranices, seus ataques verbais e seu apetite sexual na utopia de seus sonhos.
A pergunta que não cala: seria inteligível este sonho? Tais indícios seriam passíveis de compreensão? Segundo o debate travado por Rouanet8 os sonhos são passíveis de interpretação e é exatamente onde o materialista histórico centra seu objetivo: o despertar do sono. Por entre os desejos utópicos de prazer do bazzo-flâneur o mito sempre deforma, falsifica e dissimula a realidade malquista. A seqüência das obras refletem um eterno escapismo das horas numa brutal fuga da realidade objetiva e a conseqüência permanência do mesmo:
“- Ei, ei Bazzo você que contesta toda essa merda burguesa-intelectualóide, mas que ao mesmo tempo vive uma vida idêntica a de todos esses idiotas, no coração da
pocilga, me diga: você te esperança em algo e como proceder diante de toda essa palhaçada?(...)
-Você está certo de estar falando com um idiota, pedante e presunçoso, não é? Ou com um “orientador de noivos”?... Mas não seja cretino, essa é uma pergunta que só se faz a um guru iluminado ...(...)
- Guru, nada, não queira tirar o cu da reta . (...)
-Esse puto tem razão. Já que você insiste, -digo-lhe visivelmente chateado -vou recitar umas palavras do guru das limousines, preste atenção:
A esperança é fútil. Além disso , uma coisa é tão má quanto a outra . O importante é que você saiba de tudo e saia fora. Escorregue para fora sem fazer ruído. È isso que se chama rebelião.”9
O chamado à resposta encarnado na figura de um personagem decadente e solitário é um empurrão, um suspiro que desperta do sono que Ezio sufoca e faz calar. A metralhadora verborrágica é então engasgada em seu municiamento? Ao ser contestado em sua crítica logo se coloca na defensiva: é um questão de gurus, saia fora eis a rebelião, a esperança é uma futilidade. A utopia se esbarra com o mito da deformação estética que é construída na cenografia da urbe e sonho parece não querer despertar.
A conclusão que pode se aferir da reflexão estabelecida por meio deste artigo poderia enveredar por dois caminhos possíveis. Em sua primeira acepção a flânerie não consegue despertar do sono e fica retida numa eterna sublimação pequeno-burguesa que esteticiza a miséria e o proletário ao mesmo tempo que deforma sua utopia. Assim este flâneur brasiliense, estando na China ou nos cemitérios de Paris, não desperta nem individual ou coletivamente estando condenado ao eterno aprisionamento do mesmo, do repetível, do aparato da técnica que curiosamente ele condena tão duramente em seu lugar mítico de enunciação. Na segunda acepção tal como definiria Brissac10 nem a cidade, sem história, habita Ezio e nem Ezio, que não sabe mais ver, habita a cidade. Pois a “tendência no mundo moderno, da reprodução técnica, da cópia, é se apropriar das coisas.”11. Assim a construção da distância e estranhamento do familiar é falsa, os toscos engenhos paisagísticos não passariam de meros mecanismos de ilusão. É muito provável que a segunda concepção seja a mais correta e que flânerie de Bazzo não seja nada além da construção destes aparatos ilusórios que fabricam uma dimensão de distância que se quer existe mais. É o aprisionamento do sono, é mais do mesmo com novas ilusões, é literatura pseudo-marginal pequeno- burguesa escapista que, independente das concepções acima expostas, consegue falhar nas duas. É Ezio Flavio Bazzo em sua passagem infinita de um sono que, entre o sonho e a realidade objetiva, não consegue despertar.
1BRISSAC P. E ROUANET, P. S. “É a cidade que habita os homens ou eles são habitados por ela?” . In: Revista USP. Dossiê Walter Benjamin, set./out./nov. 1992. n. 15, São Paulo: EDUSP, 1992, p. 49-75.
2BAZZO, EZIO FLAVIO. Rapsódia a Samuel Rawet. Brasília: Anti-editor publicadora,1997.
3BAZZO, EZIO FLAVIO. Vagabundo na china. Brasilia: Lilith, 1991.
4BAZZO, EZIO FLAVIO. Lenin nos subterraneos do conic. Brasilia: Anti-Editor, 1999.
5BAZZO, EZIO FLAVIO. Necrocídio. Brasília: Da casa da Anta Editora, 1992. pg. 13.
6 BAZZO, Obr. Cit. pp. 46,47.
7BAZZO, Obr. Cit. pp. 84,85.
8BRISSAC P. E ROUANET, P. S. Obr. Cit. pp. 71.
9BAZZO, Obr. Cit. pp. 74.
10BRISSAC P. E ROUANET, P. S.. 72.
11BRISSAC P. E ROUANET, P. S. pp. 73

O drama da pequena burguesia na poesia brasileira: o caso de Drummond

[Augusto Machado]

                                                     

A época da ofensiva socialista mundial que foi o século XX conseguiu atrair para o campo proletário muitos elementos da intelectualidade. No Brasil são diversos casos de escritores que aderiram a causa, na forma de apoio, simpatia ou até mesmo pelo filiação ao Partido.  Um exemplo notório é o caso de Drummond. Mas que fim político levaram todos eles? Quão firmes eram as suas posições progressistas? A postura cambiante da pequena burguesia se  faz presente nessa questão como veremos a seguir.

Traços de uma biografia: a construção de uma personalidade itabirana

Drummond é um dos nossos maiores expoentes da poesia contemporânea “culta”. Suas estátuas de bronze em Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de sua ainda grande popularidade, demonstram a importância desse poeta que foi cogitado ao Nobel enquanto vivo. Conhecido pelos seus versos livres e temáticas que envolviam preocupações existenciais, marcadas sobretudo pelo espanto e quietismo, através de conflitos entre o eu lírico frágil e pequenino e o “mundo grande”, nosso poeta é querido por muitos e odiado por outros, é estudado e vulgarizado, elogiado e denunciado.

Nasceu no início do século passado, em 1902, em Itabira, cidade que possuía “Noventa por cento de ferro nas calçadas. / Oitenta por cento de ferro nas almas. (em Confidência de um itabirano, Sentimento do mundo, 1940). Drummond provém de uma família tradicional de fazendeiros, de vida confortável, e sua infância e juventude é contada nos livros Boitempo (três volumes, lançados em 68, 73 e 79). Ali percebermos a construção da subjetividade drummondiana, as memórias mais marcantes e seus mais profundos temores e segredos. Esse período de sua vida Drummond inicialmente relata com carinho, mas em seguida busca demonstrar a dor e a “tragédia” de crescer e ter que se distanciar de casa e da família, do colégio jesuíta de dura disciplina, da descoberta da sexualidade, da vida coletiva, e de outros acontecimentos da subjetividade, que, no caso de Drummond, já tomava fortes tendências pequeno burguesa, enfermiça, individualista e, por isso mesmo, dramática - como não podia ser diferente por seu meio social. 

Formou-se em Farmácia mas nunca exerceu a profissão. Foi um rapaz boêmio em Minas: sobreviveu o terror de "virar adulto" e enfim se encaixa no "mundo dos homens". Nessa época, ainda jovem, aproximou-se de círculos literários e sob a influência de Mário de Andrade lança seu primeiro livro e sua obra mais ousada esteticamente Alguma Poesia, em 1930, ano que do outro lado do mundo outro extremado poeta do modernismo, Maiakovsky, atirava em seu próprio peito.

Em 34 vai para o Rio de Janeiro, trabalhando como servidor público no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Também cronista, escrevia para jornais. Não foi de todo solitário. Casou-se e teve uma filha, que morreria cedo, e tal fato desencadearia um suicídio melancólico e quase imperceptível: para de tomar os remédios para o coração e assim a vida lhe deixa do corpo que não a desejava mais.

Entendia-se como um homem de vida pequena, de papel pequeno, escrevia para afogar suas angústias e insuficiências, num tempo tão movimentado e violento, sobretudo politicamente. O mundo de Drummond, o movimentado século XX, exigia do homem histórico muito mais que contemplação e canto, os talentos comuns de um poeta e de uma personalidade sensível, mas comprometimento, intervenção, tomada de partido. Aqui, nesse período, “não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida.” (GRAMSCI, Os indiferentes). Esse grande chamado, de um mundo em emergência, de uma humanidade instável e em mutação, sem dúvida era a origem dos sentimentos do poeta. E também, graças ao seu ceticismo, comum de um agnóstico tristonho, o fez em muitos momentos de sua vida uma pessoa contraditória e hesitante, que por vezes rendia-se e recuava-se ao anonimato e à paralisia, apostando na não tomada de posição e no não enfrentamento, tanto por falta de forças, quanto por falta de esperança. Essa ambiguidade é vista claramente em sua relação com o marxismo/comunismo.

Travessia de Drummond pelo comunismo: a impossível identificação com o proletariado e a cooptação melancólica

De modernista "estético", nos anos 30, vai tranferindo-se gradualmente para uma poesia mais política e social. Nela, apesar da forte presença de um eu lírico rico e profundo em sua intimidade, os acontecimentos históricos tem forte destaque, ganham relevo e são objetos de preocupação e contemplação do poeta. Pode-se dizer que é o período, apesar de trágico e desesperador, de maior esperança e engajamento do poeta tímido de Itabira. Momento curto mas de grande valor artístico e político como veremos. Negá-la de todo seria apenas reforçar um obreirismo sem sentido.

Suas principais obras desse período político são do período da segunda guerra mundial, Sentimento do Mundo, de 1940, (onde ainda permanece um eu lírico mais incapaz e assombrado) e sobretudo A Rosa do Povo, de 1945. As duas obras são marcadas pela ocorrência da 2ª guerra mundial, pela ascensão e decadência do nazi-fascismo, do Estado Novo, e pela atualidade de revolução bolchvique que ameaçava tomar o mundo com sua Internacional. Aqui não se fará uma análise detida das poesias dos dois livros, somente buscaremos delinear, em meio aos medos, pessimismos e fatalismos típicos do autor, de sua classe e de sua época, a esfera de identificação do poeta com o comunismo e com o proletariado.

A atitude de Drummond nesse âmbito não muda muito: a ambiguidade permanece. Ora parece possível sua identificação e crença com a causa comunista como é visível em seu poema Nosso tempo, de A Rosa do Povo, onde diz na última estrofe, depois de analisar o caos da vida e do mundo moderno:
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

Ou nas suas glorificações à batalha contra o nazi-fascismo travada em Stalingrado em Carta a Stalingrado de mesmo livro.

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
[...]

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
[…]
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.


Mas, ora um fatalismo voraz o consome como em Canção do Berço, de Sentimento do mundo: “Tudo acontece, menina / E não é importante, menina”. Tudo isso se passa sob um eu lírico profundo, questionador, angustiado e sobretudo pequenino, medíocre, que busca encontrar alguma forma ou caminho de colaborar com o mundo dos homens do qual se sente distante. O mundo dos homens, “mundo grande”, do qual o eu lírico teme e se sente diferente, é o mundo histórico, o mundo da urgência da ação, a vida pública, o espaço político, que parece tão grande, tão violento, mas que o chama. Diante das injustiças do mundo, o eu lírico deve esforçar-se para caminhar para o mesmo e engajar-se na busca coletiva, "de mãos dadas", de algo melhor já que o mau impera (a guerra, a fome, a ameaça fascista, a vida alienada etc.).

É nesse impasse, que reflete a própria vida do autor à época, é que a poesia de Drummond desse período se prende. Seus versos são confissões de um homem contemporâneo de seu tempo. Demonstra as angústias de uma intelectualidade progressista que sente dificuldades em assumir um posicionamento firme diante das trincheiras da luta de classes. 

Outro exemplo que clarifica bastante o desespero (e desejo) do autor diante desse impasse é o poema Operário no Mar, de Sentimento do mundo, onde questiona sua identificação com o proletariado, em meio a um sentimento contraditório quase absurdo, mas que ainda guarda uma esperança:

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar lhe que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez e confusão do seu rosto são a própria tarde que se decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei? (grifos nossos)

Aqui percebemos o impulso progressista e até mesmo sincero (de fato há uma diferença irredutível entre o pequeno burguês e o proletário), mas ao mesmo tempo as limitações de classe e posição social e subjetiva do autor; o reconhecimento da causa, mas o sentir-se inútil para a mesma.

No ano de 45, Drummond resolve entrar na vida política e começa a escrever na Tribuna Popular, jornal do PCB, e ingressa na mesma sigla. Nesse período outros escritores de sua geração também entraram na fileira do partido, como é o caso de Jorge Amado e Graciliano Ramos, nomes cuja obra é classificada mais fortemente como “comunista” (pelo menos em determinadas obras), onde a causa política e social aparecem de forma mais pura e menos subjetiva/individualista como na de Drummond.

Mas esse passo e avanço para o "mundo dos homens", que clamava por um posicionamento mais firme do autor, logo seria abandonado de maneira arrependida. Fica só 6 meses no Partido sai por pressão teórica e política (tendo como apse o famoso caso de suposta agressão física por parte do Partidão durante a realização de uma ata na Associação Brasileira dos Escritores) e cada vez mais caminha para o reacionarismo e a apatia política. De poeta social, vira um poeta metafísico nas décadas seguintes, pairando sobre o espírito, mesmo a história continuar o chamando: em plena ditadura civil militar no país, sua poesia nada denuncia, e sua pessoa não toma parte de nada. O homem pequenino fecha-se em sua própria casca, assombrado e descrente com o mundo exterior. Aqui o tênue laço do poeta com a causa é perdida e sua posição atrasada de pequeno burguês se torna efetiva. O fatalismo da trajédia pequeno burguesia se confirmava. A identificação com o proletariado que outrora parecia poder acontecer é enterrada de vez. 

Em uma entrevista (Entrevista de Carlos Drummond De Andrade a Luiz Fernando Emediato, publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo em 15 de agosto de 1987) perto de sua morte, Drummond demonstra enfim a perda completa de seu posicionamento político do período de 40-45:

“O senhor apoiou o movimento de 64?
Drummond - Não apoiei não. Eu fui contra João Goulart, achei que a derrubada dele foi salutar. Mas uma semana depois já haviam praticado tais desmandos que não pude apoiar. Posso ter pecado por omissão por não ter denunciado logo, mas não apoiei.
O senhor já foi convidado para visitar Cuba, como outros intelectuais que lá estiveram e até escreveram livros a respeito?
Drummond - Nunca fui, não. Aliás, uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite, e me telefonou o Chico Buarque de Holanda, pessoa que admiro muito, mas com quem não tenho nem contato. Gosto da música dele. Telefonou e disse: "Preciso conversar com você". Eu disse: "A esta hora da noite? Meu Deus, aconteceu um drama, para o Chico me procurar!" Mas disse. "Pois não, venha". Apareceu em companhia de um cidadão moreno, magro. Era já meia-noite e meia. O cidadão falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua no Brasil, que tinha lido uma crônica minha no jornal e achava que eu estava mal informado sobre o país dele. Ah, tenha paciência! Eu tenho noção do que escrevo, compreendeu? Não sou partidário dos Estados Unidos, longe disso, acho a agressão à Nicarágua uma coisa estúpida. Mas não se pode negar que a Nicarágua é uma ditadura. Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta Pablo, Antonio Cuadra. E então falei para o Chico: "Tenha paciência"!
O senhor tem um poema, Favelário Nacional, em que diz que é difícil ser irmão das pessoas, ser solidário.
Drummond - Eu acho muito difícil. Fomos criados para sermos irmãos de nossos irmãos, e mesmo assim olhe lá. Somos irmãos de nossos irmãos e de nossos amigos - os demais são sócios, indiferentes ou inimigos, competidores. Se eu quiser ser irmão de um favelado eu acho que ele me cospe na cara.”

O posicionamento dos intelectuais provindos da pequena burguesia pode ser entendida concretamente com o exemplo de Drummond. O vislumbre progressista pode ser um fugaz momento, podendo dar lugar a um reacionarismo e conservadorismo dos mais explícitos. Lidar com esses "vai e vens" da pequena burguesia desde sempre foi um problema enfrentado pelos trabalhadores e revolucionários na sua luta. Um remédio não há: não se pode afirmar muita coisa sem avaliar numa determinada conjuntura o comportamento e papel de setores da pequena burguesia e da intelectualidade. De modo geral, esforço não sectário é o de conquistar os setores progressistas para a causa. Mas, se os mesmos não atenderem ao pedido da história e preferir por covardia ou por incapacidade ser peso morto do progresso e da emancipação dos trabalhadores, os próprios, mesmo sem querer tomar partido, decidirão seu lado na prática: o do inimigo.

É o que partido que se dizem socialistas não compreendem por mero oportunismo, como é o caso do PSOL de Leandro Konder, um de seus fundadores, antigo PT e PCB, que no caso Drummond – PCB, fica do lado de Drummond1 (KONDER, 2009, p. 172-3) e de sua ambiguidade num período histórico de extrema urgência e importância. Apoiando a prática pequeno burguesa dentro dos partidos comunistas Konder parece pedir mais paciências com os elementos mais atrasados da pequena burguesia e mostra sua linha política e de seu partido, atrasadas e cheias de pompas intelectuais.

Mas, idenpedentemente dos artistas e de suas fragilidades, suas obras, eternas, ficam, ganham vida, e dizem por si só.




1 KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das ideias. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009. p. 172-3.