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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm

Impactante discurso (porque verdadeiro e honesto) de um escritor brasileiro da nova geração "pós-democratização". Que o engajamento entre o artitas continue e se aprofunde nesses momentos decisivos que vivemos da luta popular.



"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

domingo, 1 de setembro de 2013

Poema sobre as jornadas de junho




À sombra de um prédio grande,
ou à sombra do sol forte,
aqueles que não sabiam dizer,
disseram;
aqueles anônimos das telas,
calaram.
Revertendo assim as horas
dos donos do relógio -
O tempo, senhor de tudo, com nada ficou, apenas migalhas já não controladas

A rua tornou-se rua, enfim,
através dos passos firmes
e não dos pneus.
Um encontro feliz
entre a palavra e o grito
a força e o gesto.
Carros expulsos, sonhos em seus lugares.

Se a vitória estava longe
e a raposa na esquina,
não havia razão para dizer não:
o chamado se fazia por si só,
obrigação decidida,
escolhida, voluntária,
de riso e dor.
Meios e fins se fundiram.
A razão era única e não era racional!

Os fantasmas do cemitério
se alvoroçaram:
"Existem vivos ainda!"
O possível nas palmas das mãos,
o ressurgir do pó como origem:
"Reinventar a vida!", diziam os olhos.
O altar dos mortos, então, balança,
não cai.

O primeiro abalo de muitos!
A visão do futuro muda completamente o passado.
O que seremos muda quem fomos.
A direção muda o sentido.
Se escravidão tem sido nossa condição primeira
independente dos tons de nossos adjetivos,
a luta aqui travada pode todas as páginas embelezar.
A juventude que era nada, pode tudo inventar.

O novo assaltou de surpresa
e a poeira mudou de lugar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Notas sobre o livro póstumo de Hobsbawm




A "anti-arte industrial" de Warhol, massificada e vazia: avanço ou retrocesso à cultura burguesa tradicional?


Hobsbawm se foi no final de 2012, levando toda a sua erudição. Ainda é um autor progressista? A Veja, à época, o chamou de "idiota moral", denunciando seu "marxismo irredutível", apesar de elogiar seu "talento". Não nos apressemos: a linguagem histérica desse podre exemplar do monopólio do reacionarismo de vanguarda (e seus nefastos objetivos) é capaz de acusar o próprio sol de comunista quando avermelha o céu. Na realidade o historiador nos seus últimos anos de vida chegou ao ápice de uma ambiguidade política típica de um revisionista: chegando a apontar a "relevância de Marx" na atual crise juntamente com declarações anticomunistas comuns a qualquer formador de opinião ocidental do pós-guerra fria (formado na melhor escola arendtiana do "totalitarismo").

Em "Tempos Fraturados - cultura e sociedade no século XX", vemos esse Hobsbawm ambíguo, mais pra lá do que pra cá, com um realismo/ceticismo exemplar em relação à possibilidade de um futuro para além do capitalismo. Talvez tenha se tornado inconveniente nos círculos acadêmicos negar a plausibilidade do regime democrático-liberal que força sua entrada nos últimos rincões do mundo, sem nenhuma alternativa à altura - em oposição aos estranhos e cruéis "totalitarismos" socialistas do passado que impunham uma ditadura popular a seus habitantes e ameaçavam o cotidiano morno de um homem das letras. De qualquer forma, como em Era dos Extremos, sua posição política não enche de desonestidades suas análises e dados a ponto de inviabilizar sua leitura. Estamos diante de um intelectual que, em alguns assuntos, conseguiu a proeza de não perder a lucidez.

Então tentando isolar sua falta de "prognóstico", e consequente neutralismo do presente, vejamos o que ele traz, e uma possível explicação que leve a um terreno marxista.

O livro é um exemplar de seu projeto de história social e cultural, sobretudo do século XIX para cá, contendo várias palestras, artigos dos últimos anos de sua vida, já publicados ou inéditos. Felizmente, isso não coloca o livro dentro da teoria da história e da historiografia "pós-moderna" em voga (mais próxima da literatura solipsista). Hobsbawm é um dos poucos historiadores contemporâneos do período após a moda da "História Nova/Estudos culturais" que manteve um mínimo de decência materialista em suas análises culturais, em oposição à ironia em relação ao marxismo e a qualquer análise científica dessa corrente. Ele toma as principais transformações da cultura nas sociedades humanas modernas/ocidentalizadas (e outras nem tão principais assim...) entre a consolidação burguesa e o iniciante século XXI, relacionando-as com as relações geopolíticas e econômicas.

Tomemos as linhas principais, e deixemos seus capítulos de exercício erudito e hermenêutico de lado. Hobsbawm quer saber sobre a decadência da sociedade burguesa tradicional, através das mudanças sociais do século XX, e que nos fez herdar um mundo aparentemente tão complexo quanto o de hoje. Para ele, as revoluções tecnológicas alteraram de forma significativa as formas de sociabilidade e de produção artística em todo o mundo. A ideologia na sociedade burguesa não é mais a mesma: eis um ponto que muitos marxistas resistem a compreender, renovando apenas seu "repertório" econômico e político, e deixando sua visão sobre a ideologia (as formas de construção de identidade, produção e luta simbólica entre as classes) intacta desde meados do século XX.

Que alterações foram essas? Segundo Hobsbawm: "o muro que separa cultura e vida, reverência e consumo, trabalho e lazer, corpo e espírito, está sendo derrubado. Em outras palavras, "cultura" no sentido burguês criticamente avaliativo do mundo cede a vez à cultura no sentido antropológico puramente descritivo.". Aquele mundo das artes e da cultura de elite, acessível a poucos iluminados, em espaços públicos determinados e quase sagrados (museus, óperas etc.) se foi - e parece ter sido corrompido para sempre. A sociedade atual possui um formato muito diverso daquele representado pelas cidades burguesas europeias com claras distinções entre cultura "alta" e popular.

Abrindo um parêntese, há de se perguntar, no entanto, se esse mundo que não encontrou espaço no século XX deve ser chamado de "burguês tradicional". Ora, o próprio Hobsbawm aponta que ele foi montado em muitos aspectos por traços não-democráticos (meritocráticos) e principescos, herdados de um passado recente aristocrático. A sociedade de massa do século XX, e agora, a chamada sociedade de massa individualizada do século XXI, não seria mais próximo aos ideais universais burgueses, e ao seu modo de produção industrial (e não artesanal)? Isso nos faz lembrar as teorias que afirmam um presente "pós-capitalista", por identificar capitalismo apenas suas fases nascentes (supostamente "descritas" no Capital de Marx, nesse sentido, não mais útil). O que é uma bizarrice sem tamanho.

Porém, se levarmos em conta uma tese que é muito defendida por Hobsbawm, de que o século XX, mais precisamente após a Segunda Guerra Mundial, abandonou os ideias iluministas (progresso, razão emancipadora), que tinha se aliado numa frente (capitalismo-socialismo) para vencer o irracional nazi-fascismo, podemos ver melhor que, o apontado por ele como sociedade burguesa tradicional é aquela cujo funcionamento se dava através de um horizonte ideológico provindo das revoluções burguesas (que opunha ao obscurantismo e o absolutismo). Mas, novamente, podemos afrontar essa tese com a seguinte reflexão: a sociedade burguesa seria consolidada apenas por uma ideologia fixa, que denotaria sua "natureza", ou se modificaria, através dos anos e das formações sociais, buscando perpetuar sua existência (no início, mais aristocrática, depois mais liberal etc.)? Nesse sentido podemos pensar também as sociedades nazi-fascistas como sociedades burguesas, o que de fato são, apesar de em sua aparência (coorporativismo, anti-liberalismo etc.) serem tão "opostas". E também, podemos pensar o socialismo de forma não-idêntica ao iluminismo, argumento pelo qual Hobsbawm parece justificar sua desconfiança de um possível retorno à "ditadura do proletariado" - afinal, os ideais iluministas acabaram... Então como o capitalismo se mantém de pé sem eles???

Esse debate, na filosofia, normalmente é conhecido sobre a ruptura ou continuidade entre a modernidade (molde burguês clássico e seu opositor socialista) e a pós-modernidade (onde, a priori, nenhum dos dois faz sentido em seu sentido clássico).

Enfim, o fato é que essa esfera cultural apresentou transformações: a produção simbólica apresenta traços muito peculiares hoje, e cada vez mais internacionalizados. A laicização e o impulso à modernização levaram a cultura e as artes a uma velocidade e dinâmica nunca antes vistas. As ciências naturais e exatas aplicadas transformaram não só as forças produtivas mas nossos cotidianos e nosso mundo. Assim como relações sociais impulsionaram novas invenções que dessem conta desse modelo.

O legado burguês clássico e ocidental parece ter caído no ostracismo: permanece como artigo de luxo, e com pouca expressividade na sociedade, restringindo-se a clubes seletos e pouco ortodoxos. As artes plásticas (sobretudo elas), o teatro, a poesia declamada, e demais produtos permanentes de representação humana, monopolizados pela "burguesia instruída" em seu início, vem perdendo terreno para a produção cultural de massa e fortemente baseada na intermediação tecnológica e multimidiática. O lugar privilegiado das artes e do saber erudito (que elevava, como no romantismo, a figura do artista ao lugar de mediador do sublime) desapareceu, e seu enterro se deu com o fracasso das vanguardas, e as propostas de anti-arte dadaístas ou do pop art. O muro, que Hobsbawm falava, entre arte e vida, belo e banal, foi rompido e sua diluição gerou esse nosso cotidiano mergulhado em excesso de informação, imagens e sons. O mundo da alta cultura, com seu gênio e seu artista, foi profanado, no momento em que nosso cotidiano foi elevado à condição de artístico, com muitos artistas (lema do punk rock: faça você mesmo), muitos intelectuais especializados e serviços artísticos-culturais.

O fim desse elitismo cultural simboliza tanto uma democratização da cultura (vide o crescimento vertiginoso da escolaridade e da alfabetização depois do pós-segunda guerra, e a constituição de massas estudantis e "consumidores de cultura" em todo o mundo), quanto um efeito perverso (que os estudiosos da cultura de massa já apontavam como a criação de uma sub-cultura, e a mercantilização da cultura através da indústria do entretenimento). Esse efeito perverso foi muito perceptível ao longo do século XX, onde o rádio, a TV, o cinema e a propaganda, foram grandes aliados ideológicos para o capitalismo. Assim como hoje é perceptível uma onda mais "democratizante" a partir da internet e maior mobilidade migratória, que em oposição à homogeneidade imposta por setores dominantes e seus monopólios, possibilitam um maior grau de sincretismo e interferência cultural - o que hoje se chama de multiculturalismo e que representa uma possibilidade de interseções culturais (sincretismos) que possibilitam uma certa "voz", influência e resistência a culturas dominadas. Eis uma primeira aparência, e Hobsbawm consegue completá-la com a advertência que essa abertura ao multiculturalismo, através das "mídias horizontais" por exemplo, também é útil ao mercado a partir de criação de novos nichos de consumo (mulheres, negros, gays etc.). Além disso, esse novo terreno para além do massificado, e mais individualizado, mina o potencial de intervenção política coletiva - é preciso notar, como aponta Hobsbawm, os artistas e intelectuais hoje são muito menos engajados que no no intervalo XIX-XX - e continua nas mãos de empresas privadas ou Estados (vide os casos recentes de espionagem ianque em servidores famosos da web). Assim como, podemos adicionar, os meios de comunicação de massa foram, como na URSS, e são essenciais ainda para uma propaganda contra-hegemônica que atinjam as massas.

De forma geral, o livro de Hobsbawm consegue apontar algumas características do estado cultural (ideológico) do mundo ocidental de hoje (cada vez global e veloz, apesar de aparecer de forma mais metamorfoseada na "periferia" ou no campo - e muito mais sincréticas). Não é um livro isolado, mas compartilha com outros esforços essa busca de apreensão da realidade ideológica - que também, como Hobsbawm, se afastam do, ou veem com preconceito, marxismo. Essas características da ideologia hoje desafiam não só a construção de novas análises conjunturais - órfãos de uma análise completa marxista-, que consigam encontrar a "essência" desse novo cenário, como também de novas ações e projetos políticos que busquem alcançar relevância e organicidade com as massas.

O sociólogo Norbert Elias, em famoso ensaio, aponta que a século XX caminhou culturalmente para sociedades onde há primazia da identidade individual sobre a identidade coletiva, onde o "eu" (potencializado com o simulacro do consumo e serviços individualizados por exemplo) é maior que o "nós" de uma tradição ou coletividade (família, nação, ideologia). Ao mesmo tempo que o "nós" ainda se permanece nos Estados-nações (de funções gigantescas na sociedade) além de se internacionalizar: um "nós" humano se tornou mais concreto, e cada vez mais podemos ter acesso rapidamente a fatos do mundo todo, e conseguimos nos identificar com injustiças em locais que nunca fomos. Eis a transformação de mão dupla que a decadência da sociedade tradicional burguesa e seus ideais e instituições nos trouxe, cheia de arestas ainda não concluídas e em disputa. E ela fica muito clara se refletirmos sobre essa nova "geração facebook", que ao mesmo tempo que gasta horas com marketing pessoal na rede, também se organiza e se articula no mundo todo. Ou que, vivendo em mundo cada vez mais técnico-científico, tem buscado em religiões e fundamentalismos (ver o boom pentecostal no Brasil) parâmetros normativos para sua vida pessoal de forma a não se contradizer.

A esfinge do presente está na nossa frente. Ou atualizamos nossa resposta para dar conta de sua charada e mudamos o mundo sobre suas bases atuais, ou, graças a nossa nostalgia, somos engolidos por ela. Largar o lado da tradição anacronizada, que nos afasta no concreto, sem cair no terreno pantanoso (e mais fácil) da traição: um grande desafio para os marxistas.

A CIA e a guerra fria cultural

Reproduzimos resenha de Miguel Urbano Rodrigues de um importante livro para compreender a relação entre política, luta de classes as artes/cultura. Esta, em nossa época, mais uma vez se mostra, não paira puramente nas bibliotecas e museus, mas está, em última instância, vinculada ou à perpetuação ou à superação do sistema capitalista.

© 2013 Sally Edelstein


Esta semana chegou-me às mãos um livro muito importante: A CIA e a guerra fria cultural. [1]

Desconhecido em Portugal, gostaria que fosse editado no nosso país para ser lido por milhares de pessoas desinformadas por um sistema mediático perverso que apresenta uma imagem deformada do sistema de poder dos Estados Unidos.

O título é enganador. Ao iniciar a leitura estava persuadido de que se tratava de mais uma obra de divulgação de ações criminosas da CIA. Daí a surpresa.

O livro de Frances Stonor Saunders é muito mais ambicioso. A autora, jornalista e historiadora britânica, dedicou cinco anos à investigação de um tema muito mal conhecido: as atividades encobertas desenvolvidas pela CIA no mundo da cultura para promover o descrédito do comunismo e mobilizar contra a União Soviética grande parte da intelligentsia progressista ocidental.

Em 1945, o prestígio da URSS nos EUA era enorme. A maioria do seu povo sentia uma grande simpatia, sobretudo apos a batalha de Stalinegrado, pelo país que desempenhara um papel decisivo na derrota do Reich nazi.

Essa realidade era muito incómoda para a elite do poder estado-unidense. A Doutrina Truman e o Plano Marshall demonstraram ser manifestamente insuficientes para alterar a atitude da classe média estadunidense perante a União Soviética.

Os cérebros ligados ao poder em Washington concluíram pela necessidade urgente de convencer o homem comum norte-americano de que o aliado na guerra durante quatro anos, de 1941 a 1945, era, afinal, um perigoso inimigo.

A elite que se propunha a reorganizar o mundo sob a égide dos EUA em torno dos seus "valores" estava consciente de que esse objetivo somente poderia ser atingido se o Ocidente capitalista fosse empurrado para a conclusão de que o comunismo, "obscurantista, desumano, agressivo", era a grande ameaça para a humanidade, pelo que se tornava imprescindível combatê-lo.

A Oficina de Serviços Estratégicos-OSS, que funcionou durante a guerra como uma Gestapo americana, foi de certa maneira uma predecessora da CIA. O seu chefe, o general William Donovan, reuniu à sua volta destacadas figuras da aristocracia do capital como os filhos do banqueiro JP Morgan, os Vanderbilt, os Dupont, e intelectuais como George Kenan e Charles Bohlen.

Uma das primeiras iniciativas da OSS foi o recrutamento de militares e civis nazis. Dezenas de altas personalidades alemãs passaram de criminosos de guerra a aliados de confiança. Um caso expressivo:o general das SS Reinhardt Behlen, chefe dos serviços secretos nazis que, em vez de ser preso e julgado, recebeu o tratamento de colaborador privilegiado da OSS.

No seu livro, Frances Saunders dedica os primeiros capítulos às campanhas desenvolvidas por Donovan, com o apoio de Truman, para demonstrar aos europeus que os EUA eram uma sociedade onde a cultura ocidental lançara raízes profundas, contrapondo essa imagem à "barbárie soviética". O Bem contra o Mal.

A literatura, a música, a pintura, a arquitectura, o ballet dos EUA foram amplamente divulgados na Alemanha, na França, na Itália e noutros países. Simultaneamente, antecipando-se a eventuais acusações de patrioteirismo, obras de Aristófanes, Goethe, Schiller, Thomas Mann, Ibsen, Strindberg, Shaw, Gorki, Gogol eram difundidas numa prova inequívoca do amor dos EUA pela cultura universal.

Essa ofensiva cultural não produziu, porem, os resultados previstos.

Coube à CIA a tarefa de levar adiante no contexto da Guerra Fria um projeto muito mais complexo e ambicioso, também na frente da cultura.

Criada em 1947 pela Lei de Segurança Nacional, a Agencia Central de Inteligência-CIA assumiu as proporções de um polvo gigantesco. Inicialmente não estava autorizada a intervir em assuntos de outros países. Truman e os seus sucessores permitiram que ela desenvolvesse atividades de espionagem, e promovesse operações militares. Hoje possui linhas aéreas, emissoras de TV e rádio, jornais, companhias de seguros, imobiliárias, bancos.

Em l948 foi criado na Agencia um Escritório de Coordenação de Politicas – OPC com a missão específica de realizar "operações secretas" em múltiplas áreas.

Esse estranho departamento especial cresceu vertiginosamente. Em três anos o seu pessoal passou de 302 pessoas a 2812,alem de 3142 assalariados no estrangeiro. O orçamento elevou-se de 4,7 milhões de dólares para 82 milhões.

O ideólogo do sistema era então George Kennan, o ex embaixador em Moscovo, fanático anticomunista, arquitecto do Plano Marshall que desempenhou um grande papel na concepção e funcionamento da Guerra-Fria.

Foi um dos pais da CIA e consultor da OPC. Coube-lhe formular o conceito da "mentira necessária" como componente fundamental da diplomacia estado-unidense.

Uma das operações secretas mais difíceis foi a concebida para utilizar a esquerda não comunista em campanhas anticomunistas. Secreta porque os intelectuais envolvidos em campanhas contra a União Soviética deveriam ser manipulados habilidosamente. A OPC atuava nos bastidores, invisível. O governo americano, as embaixadas dos EUA, os grandes media norte- americanos abstinham-se inclusive de comentar elogiosamente as tomadas de posição antissoviéticas de escritores e artistas europeus, muitos dos quais eram ex-comunistas. Tudo se passava como se as conferencias, seminários, festivais manifestações e outros eventos em que participavam esses intelectuais fossem espontâneos, nascidos de iniciativas suas.

Mas a realidade era muito diferente. Oculta, era a CIA quem planeava a orquestração anticomunista, quem financiava generosamente (com o Departamento de Estado) essas campanhas.

Frances Saunders desce a minúcias ao descrever o esforço desenvolvido pela OPC através de intermediários respeitáveis para conseguir que grandes nomes da esquerda aderissem a iniciativas de cariz anti-soviético.

Nos EUA prestaram-se a esse papel escritores prestigiados como John Steinbeck, John dos Passos, Gertrude Stein, Schlesinger, W.H.Auden, Arthur Miller, e orquestras sinfónicas, museus, etc. Os intelectuais trotsquistas aderiram massivamente. Na Europa, foram envolvidos na teia anti-soviética: André Gide, Albert Camus, Elsa Triolet, Andre Malraux, Simone de Beauvoir, Raymond Aron, Georges Orwell, Aldous Huxley, Laurence Olivier, Jean Cocteau, Salvador de Madariaga, Claude Debussy, Denis de Rougemont, Milan Kundera, e muitos outros. E – chocante, mas real - Aragon, Sartre, Bertrand Russell.

A intervenção na Hungria das tropas do Tratado de Varsóvia, em 1956 criou na Europa uma atmosfera favorável à intensificação da Guerra Fria.

Entre os muitos livros cuja publicação foi promovida pela CIA, um deles, The God That Failed (O Deus Que Falhou) foi best-seller mundial. Traduzido em dezenas de línguas vendeu milhões de exemplares. Partiu da CIA a ideia de reunir seis ensaios (a maioria já publicados na revista alemã Der Monatcontrolada pela Agencia) de Arthur Koestler, Ignazio Silone, Andre Gide, Richard Wright, Stephen Spender, todos eles escritores famosos que haviam sido militantes ou simpatizantes comunistas.

"Além de ser uma espécie de confissão coletiva – escreve Frances Saunders – o livro era um ato de recusa, uma rejeição do estalinismo no momento em que para muitos essa atitude era ainda uma heresia. Foi um livro de importância transcendental no pós-guerra e aparecer nele foi um passaporte válido para o mundo oficial da cultura nos vinte anos seguintes".

Koestler, que adquirira enorme notoriedade com o seu romance O Zero e o Infinito, Milovan Djilas e George Orwell, autor do 1984, destacaram-se nessas iniciativas pela sua febre anticomunista.

O primeiro, que havia sido nos anos 30 um dedicado militante do Partido Comunista Alemão-DKP, colaborou intimamente com a CIA e foi conselheiro do Foreign Office em campanhas anti-soviéticas.

Comités e Associações constituídos para defender a Cultura, a Liberdade e a Democracia, mas cujo objetivo era a promoção de iniciativas anticomunistas, permitiram então à CIA (sempre atuando nos bastidores) exercer uma grande influência sobre uma parcela importante da "esquerda não comunista".

Para isso contou com a colaboração e a ajuda financeira de organizações como a Fundação Ford.

Das muitas revistas criadas para "promover a cultura", uma delas, a britânica Encounter, alcançou prestígio mundial. Dirigida por Stephen Spender, um poeta inglês, foi concebida para funcionar como um instrumento político anticomunista no mundo da cultura. E atingiu o objectivo. Durante anos colaboram nela eminentes figuras da intelligentsia mundial.

Nem o diretor, Spender, conhecia a origem do financiamento. Quando uma inconfidência revelou, nas vésperas da Assembleia do Congresso pela Liberdade da Cultura, a ponte entre Encounter a CIA e as elites financeiras dos EUA, o escândalo foi maiúsculo.

Em reuniões desse Congresso fantasmático, ideado pela CIA, participaram, aliás, durante anos grandes nomes da esquerda não comunista. Na prática foi uma tribuna anticomunista.

No seu belo livro, Frances Saunders dedica alguns capítulos a ações encobertas da CIA não comentadas neste artigo. Cita nomeadamente várias Fundações, Universidades, congressistas e governantes que apoiaram iniciativas criminosas da famosa Agencia. Um mar de lama tóxica.

E dedica especial atenção aos quadros – ideólogos e executantes – que idearam as campanhas anti-soviéticas, fazendo delas uma poderosa arma da Guerra Fria.

Cito alguns nomes dessa máfia política praticamente desconhecida em Portugal: Lasky, Josselson, Nabokov, Kristol, Hook, Wisner. Termino transcrevendo o último parágrafo do livro de Frances:

"Sob a (ainda não) estudada nostalgia dos "Dias dourados" da inteligência americana havia uma verdade muito mais demolidora:   as mesmas pessoas que liam Dante, estudaram em Yale e se educaram na virtude cívica, recrutaram nazis, manipularam o resultado de eleições democráticas, proporcionaram LSD a pessoas inocentes, abriram o correio de milhares de cidadãos americanos, derrubaram governos, apoiaram ditaduras, conceberam assassínios e organizaram o desastre da Baia dos Porcos.

Em nome de quê? perguntava um crítico: "Não da virtude cívica, mas do império". 
Vila Nova de Gaia, 9/Agosto/2013


[1] Frances Stonor Saunders, Who Paid the Piper? The CIA and the Cultural Cold War , Granta Books, United Kingdom, 1999. Em 2013, a Random House Mondadori lançou em Bogotá a edição colombiana, com 597 páginas: www.megustaleer.com/ficha/C922362/la-cia-y-la-guerra-fria-cultural 

O original encontra-se em www.odiario.info/?p=2980 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 28 de março de 2013

O Segundo Réquiem para Gullar


Publicamos abaixo texto produzido pelo Blog Cem Flores.

O poeta de esquerda "arrependido": um prato cheio para o monopólio midiático reacionário de "tempos democráticos"



O último poema de O Vil Metal chama-se Réquiem para Gullar[1]. No ano passado,  após mais de meio século, Ferreira Gullar fez publicar seu segundo réquiem. Enquanto no primeiro exercia o seu ofício, neste último a poesia sai de cena. Aquele que já se definiu “poeta político” (Omissão, B) agora renega a si mesmo, abandona a esperança e a luta, capitula e trai.

Para que não pensem que exageramos, transcrevemos abaixo os principais trechos dessa fúnebre (não) poesia de Gullar. Pretendemos, em seguida, analisar cada um desses pontos à luz, principalmente, da própria poesia de Gullar e, assim, completar seu obituário. Nesses dias de trocas de papas, podemos voltar ao velho latim e dizer: Requiescat in pace!

*    *    *

Entrevista de Ferreira Gullar nas páginas amarelas da Veja, em 26.09.2012, piores trechos:

“O capitalismo é forte porque é instintivo. ... O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.
A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro.”

“O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.”

“O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.”
“A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária.” (negritos nossos)[2]

*    *    *

Como pode um antigo militante comunista dizer essas bobagens ridículas, expressões de rendição de classe? Avancemos uma primeira hipótese, que condiz com nossa tese dessa entrevista como um réquiem, a partir da própria poesia do ex-poeta:

“Foi-se formando/a meu lado/um outro/que é mais Gullar do que eu/que se apossou do que vi/do que fiz/do que era meu/e pelo país/flutua/livre da morte/e do morto” (O Duplo, PI).

Se descartarmos essa hipótese poética de um duplo, de um impostor que tenha tomado o lugar do velho Gullar (e pilhérias a parte), a explicação mais plausível para sua impostura deve estar baseada no próprio fenômeno que funda uma sociedade dividida em classes antagônicas, que a perpassa de cima a baixo, e define os rumos da prática, da teoria e da ideologia de cada classe nessa sociedade: a luta de classes.

O recuo e a traição de Gullar podem ser explicados (nunca justificados!) como efeitos do próprio recuo da classe operária na luta de classes contra a burguesia nas últimas décadas. Efeitos das ausências de uma firme posição revolucionária entre as massas e do seu partido comunista na sociedade brasileira atual. Efeitos do recuo relativo da teoria marxista no país. Só que esses efeitos, para o segundo réquiem de Gullar,já se mostram um tanto quanto defasados, pois tanto a conjuntura mundial quanto a conjuntura nacional da luta de classes já apontam para uma retomada da luta de massas, o que tende a levar em seu bojo a retomadas tanto da teoria marxista quanto de sua organização revolucionária.

A própria e necessária ligação entre luta de classes e posição política não era desconhecida do antigo poeta:

“Meu povo e meu poema crescem juntos” (Meu Povo, Meu Poema, DNV).

*    *    *

Vamos analisar agora, brevemente, as principais teses do segundo réquiem.

Primeira tese de Ferreira Gullar: o capitalismo como tendo “origem natural”. O capitalismo como fruto “dos instintos do ser humano”. Passagem de “natural” para final, “invencível”. Fim da história.

Ao abandonar a posição proletária e revolucionária, Gullar abandona o materialismo histórico e, com isso, regride às formulações ideológicas das classes dominantes, utilizadas para justificar a dominação de classe da burguesia. Para esta, nada melhor do que apresentar o capitalismo – e assim justificar sua exploração sobre a grande maioria da população – como algo natural e espontâneo, porém de acordo com a natureza, com uma pseudo-essência, do ser humano. Dessa forma, o capitalismo vira o fim da história ou, nas palavras de Gullar, um sistema “invencível”.

Nada mais distante, porém, da realidade do que essa caricatura ideológica.

O capitalismo, ao contrário de ser de “origem natural”, é um modo de produção historicamente determinado com o objetivo de produzir e reproduzir não apenas as condições materiais de existência, mas também as relações de dominação e exploração de classe que lhe são características.

Isso quer dizer que a constituição do modo de produção capitalista, tal qual do feudalismo e do escravismo, dependeu de uma série de fatores concretos, contingentes porém cumulativos (políticos, sociais, tecnológicos, etc.), ocorridos em determinado e longo período histórico. Essa transição do feudalismo ao capitalismo nada teve de necessária, imanente, caracterização típica de quem, à “esquerda” ou à direita, professa diversas “filosofias da história”, com sua sucessão pré-determinada e teleológica de momentos que culminariam com a realização da “essência” do homem.

Da mesma forma, o capitalismo não é a realização dos “instintos do ser humano” – supondo que tais instintos existam além da herança evolucionária que compartilhamos com os demais seres vivos (resumidos de forma geral nas buscas pela sobrevivência e pela reprodução) – sejam eles quais forem. O importante é explicitar que nesta frase de Gullar se resume a impostura ideológica do liberalismo burguês: criar um indivíduo representativo de todos, ignorando as divisões da sociedade em classes, e associar este indivíduo ao burguês. Porém atenção: não se trata aqui do burguês real, egoísta, explorador e sedento de lucro, mas de um burguês ideologicamente idealizado, um poço de virtudes.

Virtudes essas ressaltadas e condensadas nas belas e genéricas declarações de princípios, necessariamente ideológicas, da burguesia, tais como as dos pais do liberalismo inglês, ou dos direitos do homem e do cidadão da grande Revolução Francesa, ou ainda o Bill of rights da Revolução Americana, até os mais recentes estatutos da ONU ou a “constituição cidadã” brasileira. Trata-se, no entanto, de submetê-las ao confronto da realidade concreta. A realidade concreta da opressão do imperialismo inglês sobre os povos coloniais do mundo todo até meados do século passado e dos bairros proletários denunciados por Charles Dickens e Jack London. A realidade concreta da opressão sobre os miseráveis e os mineiros franceses, denunciadas por Victor Hugo e Émile Zola no século XIX, das condições de vida nos banlieues da Paris atual às tropas colonizadoras que oprimem os povos do mundo aos acordes da Marselhesa. A realidade concreta do secular escravismo americano substituído por um apartheid em que se enforcavam negros aos aplausos da multidão branca nas southern trees denunciadas por Billie Holiday, da miséria espalhada pelas depressões do século XX, retratada por John Steinbeck, e do século XXI, ainda à espera de autor, às políticas do big stick que se mantêm de Theodore Roosevelt a Obama. A realidade concreta dos sempre negados direitos à autodeterminação dos povos diante das “intervenções humanitárias” das grandes potências imperialistas. E a realidade concreta do nosso conhecido país da jabuticaba, das Vidas Secas de Graciliano à Cidade de Deus de Paulo Lins e aos Domingos Sem Deus de Luiz Ruffato, e uma das maiores desigualdades sociais do mundo, para usar esse eufemismo estatístico.

Portanto, o capitalismo não só não é algo “natural” sendo, pelo contrário, historicamente determinado, como não realiza “instinto” humano algum, inclusive porque não só não há esse “instinto” humano, como não há, tampouco, esse indivíduo humano representativo de todas as classes no capitalismo.

Mas que o capitalismo não é uma sociedade homogênea, mas dividida em classes, isso o velho poeta já sabia:

“a noite ocidental obscenamente acesa/sobre meu país dividido em classes” (Madrugada, DNV).

Tiradas, assim, suas premissas, já cairia por terra a ridícula hipótese de um capitalismo “invencível”. Mas achamos que cabe acrescentar, ainda, dois pontos adicionais. O primeiro é que não é possível a quem quer que seja, nem a este outro Gullar, ignorar a dimensão da atual crise do capitalismo, da crise da economia mundial, do imperialismo. Crises que vem se sucedendo umas as outras de maneira crescente e generalizada. Crise que, ao ampliar desmesuradamente o nível de exploração sobre as classes trabalhadoras, está fazendo crescer a reação dessas mesmas classes dominadas contra o sistema de dominação.

O segundo ponto é que uma premissa implícita da tese da invencibilidade do capitalismo em Gullar é que ela restaria provada pela queda das tentativas socialistas do século XX. Mais uma vez, o ex-poeta vê tudo ao avesso. As gloriosas e bem sucedidas experiências de derrubada revolucionária do capitalismo, bem como as primeiras tentativas de construção do socialismo na União Soviética, na China, no Vietnã, em Cuba e tantos outros lugares, são lições imprescindíveis, nos seus acertos e nos seus erros, à geração atual de comunistas. Sabemos, agora, quais erros evitar e quais lições desenvolver.

Segunda tese de Ferreira Gullar: o capitalismo como solução para a desigualdade que ele próprio cria, amplia e reproduz. A “capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade”. A “produção da riqueza” no capitalismo.

Mais uma vez, defrontamo-nos com a mais simples e caricata ideologia burguesa. O capitalismo é apresentado como o regime de produção de riqueza ao qual bastaria uma melhor regulação, um maior controle estatal, uma legislação mais apropriada ou quem sabe, uma maior consciência dos capitalistas, para que haja uma distribuição menos desigual dessa riqueza. Como criticou Lênin, um capitalismo asseadinho.

E note bem: uma distribuição menos desigual de riqueza seria tudo ao que o proletariado e as demais classes dominadas poderiam almejar. Como diz este Gullar, essas classes são aquelas que nascem “burras”, nascem “aleijadas”. E a riqueza seria criada pelas empresas, da qual dependeriam os operários. Essa matriz ideológica burguesa é compartilhada por todos os matizes de reformismo e revisionismo, tanto em suas infrutíferas tentativas de criar um capitalismo organizado, asseadinho, quanto nas suas ações para paralisar a classe operária e moderar suas reivindicações.

Mas comecemos a desmontar essa ideologia pelo seu começo. Em que base ocorre a produção de riqueza no capitalismo? O materialismo histórico nos apresenta de forma cabal que é o trabalho humano que transforma os valores de uso disponíveis na natureza, tornando-os apropriados às satisfações das necessidades humanas.

No capitalismo, no entanto, este trabalho humano adquire uma característica bastante específica. É o trabalho daquelas classes que não detêm nem os meios de produção nem as condições de garantir sua própria subsistência. Sua única maneira de subsistir é vender sua força de trabalho à classe possuidora dos meios de produção, detentora do capital. E aqui a maravilhosa descoberta científica de Marx, desnudando a raiz da exploração capitalista: ao produzir uma quantidade de riqueza que supera o valor de sua força de trabalho vendida ao capitalista, essa riqueza excedente, a mais-valia, é apropriada integralmente pelo capitalista, sem equivalente. A riqueza capitalista resume-se, toda ela, à apropriação do trabalho não pago das classes trabalhadoras.

E isso pode ser traduzido em termos poéticos. Mais uma vez, nos socorramos do antigo poeta Ferreira Gullar. E não de qualquer poema, mas de seu poema mais famoso, o Poema Sujo, escrito em meados dos anos 1970 na Argentina, onde o então poeta estava exilado.

O que ficam fazendo os proletários, Gullar?

“trabalhando para o dono – como disse/Marx” (PS).

E o que é a vida proletária, poeta?

“miséria dos homens/escravos de outros” (PS).

Uma década antes, isso já lhe estava suficientemente claro:

“Trabalhava noite e dia/nas terras do fazendeiro./Mal dormia, mal comia,/mal recebia dinheiro;/se recebia não dava/pra acender o candeeiro./João não sabia como/fugir desse cativeiro” (João Boa-Morte Cabra Marcado Pra Morrer, RC).

Ao invés das loas atuais ao capitalismo e sua pseudo-capacidade de distribuir riqueza, ao invés de se deixar festejar pela burguesia brasileira, nosso antigo poeta sabia e enfrentava a dura realidade do país com sua poesia:

“Façam a festa/cantem e dancem/que eu faço o poema duro/o poema-murro/sujo/como a miséria brasileira”
“poema/que não toca no rádio/que o povo não cantará/(mas que nasce dele)”
“Obsceno/como o salário de um trabalhador aposentado/o poema/terá o destino dos que habitam o lado escuro do país/ – e espreitam.” (Poema Obsceno, VD)

Terceira tese de Ferreira Gullar: no capitalismo quem produz as riquezas são os capitalistas e os operários conjuntamente, “um depende do outro”. “O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas”.

“O branco açúcar que adoçará meu café/nesta manhã de Ipanema/não foi produzido por mim/ ... /e tampouco o fez o dono da usina/ ... /Em lugares distantes, onde não há hospital/nem escola,/homens que não sabem ler e morrem/aos vinte e sete anos/plantaram e colheram a cana/que viraria açúcar” (O Açúcar, DNV).

Não é necessário nada além do soco no estômago que é essa poesia para demolir a patética tese da “co-dependência” entre o trabalhador e o “empresário-intelectual-poeta” (sic!).

Mas vejamos esse ponto com um pouco mais de detalhe. Este atual duplo de Gullar, este impostor, afirma que, ao invés do que escrevia antes, a produção de riqueza se dá por “milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro”, pois o burguês “é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas”. Que a burguesia passa todo o seu tempo se beneficiando das maneiras velhas de ganhar dinheiro ou inventando maneiras novas para isso é sua própria definição enquanto classe. O que Gullar não diz (pois a Veja poderia não gostar), mas que é seu sinônimo, é que para isso, a burguesia passa todo o seu tempo se beneficiando das maneiras velhas de explorar os trabalhadores ou inventando maneiras novas de realizar essa exploração. Quem diz capitalismo, diz exploração de classe.

O que o capitalista tem é apenas o dinheiro, o capital. É esse capital que ele põe em funcionamento contratando trabalhadores para gerarem a mais-valia que é por ele apropriada. Ao capitalista, o que interessa é a produção de um valor maior do que o que dispunha inicialmente, tanto faz produzindo açúcar ou cocaína, chips de computador ou armas.

Isso é tão óbvio que até o nosso Zé Molesta já o sabia:

“A verdade é muito simples/e eu vou logo lhe contar./Você não quer liberdade,/você deseja é lucrar. Você faz qualquer negócio/desde que possa ganhar:/vende canhões a Somoza,/aviões a Salazar,/arma a Alemanha e Formosa/pro mercado assegurar” (Peleja de Zé Molesta com Tio Sam, RC).

Esquecido de sua vida anterior, o que o novo Gullar parece ainda acreditar é nos velhos mitos das “robinsonadas”, do pequeno capitalista individual movido a uma ideia na cabeça e algum dinheiro no bolso. Algo como um Steve Jobs. O que ele “esqueceu” é que para transformar essas idéias em produtos vendáveis, mercadorias, o capitalista cai fora e o trabalho é feito pelos operários. Esqueceu que o sucesso do Steve Jobs é baseado em milhares de operários chineses presos em fábricas militarizadas, nas quais se faz apenas trabalhar (muito), comer e dormir (pouco) a troco de salários irrisórios. Lá como aqui e em qualquer lugar, no entanto, a exploração capitalista encontra seu limite na reação operária. Lá como aqui e em qualquer lugar, a luta dos operários limita, na medida de sua organização e disposição de luta, um avanço maior da exploração, aumenta os salários (ainda irrisórios) e conquista melhores condições de trabalho.

No tempo em que ele ainda sabia dessas coisas, ele as chamava pelo nome. Não mais um “empresário-intelectual-poeta”, mas os grandes monopólios imperialistas:

“Que o tempo é pouco/e ai estão o Chase Bank,/a IT & T, a Bond and Share,/a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,/e sabe-se lá quantos outros/braços do polvo a nos sugar a vida/e a bolsa” (Homem Comum, DNV).

E também a própria classe dominante brasileira não era poupada:

“Latifúndios com nome de gente, famílias/com nome de empresas” (Dois Poemas Chilenos, DNV).

E ainda vem esse ex-poeta criticar suas antigas posições como “radical, sectária, primária”! Primárias são as teses que se derivam do senso comum, que expressam a ideologia dominante. Como vimos, não é outra coisa que Gullar faz durante toda a entrevista-réquiem. Sectário é não se abrir ao debate, à discussão, à crítica. O marxismo sempre foi, desde Marx, o oposto a isso. Não é por outra razão que nosso blog chama-se Cem Flores (http://cemflores.blogspot.com.br/). Por fim, como dizia o jovem Marx, ser radical é tomar as coisas pela raiz, o que no caso se traduz em desvendar e denunciar os mecanismos encobertos da exploração capitalista e desnudar a ideologia burguesa que a justifica[3].

*    *    *

À guisa de conclusão, dois comentários.

Ao contrário do que propõem tanto a entrevista-réquiem de Gullar quanto a ofensiva ideológica da classe dominante na atual crise do imperialismo, o capitalismo não é o fim da civilização, o fim da história. Pelo contrário, na atualidade há crescentes indícios de aumento das lutas de massa (passeatas, greves, manifestações, ocupações, greves gerais, etc.) e de retomada do marxismo. Por certo partindo de patamares recuados, mas iniciando a contra ofensiva das classes dominadas.

E como nosso velho “poeta político” já sabia, quando essa luta avança...

“Um grave acontecimento está sendo esperado por todos/Os banqueiros os capitães de indústria os fazendeiros/ricos dormem mal. ... Um grave acontecimento/está sendo esperado/e nem Deus e nem a polícia/poderiam evitá-lo” (A Espera, VD)

“A poesia/quando chega/não respeita nada./ ... /E promete incendiar o país” (Subversiva, VD)

“Onde está/a poesia? Indaga-se/por toda parte ... /poesia/paixão/revolução” (A Poesia, DNV).

E como último e triste comentário, parece que enfim concretizou-se na vida do poeta a sua própria poesia:

“é a morte que te chama/É tua própria história/reduzida ao inventário de escombros/no avesso do dia/e não mais esperança/de uma vida melhor?/que se passa, poeta?/adiaste o futuro? ” (Omissão, B).

“O morto está morto” (Glauber Morto, B).




[1] Neste texto, todas as citações da obra poética de Ferreira Gullar foram feitas de acordo com a edição de sua Poesia Completa, Teatro e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. Dá-se o nome do poema citado e indica-se o livro no qual foi publicado pelas suas iniciais: VM (O Vil Metal, 1954-60), RC (Romances de Cordel, 1962-67), DNV (Dentro da Noite Veloz, 1962-75), PS (Poema Sujo, 1975), VD (Na Vertigem do Dia, 1975-80), B (Barulhos, 1980-87) e PI (Poemas Inéditos, 1948-2006).
[2]Veja, 26 de setembro de 2012. O texto integral está disponível no sítio do filósofo e poeta Antonio Cícero, que o qualifica de brilhante (sic!): http://antoniocicero.blogspot.com.br/2012/10/ferreira-gullar-entevista-revista-veja.html.
[3] Faltou-nos comentar uma afirmação de Gullar, a de que a “função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar”. Para a avaliação marxista sobre o papel do Estado no capitalismo e para uma análise do comportamento recente do Estado brasileiro, remetemos ao nosso artigo “O Estado brasileiro em ação. Como o Comitê Central da Burguesia decide as medidas de política econômica e as determina aos atuais prepostos Dilma e Mantega” (http://cemflores.blogspot.com.br/2012/07/como-o-comite-central-da-burguesia.html). 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Progressismo na música: duas (semi)homenagens a Marighlella


Marighella: entre a difamação e a glória deturpada


Quando a hegemania cultural é da reação, como hoje em dia, é comum a esquerda ficar alegre, muitas vezes de maneira totalmente acrítica, com qualquer furo nesse acachapante cenário. Fica alegre e reivindica para si, sem nenhuma ponderação qualquer heróico esforço de se contrapor ao status vigente. Muitos riscos moram por aí.

Nessa virada de ano vivenciamos na mídia e na vida cultural do país um retorno do rosto mais odiado da ditadura: o de Marighella. Não é por menos, final de 2011 representou o centenário do internacionalmente conhecido comunista brasileiro. Foi lançado um filme Isa Grinspum Ferraz [1], sobrinha do revolucionário, narrado pelo grande ator Lázaro Ramos; um livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães [2]; uma música/clipe dos Racionais MC's, Mil faces de um homem leal, presente no filme de Isa [3] e que marca o retorno à ativa do maior grupo de rap da história do país; e uma música, mais recente, do dúbio artista Caetano Veloso, Um comunista, que integra seu mais recente álbum "Abraçaço" [4]. Além de outras atividades culturais e políticas de menor impacto na "opinião pública".

Quem foi Marighella, a quem interssa sua "fama"?

A mobilização popular no período de "redemocratização" do país obrigou constar na história oficial a heróica batalha de lutadores que pegaram em armas para defender seu país. Dentre eles Marighella. Mesmo que esse processo ainda não tenha, nem de longe se completado, só ver a fachada da Comissão de Verdade e Justiça tutelada pelo governo federal [5], ou tenha sido menor e menos expressivo, se comparado a outros países da America Latina que sofreram com as ditaduras fantoches do capital estrangeiro, o fato é que conseguiu-se minar, pelo menos para o povo, a legitimidade do terrorismo de estado daquela época.

O monopólio midiático, as forças armadas e diversos outros setores e aparelhos de Estado e das classes dominantes, obviamente, tentam constantemente difamar essa memória, apagar a verdade ou "relativizá-la" desse período histórico de intensa luta de classes em nosso país e no mundo. Um exemplo é o discurso liberal "anti-totalitarismo" que tenta igualar, de maneira ridícula, a violência dos "terroristas de esquerda" com o terror estatal-militar. Esquecem de ver, por exemplo, a maneira como era tratados os prisioneiros de guerra dos dois lados para ver o quão "igual" foi!

Essa ameaça de difamação é constante, e tem ganhado, infelizmente, força nos últimos anos, junto com a reorganização do setor conservador.

Isso mostra que a luta pela memória é uma disputa contínua, uma das facetas da luta de classes. Por isso é importante defender nossos lutadores de toda e qualquer falácia ou ataque. Independente do viés ideológico e da luta política devemos lembrar que nossos mortos são nossos mortos.

Porém o inimigo também pode fazer seu serviço de maneira indireta, não explicitamente. Essa é a forma mais perigosa de ataque e que mais arrasta incautos.

Marighella, de fato, foi o "inimigo nº 1 da ditadura". Um militante revolucionário extraordinário, experiente, que estava disposto, como mostrou na prática, de dar sua vida pela causa do povo brasileiro e da revolução. Mas será que sua fama, mostrado como paradigma de luta contra a ditadura, de alguma forma indireta, favorece o inimigo?

Como se sabe, Marighella e sua organização ALN, foram fortemente influenciadas pelo foquismo, retirando de maneira errônea lição da experiência cubana e sua importação mecânica. Sua saída do imobilismo do velho PC foi em direção a uma linha política extremamente militarismo, de menosprezo da teoria, da política e das massas. A ALN era uma organização de ação, visava a guerrilha urbana como soma de forças para uma guerrilha rural. As armas controlava a política, e não a política as armas. Um erro fatal.

A falência dessa linha para o proletariado e as classes trabalhadoras ficou clara em nosso país. A repressão cirúrgica do regime extirpou durante anos do país organizações revolucionárias. Eliminou-se os quadros revolucionários, eliminou-se tudo. Isso podemos incluir até mesmo uma experiência que tentou escapar do foquismo, a guerrilha do araguaia, como ficou conhecida, liderada pela reconstrução do PC no nosso país.

"Se for para fortalecer uma linha política revolucionária, que seja a errada, mais confusão e esforços inúteis serão espalhados", "pensa" o inimigo (ou pelo menos, é a lógica de seu ataque ideológico). Por isso, de certa forma, a imagem personalista de Marighella e de sua linha política incorreta são um deserviço ao verdadeiro balanço que os revolucionários devem fazer de sua luta histórica e nacional. Isso, fique claro, de forma alguma retira a importância de Marighella, sua luta, sua organização. Como dito, estão do nosso lado, e devemos defendê-la. Porém, também não podemos dispensar a auto-crítica e cair na armadilha ingênua da reação fantasiada. Junto com nossa defesa, devemos levantar nossa crítica e outras organizações "apagadas" (intencionalmente) da fama, que aplicaram políticas mais justas, e tentaram superar o foquismo, o imobilismo de direita e o sindicalismo trotskista. De toda a derrota sofrida na ditadura o que mais devemos aprender é: sem partido e sem teoria revolucioária, a classe, mesmo com quadros armados naquele momento, está desarmada e não conseguirá realizar sua tarefa histórica.

Duas (semi)homenagens a Marighella: um desvio lumpen, um desvio pequeno burguês, ou duas faces da mesma moeda

Se vimos que nem toda reivindicação faz um serviço à nossa memória e à causa, que essa pode servir sim a um deserviço, vamos a dois exemplos práticos, sobre a imagem de Marighella: a música/clipe dos Racionais e a música de Caetano.

Como dito no início do texto, a esquerda cai nos cavalos de tróia do inimigo muitas vezes, pois acata acriticamente o que lhe vem aparentemente como progressista. E realmente caiu nesse caso. Apresentaremos uma breve análise crítica para evidenciar essa afirmação.

Música/Clipe da música dos Racionais:

Letra de Mil faces de um homem leal

A postos para o seu general, Mil faces de um homem leal (2x)/  Protetor das multidões/ Encarnações de célebres malandros/ De cérebros brilhantes/ Reuniram-se no cé/u O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer/ Tô somado, é o que é, assim foi escrito/ Mártir, Mito ou Maldito sonhador/ Bandido da minha cor/ Um novo messias/ Se o povo domina ou não/ Se poucos sabiam ler/ E eu morrer em vão/ Leso e louco sem saber/ Coisas do Brasil, super-herói, mulato/ Defensor dos fracos, assaltante nato(!)/ Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis/ Tramam 30 fariseus contra Moisés, morô/ Reaja ao revés, seja alvo de inveja Irmão,/ esquina de velas pra cima de um rebelde/ Que ousou lutar, honrou a raça/ Honrou a causa que adotou,/ Aplauso é pra poucos/ Revolução no Brasil tem um nome/ Vejam o homem/ Sei que esse era um homem também/ A imagem e o gesto/ Lutar por amor/ Indigesto como o sequestro do embaixador / O resto é flor, se tem festa eu vou/ Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show/ Presta atenção que o sucesso em excesso é cão/ Que se habilita a lutar, fome grita horrível/ A todo ouvido sensível que evita escutar/ Acredita lutar, quanto custa ligar? /Cidade chama vida que esvai/ Clama por socorro, quem ouvirá? /Crianças, velhos e cachorros sem temor /Clara meu eterno amor, sara minhas dores /Pra não dizer que eu não falei das flores / Da Bahia de São Salvador Brasil /Capoeira mata um mata mil, porque /Me fez hábil como um cão /Sábio como um monge/ Antirreflexo de longe/ Homem complexo sim /Confesso que queria /Ver Davi matar Golias /Nos trevos e cancelas /Becos e vielas /Guetos e favelas/ Quero ver você trocar de igual/ Subir os degraus, precipício /Ê vida difícil, ô povo feliz / Quem samba fica, /Quem não samba, camba /Chegou, salve geral da mansão dos bamba /Não se faz revolução sem um fuga na mão /Sem justiça não há paz, é escravidão/ Revolução no Brasil tem um nome/ A postos para o seu general/ Mil faces de um homem leal (2x)  Marighella / Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer /Por mim, por você, por ter coragem em dizer.*

*Em negrito queremos destacar certas aproximações do ideário lumpen. Já o sublinhado quer demonstrar os desvios personalistas.

Percebemos que a música, de sagazes melodia e letra, é uma homenagem a um homem corajoso que ousou lutar contra as injustiças do país e o regime que as sustentava. Tenta mostrar que esse homem brotou da cultura brasileira, era também um homem comum, dividia uma vida em comum. Sua defesa é a defesa de nossa honra.

As imagens que usa diversas vezes são oriundas de um certo misticismo/teologismo (vide as comparações com figuras bíblicas) e também da vida marginalizada do país (chega chamar Marighella de "malandro", assautante nato!). O clipe também faz referências sobretudo ao segundo aspecto. Há cenas que os membros do grupo estão em vielas escuras de favelas, portando armas, em supostas "ações revolucionárias". Eis um duplo desvio ideológico: o personalismo, que desliga Marughella das massas, de sua organização, de seu período histórico, para virar um homem que "faz história" com as próprias mãos, um super-homem; outro, a estetização da pobreza, claramente pequeno-burguês, de identificar na pobreza, na miséria, a força contra o sistema. Para o velho Marx, os Racionais ainda acreditam que são os lázaros do proletariado que são a tropa de choque da revolução, e não elementos de forte propensão reacionária.

Muita confusão para uma criativa homenagem. Mas o deserviço está feito: aqueles conservadores que comparam as expropriações de grupos revolucionários a meros assaltos, a luta política com o crime (e o contrário da mesma moeda, aqueles que acham que o crime é uma "resistência política"), agradecem; aqueles que tentam mostrar que a revolução é um golpe dado por intelectuais e grandes homens que enganam uma população ignorante, também.


Música de Cateano Veloso (e banda Cê):

Letra de Um comunista

Um mulato baiano,/ Muito alto e mulato/ Filho de um italiano/ E de uma preta hauçá/  Foi aprendendo a ler /Olhando mundo à volta /E prestando atenção /No que não estava a vista /Assim nasce um comunista / Um mulato baiano /Que morreu em São Paulo/ Baleado por homens do poder militar/ Nas feições que ganhou em solo americano /A dita guerra fria /Roma, França e Bahia / Os comunistas guardavam sonhos/ Os comunistas! Os comunistas! / O mulato baiano, mini e manual /Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas /Depois por Magalhães /Por fim, pelos milicos /Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas/ Como são os comunistas? / Não que os seus inimigos / Estivessem lutando / Contra as nações terror / Que o comunismo urdia / Mas por vãos interesses/ De poder e dinheiro / Quase sempre por menos/ Quase nunca por mais/  Os comunistas guardavam sonhos / Os comunistas! Os comunistas! / O baiano morreu / Eu estava no exílio / E mandei um recado: "eu que tinha morrido" / E que ele estava vivo, / Mas ninguém entendia / Vida sem utopia Não entendo que exista/ Assim fala um comunista  /Porém, a raça humana /Segue trágica, sempre /Indecodificável /Tédio, horror, maravilha / Ó, mulato baiano /Samba o reverencia /Muito embora não creia/ Em violência e guerrilha /Tédio, horror e maravilha / Calçadões encardidos /Multidões apodrecem /Há um abismo entre homens /E homens, o horror / Quem e como fará /Com que a terra se acenda? /E desate seus nós /Discutindo-se Clara /Iemanjá, Maria, Iara Iansã, /Catijaçara / O mulato baiano já não obedecia /As ordens de interesse que vinham de Moscou / Era luta romântica/ Era luz e era treva /Vento de maravilha, de tédio e de horror / Os comunistas guardavam sonhos /Os comunistas! os comunistas!

*Sublinhado frases "anti-comunistas", negrito apoio tácito e confuso "à causa".

Caetano é um artista dos mais perdidos ideologicamente da história contemporânea do país. Por vezes vem com uma crítica social, um certo anti-conservadorismo. Outras vezes, um anti-comunismo atroz. Essa música só refoça.

A música não vem com a estética feroz dos Racionais. É quase um rock minimalista, um tanto melancólico, nostálgico. Mas a letra também tende a prestar uma homenagem, contar a história, quase literal (e mais completa e contextualizada que na música dos Racionais), das ações de um grande homem. Só que fixa bem esse homem e seus sonhos no passado. Caetano abraça, ceticamente, a "democracia" como verdadeiramente fim da história. Defende Marighella, mas muito mais para se diferenciar dos conservadores, parar gerar polêmica pela polêmica, coisa que sempre gosta de fazer.

No fim da "guerra fria", Caetano lançou uma música com um viés ideológico bem semalhante. "Os outros romanticos" [6] , de 1989, é uma música destinada aos comunistas, que ele chama de românticos, como no caso de Marighella, homens com motivações subjetivas e utópicas que se chocam com a negra natureza humana, imutável, e o mundo muito mais complexo que seus pobres esquemas. O mundo não foi feito para ser mudado, e qualquer afirmação contrária é uma violência, um retorno ao obscurantismo totalitário: eis a tese de fundo. No final da música faz uma referência hegeliana, comparando o marxismo a uma profecia, uma escatologia. Aqui a letra completa:

Eram os outros românticos, no escuro /Cultuavam outra idade média, situada no futuro /Não no passado /Sendo incapazes de acompanhar /A baba Babel de economias/ As mil teorias da economia/ Recitadas na televisão/ Tais irredutíveis ateus /Simularam uma religião /E o espírito era o sexo de Pixote, então/ Na voz de algum cantor de rock alemão /Com o ódio aos que mataram Pixote a mão/ Nutriam a rebeldia e a revolução/  E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil /Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo/ E os primeiros mênstruos /Compunham as visões dos seus vitrais/ E seus apocalipses mais totais /E suas utopias radicais / Anjos sobre Berlim "O mundo desde o fim"/ E no entanto era um SIM /E foi e era e é e será sim.

Mais uma vez, muita confusão. A versão quase lumpen "radicalista" se assemelha com a versão pequeno burguesa desiludida. Duas faces da mesma moeda, dois desvios com origem em comum e final semelhantes.

Críticas exageradas?

De fato é difícil imaginar, em meio a uma correnteza tão forte do hegemônico, uma nova forma de cultura, que não guiadas pelas imagens de ações individuais, mistificadas ou não. Ainda é um caminho longo a ser percorrido, impossível sem mudança das bases sociais. De fato, as homenagens encerram um certo progressismo, é inegável. Um progressismo possível, dentro dessa realidade concreta. Porém, não sem contradições a serem superadas, como tentamos demonstrar aqui.

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[1] http://itaucinemas.com.br/filme/marighella
[2] http://www.youtube.com/watch?v=AOwddBi7u-o
[3] http://www.youtube.com/watch?v=G-OFK14m6s0
[4] http://www.youtube.com/watch?v=otiZAYPP200
[5]http://www.faccamp.br/letramento/2012/1sem/oficina4/consuelo_dieguez_conciliaCAo_de_novo_piaui64.pdf / ou http://www.anovademocracia.com.br/no-96/4259-comissao-da-meia-verdade-se-arrasta-
[6] http://www.youtube.com/watch?v=EVgP4398kdY