Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Progressismo na música: duas (semi)homenagens a Marighlella


Marighella: entre a difamação e a glória deturpada


Quando a hegemania cultural é da reação, como hoje em dia, é comum a esquerda ficar alegre, muitas vezes de maneira totalmente acrítica, com qualquer furo nesse acachapante cenário. Fica alegre e reivindica para si, sem nenhuma ponderação qualquer heróico esforço de se contrapor ao status vigente. Muitos riscos moram por aí.

Nessa virada de ano vivenciamos na mídia e na vida cultural do país um retorno do rosto mais odiado da ditadura: o de Marighella. Não é por menos, final de 2011 representou o centenário do internacionalmente conhecido comunista brasileiro. Foi lançado um filme Isa Grinspum Ferraz [1], sobrinha do revolucionário, narrado pelo grande ator Lázaro Ramos; um livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães [2]; uma música/clipe dos Racionais MC's, Mil faces de um homem leal, presente no filme de Isa [3] e que marca o retorno à ativa do maior grupo de rap da história do país; e uma música, mais recente, do dúbio artista Caetano Veloso, Um comunista, que integra seu mais recente álbum "Abraçaço" [4]. Além de outras atividades culturais e políticas de menor impacto na "opinião pública".

Quem foi Marighella, a quem interssa sua "fama"?

A mobilização popular no período de "redemocratização" do país obrigou constar na história oficial a heróica batalha de lutadores que pegaram em armas para defender seu país. Dentre eles Marighella. Mesmo que esse processo ainda não tenha, nem de longe se completado, só ver a fachada da Comissão de Verdade e Justiça tutelada pelo governo federal [5], ou tenha sido menor e menos expressivo, se comparado a outros países da America Latina que sofreram com as ditaduras fantoches do capital estrangeiro, o fato é que conseguiu-se minar, pelo menos para o povo, a legitimidade do terrorismo de estado daquela época.

O monopólio midiático, as forças armadas e diversos outros setores e aparelhos de Estado e das classes dominantes, obviamente, tentam constantemente difamar essa memória, apagar a verdade ou "relativizá-la" desse período histórico de intensa luta de classes em nosso país e no mundo. Um exemplo é o discurso liberal "anti-totalitarismo" que tenta igualar, de maneira ridícula, a violência dos "terroristas de esquerda" com o terror estatal-militar. Esquecem de ver, por exemplo, a maneira como era tratados os prisioneiros de guerra dos dois lados para ver o quão "igual" foi!

Essa ameaça de difamação é constante, e tem ganhado, infelizmente, força nos últimos anos, junto com a reorganização do setor conservador.

Isso mostra que a luta pela memória é uma disputa contínua, uma das facetas da luta de classes. Por isso é importante defender nossos lutadores de toda e qualquer falácia ou ataque. Independente do viés ideológico e da luta política devemos lembrar que nossos mortos são nossos mortos.

Porém o inimigo também pode fazer seu serviço de maneira indireta, não explicitamente. Essa é a forma mais perigosa de ataque e que mais arrasta incautos.

Marighella, de fato, foi o "inimigo nº 1 da ditadura". Um militante revolucionário extraordinário, experiente, que estava disposto, como mostrou na prática, de dar sua vida pela causa do povo brasileiro e da revolução. Mas será que sua fama, mostrado como paradigma de luta contra a ditadura, de alguma forma indireta, favorece o inimigo?

Como se sabe, Marighella e sua organização ALN, foram fortemente influenciadas pelo foquismo, retirando de maneira errônea lição da experiência cubana e sua importação mecânica. Sua saída do imobilismo do velho PC foi em direção a uma linha política extremamente militarismo, de menosprezo da teoria, da política e das massas. A ALN era uma organização de ação, visava a guerrilha urbana como soma de forças para uma guerrilha rural. As armas controlava a política, e não a política as armas. Um erro fatal.

A falência dessa linha para o proletariado e as classes trabalhadoras ficou clara em nosso país. A repressão cirúrgica do regime extirpou durante anos do país organizações revolucionárias. Eliminou-se os quadros revolucionários, eliminou-se tudo. Isso podemos incluir até mesmo uma experiência que tentou escapar do foquismo, a guerrilha do araguaia, como ficou conhecida, liderada pela reconstrução do PC no nosso país.

"Se for para fortalecer uma linha política revolucionária, que seja a errada, mais confusão e esforços inúteis serão espalhados", "pensa" o inimigo (ou pelo menos, é a lógica de seu ataque ideológico). Por isso, de certa forma, a imagem personalista de Marighella e de sua linha política incorreta são um deserviço ao verdadeiro balanço que os revolucionários devem fazer de sua luta histórica e nacional. Isso, fique claro, de forma alguma retira a importância de Marighella, sua luta, sua organização. Como dito, estão do nosso lado, e devemos defendê-la. Porém, também não podemos dispensar a auto-crítica e cair na armadilha ingênua da reação fantasiada. Junto com nossa defesa, devemos levantar nossa crítica e outras organizações "apagadas" (intencionalmente) da fama, que aplicaram políticas mais justas, e tentaram superar o foquismo, o imobilismo de direita e o sindicalismo trotskista. De toda a derrota sofrida na ditadura o que mais devemos aprender é: sem partido e sem teoria revolucioária, a classe, mesmo com quadros armados naquele momento, está desarmada e não conseguirá realizar sua tarefa histórica.

Duas (semi)homenagens a Marighella: um desvio lumpen, um desvio pequeno burguês, ou duas faces da mesma moeda

Se vimos que nem toda reivindicação faz um serviço à nossa memória e à causa, que essa pode servir sim a um deserviço, vamos a dois exemplos práticos, sobre a imagem de Marighella: a música/clipe dos Racionais e a música de Caetano.

Como dito no início do texto, a esquerda cai nos cavalos de tróia do inimigo muitas vezes, pois acata acriticamente o que lhe vem aparentemente como progressista. E realmente caiu nesse caso. Apresentaremos uma breve análise crítica para evidenciar essa afirmação.

Música/Clipe da música dos Racionais:

Letra de Mil faces de um homem leal

A postos para o seu general, Mil faces de um homem leal (2x)/  Protetor das multidões/ Encarnações de célebres malandros/ De cérebros brilhantes/ Reuniram-se no cé/u O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer/ Tô somado, é o que é, assim foi escrito/ Mártir, Mito ou Maldito sonhador/ Bandido da minha cor/ Um novo messias/ Se o povo domina ou não/ Se poucos sabiam ler/ E eu morrer em vão/ Leso e louco sem saber/ Coisas do Brasil, super-herói, mulato/ Defensor dos fracos, assaltante nato(!)/ Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis/ Tramam 30 fariseus contra Moisés, morô/ Reaja ao revés, seja alvo de inveja Irmão,/ esquina de velas pra cima de um rebelde/ Que ousou lutar, honrou a raça/ Honrou a causa que adotou,/ Aplauso é pra poucos/ Revolução no Brasil tem um nome/ Vejam o homem/ Sei que esse era um homem também/ A imagem e o gesto/ Lutar por amor/ Indigesto como o sequestro do embaixador / O resto é flor, se tem festa eu vou/ Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show/ Presta atenção que o sucesso em excesso é cão/ Que se habilita a lutar, fome grita horrível/ A todo ouvido sensível que evita escutar/ Acredita lutar, quanto custa ligar? /Cidade chama vida que esvai/ Clama por socorro, quem ouvirá? /Crianças, velhos e cachorros sem temor /Clara meu eterno amor, sara minhas dores /Pra não dizer que eu não falei das flores / Da Bahia de São Salvador Brasil /Capoeira mata um mata mil, porque /Me fez hábil como um cão /Sábio como um monge/ Antirreflexo de longe/ Homem complexo sim /Confesso que queria /Ver Davi matar Golias /Nos trevos e cancelas /Becos e vielas /Guetos e favelas/ Quero ver você trocar de igual/ Subir os degraus, precipício /Ê vida difícil, ô povo feliz / Quem samba fica, /Quem não samba, camba /Chegou, salve geral da mansão dos bamba /Não se faz revolução sem um fuga na mão /Sem justiça não há paz, é escravidão/ Revolução no Brasil tem um nome/ A postos para o seu general/ Mil faces de um homem leal (2x)  Marighella / Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer /Por mim, por você, por ter coragem em dizer.*

*Em negrito queremos destacar certas aproximações do ideário lumpen. Já o sublinhado quer demonstrar os desvios personalistas.

Percebemos que a música, de sagazes melodia e letra, é uma homenagem a um homem corajoso que ousou lutar contra as injustiças do país e o regime que as sustentava. Tenta mostrar que esse homem brotou da cultura brasileira, era também um homem comum, dividia uma vida em comum. Sua defesa é a defesa de nossa honra.

As imagens que usa diversas vezes são oriundas de um certo misticismo/teologismo (vide as comparações com figuras bíblicas) e também da vida marginalizada do país (chega chamar Marighella de "malandro", assautante nato!). O clipe também faz referências sobretudo ao segundo aspecto. Há cenas que os membros do grupo estão em vielas escuras de favelas, portando armas, em supostas "ações revolucionárias". Eis um duplo desvio ideológico: o personalismo, que desliga Marughella das massas, de sua organização, de seu período histórico, para virar um homem que "faz história" com as próprias mãos, um super-homem; outro, a estetização da pobreza, claramente pequeno-burguês, de identificar na pobreza, na miséria, a força contra o sistema. Para o velho Marx, os Racionais ainda acreditam que são os lázaros do proletariado que são a tropa de choque da revolução, e não elementos de forte propensão reacionária.

Muita confusão para uma criativa homenagem. Mas o deserviço está feito: aqueles conservadores que comparam as expropriações de grupos revolucionários a meros assaltos, a luta política com o crime (e o contrário da mesma moeda, aqueles que acham que o crime é uma "resistência política"), agradecem; aqueles que tentam mostrar que a revolução é um golpe dado por intelectuais e grandes homens que enganam uma população ignorante, também.


Música de Cateano Veloso (e banda Cê):

Letra de Um comunista

Um mulato baiano,/ Muito alto e mulato/ Filho de um italiano/ E de uma preta hauçá/  Foi aprendendo a ler /Olhando mundo à volta /E prestando atenção /No que não estava a vista /Assim nasce um comunista / Um mulato baiano /Que morreu em São Paulo/ Baleado por homens do poder militar/ Nas feições que ganhou em solo americano /A dita guerra fria /Roma, França e Bahia / Os comunistas guardavam sonhos/ Os comunistas! Os comunistas! / O mulato baiano, mini e manual /Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas /Depois por Magalhães /Por fim, pelos milicos /Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas/ Como são os comunistas? / Não que os seus inimigos / Estivessem lutando / Contra as nações terror / Que o comunismo urdia / Mas por vãos interesses/ De poder e dinheiro / Quase sempre por menos/ Quase nunca por mais/  Os comunistas guardavam sonhos / Os comunistas! Os comunistas! / O baiano morreu / Eu estava no exílio / E mandei um recado: "eu que tinha morrido" / E que ele estava vivo, / Mas ninguém entendia / Vida sem utopia Não entendo que exista/ Assim fala um comunista  /Porém, a raça humana /Segue trágica, sempre /Indecodificável /Tédio, horror, maravilha / Ó, mulato baiano /Samba o reverencia /Muito embora não creia/ Em violência e guerrilha /Tédio, horror e maravilha / Calçadões encardidos /Multidões apodrecem /Há um abismo entre homens /E homens, o horror / Quem e como fará /Com que a terra se acenda? /E desate seus nós /Discutindo-se Clara /Iemanjá, Maria, Iara Iansã, /Catijaçara / O mulato baiano já não obedecia /As ordens de interesse que vinham de Moscou / Era luta romântica/ Era luz e era treva /Vento de maravilha, de tédio e de horror / Os comunistas guardavam sonhos /Os comunistas! os comunistas!

*Sublinhado frases "anti-comunistas", negrito apoio tácito e confuso "à causa".

Caetano é um artista dos mais perdidos ideologicamente da história contemporânea do país. Por vezes vem com uma crítica social, um certo anti-conservadorismo. Outras vezes, um anti-comunismo atroz. Essa música só refoça.

A música não vem com a estética feroz dos Racionais. É quase um rock minimalista, um tanto melancólico, nostálgico. Mas a letra também tende a prestar uma homenagem, contar a história, quase literal (e mais completa e contextualizada que na música dos Racionais), das ações de um grande homem. Só que fixa bem esse homem e seus sonhos no passado. Caetano abraça, ceticamente, a "democracia" como verdadeiramente fim da história. Defende Marighella, mas muito mais para se diferenciar dos conservadores, parar gerar polêmica pela polêmica, coisa que sempre gosta de fazer.

No fim da "guerra fria", Caetano lançou uma música com um viés ideológico bem semalhante. "Os outros romanticos" [6] , de 1989, é uma música destinada aos comunistas, que ele chama de românticos, como no caso de Marighella, homens com motivações subjetivas e utópicas que se chocam com a negra natureza humana, imutável, e o mundo muito mais complexo que seus pobres esquemas. O mundo não foi feito para ser mudado, e qualquer afirmação contrária é uma violência, um retorno ao obscurantismo totalitário: eis a tese de fundo. No final da música faz uma referência hegeliana, comparando o marxismo a uma profecia, uma escatologia. Aqui a letra completa:

Eram os outros românticos, no escuro /Cultuavam outra idade média, situada no futuro /Não no passado /Sendo incapazes de acompanhar /A baba Babel de economias/ As mil teorias da economia/ Recitadas na televisão/ Tais irredutíveis ateus /Simularam uma religião /E o espírito era o sexo de Pixote, então/ Na voz de algum cantor de rock alemão /Com o ódio aos que mataram Pixote a mão/ Nutriam a rebeldia e a revolução/  E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil /Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo/ E os primeiros mênstruos /Compunham as visões dos seus vitrais/ E seus apocalipses mais totais /E suas utopias radicais / Anjos sobre Berlim "O mundo desde o fim"/ E no entanto era um SIM /E foi e era e é e será sim.

Mais uma vez, muita confusão. A versão quase lumpen "radicalista" se assemelha com a versão pequeno burguesa desiludida. Duas faces da mesma moeda, dois desvios com origem em comum e final semelhantes.

Críticas exageradas?

De fato é difícil imaginar, em meio a uma correnteza tão forte do hegemônico, uma nova forma de cultura, que não guiadas pelas imagens de ações individuais, mistificadas ou não. Ainda é um caminho longo a ser percorrido, impossível sem mudança das bases sociais. De fato, as homenagens encerram um certo progressismo, é inegável. Um progressismo possível, dentro dessa realidade concreta. Porém, não sem contradições a serem superadas, como tentamos demonstrar aqui.

-----------------------------------
[1] http://itaucinemas.com.br/filme/marighella
[2] http://www.youtube.com/watch?v=AOwddBi7u-o
[3] http://www.youtube.com/watch?v=G-OFK14m6s0
[4] http://www.youtube.com/watch?v=otiZAYPP200
[5]http://www.faccamp.br/letramento/2012/1sem/oficina4/consuelo_dieguez_conciliaCAo_de_novo_piaui64.pdf / ou http://www.anovademocracia.com.br/no-96/4259-comissao-da-meia-verdade-se-arrasta-
[6] http://www.youtube.com/watch?v=EVgP4398kdY

terça-feira, 24 de julho de 2012

"A existência é um escândalo": os erros do filme Cronicamente inviável (2000), de Sérgio Bianchi

 [Augusto Machado]

Sérgio Bianchi é um cineasta brasileiro que nas últimas décadas ganhou destaque e prêmios por seus filmes e temáticas “polêmicas”. O artista se debruça sobre nossa nação, sociedade e cultura brasileira com acidez e por vezes brutalidade pouco vistas.

Seu filme de 2000, Cronicamente Inviável, Bianchi tenta descrever e analisar a decadência da identidade e vida nacional. É um filme desconfortante: recortando pedaços sociais do Brasil de hoje, da miséria do povo à corrupção do dia-a-dia, da hipocrisia e mediocridade ao jeitinho brasileiro trambiqueiro, da cordialidade à violência caótica, o cineasta nos apresenta um verdadeiro teatro dos horrores (muito antigo por sinal) da vida privada e pública na sociedade brasileira, onde não escapa nenhuma classe ou região. Seja o baiano pobre ou o carioca do centro, seja o sulista trabalhador ou da elite: todos estão no mesmo barco pobre que é nossa nação, história e gente. Nossa cultura é um amontoado irracional: cronicamente inviável.

Seríamos um projeto de nação e de povo que deu errado? Há um culpado maior? Seríamos todos nós? Estaríamos para sempre presos nesse enredo? Essas são as perguntas colocadas pelo autor, implicitamente, durante o decorrer do roteiro. A resposta é sempre pessimista, com um ar de irracionalismo. Em várias cenas, a violência, física ou simbólica, presentes em todas as esferas da vida carioca, regadas cinicamente ao som da bossa nova de Tom Jobim é um exemplo de como o artista pretende expor a contradição quase insolúvel de nossa realidade nacional caótica. No fundo parece mesmo que fomos determinados, ou pela nossa trágica história, ou pelo cínico acaso da existência, ou pela natureza humana ou étnico-racial, à mais simples e brutal barbárie sem fim.

Essa forma de colocar à questão na realidade retrata as contradições ideológicas das “classes médias” (Sergio Bianchi é um artista de setor urbano da região sul-sudeste formado na USP) em busca de um engajamento político, através da arte, que busca resolver ou pelo menos expor os “problemas sociais” que percebem em seus cotidianos.

Diante o caos da sociedade brasileira e a ausência de uma classe organizada politicamente com força social capaz de levar a cabo a tarefa histórica de resolução de problemas que há séculos se arrastam, um sujeito da camada média urbana, ideologicamente, tende a cair num profundo dilema com fortes tendências moralistas e existenciais. E esse dilema só pode ter soluções extremamente dramáticas e esteriotipadas. Podemos ver isso no filme, que nada mais faz que retratar uma interpretação dita científica do povo brasileiro: a do famoso “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. Parece que a versão subjetivista weberiana de tipos ideais para explicar o “caso brasileiro”, é a que mais agrada essas camadas sociais.

Esse doloroso dilema é encarnado pelo alter ego do cineasta, um personagem velho que viaja pelo Brasil como um espectador do absurdo relatando o a vida nacional com asco, e é de fato a voz do roteirista do filme. A leitura que este personagem faz da realidade que vê tem fortes traços fatalistas.

Já que, aos olhos do artista, fomos condenados pelo Destino, como um personagem kafkiano, a vagar por este inferno com risco de, de repente, ter uma morte sem sentido e brutal, existiria alguma solução para pelo menos amenizar esse fado? Para nos dar uma "solução", então o autor parece se projetar no personagem imigrante de sangue polonês, trabalhador, que depois de sofrer muitas injustiças e ver o podre da hipocrisia da classe média filantrópica, bem intencionada e hipócrita, vê na defesa, pelo menos verbal, do terrorismo como solução. Solução, niilista, diga-se de passagem, tipicamente pequeno-burguesa: diante do estranhamento no mundo social devastado, entendido como karma existencial, a crítica moral mais contundente é o terrorismo individual, com estética messiânica.

Fica claro que as críticas progressistas que a obra tenta realizar, como o extermínio indígena que fez surgir a farsa burguesa de unidade nacional harmônica, a violência policial de um lado, e a hipocrisia das elites ou subelites de outro, frente à miséria do povo, entre outras, não escapam do viés fatalista, sem esperanças no povo ou na história. Bianchi se torna uma metralhadora que atira em todos, sem perdão, ou pelo menos, nos esteriótipos das classes e populações regionais frutos de uma observação individual e parcial do artista, possivelmente feita dentro de seu carro com ar-condicionado e vidro fumê. Questões importantes colocadas pelo filme como: como nossa formação e configuração cultural e ideológica impactam na nossa história e nossa atuação e escolhas políticas? Qual são as características culturais das classes sociais brasileiras, suas contradições e possibilidades? Entre outras, são escurecidas desde o início pelo fatalismo irracional e estereotipado do artista. A arte aqui serve mais para a expressão pura e simples da angústia do artista que para uma busca concreta e coletiva de uma práxis transformadora das contradições que nos rodeiam.

Terminando de ver o filme, não há dúvidas: do fracasso nacional, culpado somos todos, logo o culpado maior não há; somos todos vítimas, e ao mesmo tempo cúmplices. Nossa história é uma tragédia, onde não cabem explicações sócio-históricas como colonialismo, imperialismo... Está mais para condição ontológica do que condição histórica. Por isso precisamos nos mutilar moralmente, atacar nossa hipocrisia e nossa má sorte, radicalizando às vezes, mas sem muita esperança.

Bem, são poucos que podem ter este deleite martirizante que não deixa de ser egocêntrico. Àqueles que a realidade não os deixam respirar e os chamam a agir, não há tempo para crônicas quietistas. "A existência é um escândalo" nos dizia o jovem Sartre, e também parece nos dizer Bianchi, só que se referindo a existência brasileira. Só nos resta pensar se isso é uma dor agradável para aqueles que podem fugir dela numa férias em NY ou em Paris.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

João do Vale: o poeta do povo

 Meu samba é a voz do povo
Se alguém gostou
Eu posso cantar de novo
João do Vale





Indicamos o documentário 'João do Vale - Muita gente desconhece' (2005), disponível aqui: http://www.portacurtas.org.br/filme/default.aspx?name=joao_do_vale_muita_gente_desconhece.

Como o próprio subtítulo nos diz, João do Vale é uma dessas pérolas da cultura popular pouco conhecidas e divulgadas. Apesar de ter sido um artista que trabalhou com gente famosa, como Nara Leão, Chico Buarque e outros nomes da arte popular brasileira, entre as décadas de 60 e 80, seu nome e imagem são quase apagados: João parece ser um gênio por trás das cortinas, artista cantado por outros.

Sem dúvida a cultura burguesa e imperialista tem pouco interesse em propagandear um criativo filho do povo brasileiro, mais propriamento nordestino, maranhense. Negro e filho de família trabalhadora, cresceu sem estudos na míseria de São Luís dos anos 30 e 40. Vivendo uma vida de labuta, superou as dificuldades e encontrou na arte a forma de se expressar e expressar as condições de vida do seu povo. Tanto o próprio João quanto sua arte são comprometidas com a a vida e a causa do povo brasileiro.

Sua arte e poesia é marcada por uma pureza sem igual, talvez encontrada em outros compositores como Caymmi (Bahia) e Luiz Gonzaga (Pernambuco); uma simplicidade nos verbos e arranjos, que, entretando, alcançam força e significados grandiosos. Suas temáticas sociais e políticas são armas contra a exploração e opressão vivida pelo povo, e ao mesmo tempo, uma louvação ao modo de viver e à cultura popular. O ápice de sua carreira talvez seja a participação no famoso Teatro Opinião, alvo de ataques terroristas fascistas durante a ditadura, que tinha como proposta utilizar a arte como forma de protesto e resistência popular, sob as coordenadas do finado CPC. 

Que a arte engajada e popular de João do Vale, e seu exemplo de vida, sobreviva e ainda possa inspirar as novas gerações.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Maranhão 66: Discurso de posse de Sarney e coronelismo

Documentário de Glauber Rocha no link seguinte. 1966, Maranhão, miséria popular: cenário perfeito para o jogo eleitoral das classes dominantes. Sarney sobe ao poder através de eleições diretas para governador no Maranhão, fenômeno que ocorreu em 11 estados aquele ano.

http://www.vidoevo.com/yvideo.php?i=dDBKSlBGcWuRpcnVoQUE&maranho-66

"O coronelismo é um fenômeno político do passado, ou pode se reproduzir no futuro? Em qualquer caso, sua vitalidade depende, de um lado, da persistência de relações de produção pré-capitalistas no campo [relações de dominação e dependência pessoal]; de outro, do significado das instituições democráticas representativas para as classes trabalhadoras e da importância do processo eleitoral como lugar de resolução das disputas internas ao bloco no poder." Décio Saes, Estudios Rurales Latinoamericanos, vol. 1, nº 3, 1978.

Hoje fala-se ainda de coronelismo brasileiro, mas de novo tipo, envolvendo o controle dos meios de comunicação. Podemos ver uma análise desse fenômeno nesse trabalho recente do observatório da imprensa: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/download/Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf


segunda-feira, 5 de março de 2012

Crise do capital espectral, crise do capitalismo: análise do filme Inside Job e reflexões sobre o papel do indivíduo na história e a atual crise

[Augusto Machado]




(Bolsa de NY, cena do documentário Inside Job [2010, USA])



Ao ver um filme, e aqui se falará do recente inside job, ou qualquer meio informativo mais aprofundado sobre as grandes instituições, organismos e corporações que estão no comando do capitalismo contemporâneo, não nos resta dúvidas: vivemos sob diversas ditaduras. Seria essa afirmação uma piada de mau gosto de alguém que não sabe diferenciar o menos pior e reduz e iguala tudo ao nível do apocalíptico? Expliquemos melhor: o que a ideologia burguesa nos ensina sobre o termo "ditadura" se refere ao restrito âmbito político-estatal - ditadura é aquilo que foge aos parâmetros do capitalismo parlamentarista com suas eleições democráticas regulares de sufrágio universal. Porém, o que o pensamento marxista se esforça em identificar e caracterizar é como, por trás de um regime político aparente e legalmente não despótico, se reproduz a dominação, a exploração, a opressão, por vezes de maneira mais engenhosa, criativa e ampla do que um simples fortalecimento dos aparelhos repressivos do status de uma sociedade ou nação. A ditadura, nesse sentido, não é um marco formal jurídico, mas um determinado conglomerado de relações sociais, historicamente situadas, onde se manifesta e se alastra o poder, no caso, de classe. Essas relações ditatoriais se dão e emanam sobretudo nas relações econômicas, sob as quais se erguem todo o constructo da sobrevivência humana em coletividade.

Vivemos sob diversas ditaduras, e aqui nos interessa a ditadura do capital. O capital - uma coisa-produto, o dinheiro vivo? (Então viveríamos sobre uma sociedade global fetichizada?) Um jogo consciente dos poderosos? (Então viveríamos sob uma ditadura com rostos específicos que agem voluntariamente?) Para responder tais perguntas, de maneira alguma categoricamente nesse curto e parco espaço, precisamos nos debruçar um pouco sobre o fenômeno da dominação (de classe) no capitalismo, se esta pressupõe um sujeito, e o que significa isso, para então refletir sobre os aspectos infraestruturais, políticos e ideológicos atuantes ou não na história.

Em Marx podemos encontrar a definição dos capitalistas, ou dos "proprietários", como "instrumentos da acumulação, funcionários do capital":

Para evitar possíveis erros de entedimento, ainda uma palavra. Não pinto, de modo algum, as figuras do capitalista e do proprietário fundiário com cores róseas. Mas aqui só se trata de pessoas à medida que são personificações de categorias econômicas, portadoras de determinadas relações de classe e interesses. Menos do que qualquer outro, o meu ponto de vista, que enfoca o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode tornar o indivíduo responsável por relações das quais ele é, socialmente, uma criatura, poir mais que ele queira colocar-se subjetivamente acima delas. (Marx no prefácio da primeira edição d'O Capital)
Sob o nível teórico devemos ver tais indivíduos, os capitalistas, como portadores de relações que alimentariam um modo de produção, no caso o capitalismo. Como diz Balibar(Ler o Capital v. 2, 1980, p. 190), "as classes não são o sujeito deste mecanismo [de distribuição dos meios de produção num quadro social, ou podemos dizer, da divisão do trabalho], mas o seu suporte, e as características concretas dessas classes, seus efeitos". O fator objetivo, e mais especificamente institucional, aqui aparece como preponderante. O capitalista, "empiricamente", é privilegiado nesse modo de produção, é proprietário dos meios de produção, que se automatizam cada vez mais, e do trabalho, controlando assim o processo de produção (apropriação da natureza) e valorização (exploração/expropriação dos produtores diretos); busca o lucro e a disciplina dos assalariados; porém não é o deus por trás da máquina: pelo contrário é o seu servo. Mas tal fetichização seria de caráter hegeliano/idealista, que prevê escatologicamente a plena consciência de si do sujeito após um período de alienação? Ao nosso entender o marxismo não precisa de tal filosofia da história, de uma teleologia. A fetichização aqui se forma não por haver algo que escape da totalidade que um sujeito deve abarcar, que no final das contas o controla, mas sim porque essa esfera objetiva trabalha no desgaste de tais suportes, que são as classes, no caso a classe trabalhadora, que exerce a função de força de trabalho no capitalismo, e também das forças produtivas, ententida como relação social com a técnica/tecnologia, em benefício da manutenção do sistema do capital e de seus imperativos.

O que significa de maneira mais precisa esse desgaste? Esse termo tenta escapar da noção de retorno idílico a uma completude de um sujeito anterior à "alienação". Nesse sentido, a luta contra a sociedade capitalista não é contra a sua "fetichização/alienação" no sentido abstrato, que envolve um espírito/práxis "humana", normalmente individual. O socialismo não é uma religação a um período pré-moderno: pelo contrário, prevê sua superação. Vemos em Marx (Capital, Livro 1, v. 1)que : "Todo o trabalho diretamente social ou coletivo, executado em grande escala, exige, com maior ou menor intensidade, uma direção que harmonize as atividades individuais e preencha as funções gerais ligadas ao movimento de todo organismo reprodutivo, que difere do movimento de seus órgãos isoladamente considerados. Um violinista isolado comanda a si mesmo, uma orquestra exige um maestro. Essa função de dirigir, superintender e mediar assume-a o capital [no capitalismo], logo que o trabalho a ele subordinado se torna cooperativo."

Isso quer dizer que a crítica do marxismo não deve se voltar à toda e qualquer forma de divisão do trabalho, reivindicando um igualitarismo de sujeitos "conscientes de si". A questão central é que sob o capital, toda forma de processo de trabalho está subordinada a fins desvinculados dos interesses dos produtores diretos, subordinando-os a relações de exploração de classe. E a crítica deve se limitar a isso e vislumbrar uma sociedade sem classes, sem a atual forma extremada de divisão social do trabalho (o que não significa "super-Sujeitos" totais e hegelianos).

Com tal perspectiva escapamos de um risco pesado e muito presente na esquerda de todos os tempos: o subjetivismo e o voluntarismo, que geram uma visão moralista na política. Muitas construções sobre o conceito de ideologia se embasam nesses desvios: elas sempre pressupõem conceitos como consciência, alienação, sujeitos etc. Ora a ideologia não é exatamente a capacidade de, através de um inconsciente das estruturas sociais, práticas e concepções se reproduzirem sem que sujeitos a formulem maquiavelicamente (mesmo havendo instituições, think tanks responsáveis pelas sistematizações diversas no âmbito cultural, científico etc.)? Por outro lado isso não quer dizer, por exemplo, que o diretor do FMI não sabe seu papel e o que deve fazer, mas, como dito acima, este servindo de suporte, há uma sutil consciência, desejo, planejamento. Porém todo esse "voluntário" processo empiricamente constatável em alguns exemplos "concretos", no sentido feurbachiano, é permitido somente por condições e espaços objetivos e não deve se figurar como um fator determinante para uma teoria que tente abarcar as formações sociais. Se tal teoria fosse uma teoria dos/sobre os homens cairia ou na metafísica ideológica das diversas filosofias burguesas (buscando uma natureza humana, por exemplo) ou no empirismo positivista das ciências burguesas (que nega o papel da abstração e da teoria). Balibar comenta a necessidade de se pensar a prática e produção/reprodução/transformação dentro das formações sociais sem cair em formulações antropológicas (idealistas): "[...] a necessidade constringente das relações de produção só aparece então como uma forma que possuiria já o objeto de sua atividade, e que limita as possibilidades de criar uma forma nova" (p. 233). Isso seria caminhar para um materialismo (estruturalista? achamos que não: o estruturalismo provém, apesar de atacar corretamente o subjetivismo histórico e epistemológico, de uma noção de contradição simples e universal, diferente das contradições complexas entre estruturas presentes no materialismo histórico, como demonstrou Althusser).

Esqueçamos de uma síntese do que já foi posto ou de uma tese final: não há espaço nem condições, nem este é o objetivo. Para finalizar é preciso enfatizar que na história o jogo de forças das estruturas sociais estabelecem quais fatores possuem mais peso em determinadas conjunturas, não podendo haver universalizações vazias. Mas não nos enganemos: esses momentos possuem pés no âmbito objetivo, na materialidade determinante mas nem sempre dominante. Como dizia Mao, em Sobre a contradição, o subjetivo pode se tornar dominante em momentos da história. Uma visão paralisante seria tudo, menos dialético.

Toda essa reflexão sobre o materialismo histórico, e qual o papel do sujeito e do subjetivo na história e no capitalismo segundo essa teoria, é no sentido de embasar a análise crítica sobre o filme inside job, filme premiado e que representa, em grande parte, um discurso comum à social democracia, aos reformistas, e até mesmo fundamentalistas de todo o tipo sobre o atual período que vivemos. Qual discurso é esse? É o que se perde moralmente no empírico dos magnatas que se fartam de prostituição, drogas, corrupção e luxo; no empírico (paradoxalmente, por demais fictício) também do capital financeiro, como o grande vilão das pertubações nos países centrais e desmantelamento dos estado de bem estar social, sem o qual não haveria crises nem efeitos econômicos e sociais negativos. O sobrepeso que se coloca nos indivíduos concretos, nos sujeitos do sistema, que deliberadamente formulam no alto de seus gabinetes as preferências do capital, no filme, é que serve de base para o discurso ideológico e que na prática se torna reformista (já que a solução também está no âmbito subjetivo e não tão estrutural, no próprio regime de expansão-acumulação do capital: mudança de pessoal, de preferência, de valores etc.).

As informações sobre o crack de 2008 que o filme traz são bem organizadas e expostas, ainda mais para um público leigo; conhecer quem são os poderosos executivos por trás de tudo aquilo pegos em saias justas também atrai o espectador e torna um assunto para alguns massante num espetáculo a la reality show. Sendo uma mega produção, de grande visibilidade, pode-se identificar um viés progressista na obra e na sua circulação. Entretanto, é preciso cuidado, e salientar o dever dos marxistas frente a tal fenômeno: apontar suas limitações e consequências. Senão far-se-á apologia reformista e utópica de um capitalismo global de face humana, como se as crises, a tendência a monopolização e o crescimento do setor financeiro não fossem partes constituintes e tendências gerais do capital, sendo possível extirpá-las de maneira completa e permanente e sem uma revolução que ponha em cheque a propriedade privada dos meios de produção e os estados capitalistas.

Abaixo disponibilizamos, complementarmente, trechos de um texto de Chesnais de 1998 que visam esclarecer um pouco mais a fundo a quanto anda o capitalismo pós-desregulamentação dos quais somos frutos e vítimas, esse mundo "sem alternativas" que se fortaleceu depois do desastre do socialismo do século XX e início do massacre do capital sem rivais à altura, e mesmo assim onde Lenin e Marx são mais atuais que nunca.

A GLOBALIZAÇÃO DO CAPITAL E AS CAUSAS DAS AMEAÇAS DA BARBÁRIE in: O livro negro do capitalismo, Record: 2000.

[...] A liberdade que o capital, industrial e financeiro, encontra para se espalhar mundialmente como nunca tinha podido fazer desde 1914 tem sua origem na força que recuperou durante a longa fase de acumulação ininterrupta dos "trinta anos gloriosos" (uma, senão a mais longa de todas as histórias do capitalismo). No entanto, o capital não teria nunca conseguido alcançar seus objetivos sem o sucesso da "revolução conservadora" do fim da década de 1970. O triunfo do "mercado" não poderia ter sido atingido sem as repetidas intervenções das instâncias políticas dos Estados capitalistas mais poderosos, apoiados pelas organizações capitalistas internacionais mais importantes, o FMI e o Gatt/OMC em primeiro lugar. Estas intervenções tiveram início muito antes de 1989 ou 1991. Elas começam dez anos antes, na virada dos anos 1970-1980. É este momento em que as forças políticas mais antioperariado dos países da OCDE iniciaram o processo de liberalização, de desregulamentação e de privatização. Mas o caminho foi amplamente preparado. Os políticos antioperariado nunca teriam conseguido levar adiante seus objetivos se a contra-revolução brejneviana não tivesse esmagado previamente a primavera de Praga, assim como o movimento do proletariado polonês do mesmo período; se as direções dos partidos comunistas da França e da Itália, especialmente, não tivessem interferido de 1968 a 1978 para conter e repelir o potencial verdadeiramente democrático e consequentemente anticapitalista dos grandes movimentos sociais - operários e estudantis - que apareceram um pouco por todo o mundo na década de 1968-78 na Europa, bem como nos Estados Unidos e na América Latina.

Por outro lado, a atual vitória do capitalismo é tão completa que mesmo entre aqueles que combatiam os seus efeitos há muitas pessoas que já não utilizam o termo. Chamam de "neoliberalismo" e não tem contra ele mais do que a esperança, quimérica, julgo, de um retorno às formais mais humanas da sociedade capitalista. Alguns ficariam supreendidos, senão chocados, se lhes dissessem que ao recuarem perante a palavra "capitalismo" estão dando apoio a todos aqueles que afirmam - confiantes no balanço desolador do "socialismo real" que o desmoronamento da URSS acabou de revelar - que "a vitória da democracia e do mercado" assinala "o fim da história" ou ainda "o horizonte inultrapassável" das variantes de organização política e social fundadas sobre a propriedade privada dos meios de produção.

[...]

A atualidade da noção de parasitismo

O título do capítulo VIII de O Imperialismo, estágio supremo do capitalismo, "O parasitismo e a putrefação do capitalismo", sempre incomodou muito os teóricos dos partidos comunistas ocidentais. Isto era verdade no passado. Na época, a "coexistência pacífica" com o capitalismo, bem como as suas diferentes metamorfoses, dificilmente podia basear-se apenas na defesa da "pátria socialista". Mesmo dominado pelo "imperialismo americano", era preciso que o sistema com o qual a coexistência estava proibida tivesse qualquer coisa, por muito pouco que fosse, de "positivo"; que parecesse ainda suscetível de oferecer à classe operária e às suas camdas sociais aliadas algumas perspectivas de melhoria das suas condições materiais e morais de existência.O caráter "perturbador" da análise de Lenin é ainda hoje mais evidente no que diz respeito ao que resta destes partidos. No entanto, o segmento histórico correspondente àquilo que se chama de "globalização" ou ainda a "globalização do capital" é certamente aquele em que um conjunto de tendências analisadas por Lenin com a ajuda de Hobson se reafirmou numa escala ainda mais gigantesca do que na véspera da Primeira Guerra Mundial.

Durante algum tempo, nos anos 1950 e 1960, o capital industrial - aquele que Marx afirma, no capítulo I do Livro II de O capital, ser "o único modo de existência do capital onde a sua função não consiste apenas em apropriação, mas também em criação de mais-valia, dito de outra forma, de sobreproduto" - pareceu dominar de novo as economias capitalistas avançadas. A "classe dos rendeiros, isto é, das pessoas que vivem do 'corte dos coupons, pessoas que fazem da ociosidade profissão" (Lenin, Capítulo VII), parecia ter desaparecido e ter apenas uma existência teórica. Do mesmo modo, colocada sob a égide de grupos industriais (as sociedades multinacionais), a dominação imperialista sobre os países neocoloniais ou "dependentes" parecia progredir muito pouco, pois era acompanhada da ampliação das relações de produção capitalistas e da formação de uma classe operária autóctone. O capitalismo não parecia conseguir se definir de forma lapidar como uma "imensa acumulação de capital-dinheiro num pequeno número de países", a saber, os países identoficáveis como "Estados rendeiros". A produção parecia sobrepor-se à apropriação; a indústria , à finança; o lucro (largamente investido; à renda financeira. Largamente centrado na existência da figura do rendeiro, o capítulo VIII da obra de Lenin estava entre aqueles pelos quais era possível passar muito depressa.

Hoje, deste ponto de vista, as coisas são ainda piores: evidentemente não há alinhamento possível numa social-democracia ela própria transformada em social liberal, se não ignorarmos a análise de Lenin, com risco de dizermos que ela era válida no passado, mas não o seria hoje. Infelizmente não é o caso. Neste século XX, a sociedade mundial encontra-se de novo sob o controle férreo de um capitalismo dominado por contratos de rendimentos, um capitalismo cuja avidez e ferocidade são tanto mais fortes quanto ele é parasitário. ésimultaneamente no sentido de Lenin, isto é, organiado em torno de instituições (os mercados financeiros) e de Estados (os Estados Unidos e o Reino Unido em primeiro lugar), cuja única característica possível é a de rendeiro, e no de Marx, ou seja, marcado por formas de acumulação que estão mais voltadas para a apropriação do que para acriação de mais-valia. Um pouco mais à frente, no mesmo capítulo do livro II, Marx escreve de fato qualquer coisa cujo alcance passou praticamente despercebido até hoje: "É porque o aspecto dinheiro do valor é a sua forma independente e tangível que a forma A...A', cujo ponto de partida e de chegada são o dinheiro real, exprime da forma mais tangível a idéia de fazer 'fazer dinheiro', principal motor da produção capitalista. O processo de produção capitalista aparece apenas como um intermediário inevitável, um mal necessário para fazer dinheiro. É por isso que todas as nações dedicadas ao modo de produção capitalista são periodicamente apanhadas de vertigem de querer fazer dinheiro sem o intermediário do processo de produção." Hoje, os grandes Estados capitalistas fizeram mais do que ceder a esta vertigem. Colocando os "mercados" no comando, colocaram a economia mundial, tanto a dos seus próprios países como a do globo inteiro, nas mãos de pessoas cuja visão do mundo é precisamente essa.

Uma acumulação correspondente às prioridades do capital-dinheiro

Na sua configuração atual, o movimento do sistema capitalista mundial é comandado antes de mais nada pela reconstituição de forças de concentração do capital-dinheiro tão poderosasquanto inovadoras (os grandes fundos de coleta de poupança e de aplicação financeira), bem como a transferência, em benefício dos mercados financeiros nos países centrais, de funções importantes de distribuição de recursos e de regulações econômicas essenciais que durante muito tempo foram controladas pelos Estados. Os grandes industriais tem um papel primordial, mas não são eles que comandam o movimento de acumulação no seu conjunto. Esta é ordenada a partir de gigantescas transferências de valor e de mais-valia em benefício do capital-dinheiro vivendo dos dividendos e dos juros sobre os empréstimos. A promoção da esfera financeira na posição de "força autônoma" por parte das pessoas que ignoram tudo do ciclo "encurtado" do capital A...A', como análise do caráter idólatra das finanças, teve por função ocultar o papel desempenhado pelos próprios Estados na gênese da "tirania dos mercados". Esta permite disfarçar os macanismos através dos quais a esfera financeira, antes de instalar os circuitos fechados de distribuição interna de ganhos e perdas puramente financeiros, se alimenta de transferências de riquezas muito concretas. Os capitais que se valorizam na esfera financeira nasceram - e continuam a nascer - no setor produtivo. A valorização, ou "frutificação" da maior parte dos recursos reais captados pelas instituições financeiras, é feita sob a forma de aplicações em obrigações e ações, isto é, em títulos de crédito sobre a atividade econômica futura.

[...]

Duas características marcam o capital-dinheiro de forma inerente. A primeira é a convicção de que os fundos em que investe sob a forma de ativos negociáveis nos mercados financeiros, isto é, que coloca financeiramente, tem a "propriedade natural" de "produzir rendimentos". É ao que Marx se referiu um dia dizendo que, para os seus detentores, os ativos deviam produzir recursos (dividendos e juros em primeiro lugar), "com a mesma regularidade que a pereira produz peras" (O capital, III, capítulo XXIV). A segunda característica, intimamente ligada à primeira, é o de ser portador daquilo a que se chama no jargão atual de "abordagem patrimonial" que se desenvolve em todo o detentor de ativos financeiros a propensão para manter um estoque de riquezas especulativas às quais ele pode entregar, a característica deste capital é a de estar situado em locais e de ter horizontes de valorização distintos e muito afastados do local onde se desenvolvem as atividades de investimento, de produção e de comercialização (sendo que estas asseguram a conclusão indispensável do ciclo de valorização do capital produtivo). A distância não é meramente física; é ideal. É com toda a razão que Lenin, no mesmo capítulo, fala a propósito da classe dos rendeiros como "pessoas completamente isoladas da participação em qualquer empresa". Esta caracterização permanece exata mesmo quando os representantes do capital-dinheiro rendeiro fazem parte de "comissões de auditoria" a partir das quais eles exercem o "governo da empresa". As instituições que operam nos mercados financeiros tem a sua própria representação do mundo, a começar pela economia. Necessitam dos fluxos regulares de recursos das suas colocações, de rendimentos seguros pelo menor custo. Os prazos de amadurecimento da grande maioria dos investimentos produtivos situam-se totalmente fora de horizonte. Entre colocações financeiras, os títulos dívida pública, especialmente os dos Estados cuja credibilidade financeira é mais elevada, ocupam um lugar de destaque. A segurança e a regularidade dos rendimentos fazem deles a escolha por excelência das concentrações contemporâneas do capital financeiro cuja função é assegurar os fluxos de rendimentos permanentes e estáveis. Mas os dividendos recebidos monetariamente a patir dos lucros dos grupos industriais adquiram uma importância crescente. É o nível e a regularidade dos fluxos de dividendos que as comissões de auditoria tem por missão controlar sem descanso.