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quinta-feira, 28 de março de 2013

O Segundo Réquiem para Gullar


Publicamos abaixo texto produzido pelo Blog Cem Flores.

O poeta de esquerda "arrependido": um prato cheio para o monopólio midiático reacionário de "tempos democráticos"



O último poema de O Vil Metal chama-se Réquiem para Gullar[1]. No ano passado,  após mais de meio século, Ferreira Gullar fez publicar seu segundo réquiem. Enquanto no primeiro exercia o seu ofício, neste último a poesia sai de cena. Aquele que já se definiu “poeta político” (Omissão, B) agora renega a si mesmo, abandona a esperança e a luta, capitula e trai.

Para que não pensem que exageramos, transcrevemos abaixo os principais trechos dessa fúnebre (não) poesia de Gullar. Pretendemos, em seguida, analisar cada um desses pontos à luz, principalmente, da própria poesia de Gullar e, assim, completar seu obituário. Nesses dias de trocas de papas, podemos voltar ao velho latim e dizer: Requiescat in pace!

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Entrevista de Ferreira Gullar nas páginas amarelas da Veja, em 26.09.2012, piores trechos:

“O capitalismo é forte porque é instintivo. ... O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.
A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro.”

“O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.”

“O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.”
“A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária.” (negritos nossos)[2]

*    *    *

Como pode um antigo militante comunista dizer essas bobagens ridículas, expressões de rendição de classe? Avancemos uma primeira hipótese, que condiz com nossa tese dessa entrevista como um réquiem, a partir da própria poesia do ex-poeta:

“Foi-se formando/a meu lado/um outro/que é mais Gullar do que eu/que se apossou do que vi/do que fiz/do que era meu/e pelo país/flutua/livre da morte/e do morto” (O Duplo, PI).

Se descartarmos essa hipótese poética de um duplo, de um impostor que tenha tomado o lugar do velho Gullar (e pilhérias a parte), a explicação mais plausível para sua impostura deve estar baseada no próprio fenômeno que funda uma sociedade dividida em classes antagônicas, que a perpassa de cima a baixo, e define os rumos da prática, da teoria e da ideologia de cada classe nessa sociedade: a luta de classes.

O recuo e a traição de Gullar podem ser explicados (nunca justificados!) como efeitos do próprio recuo da classe operária na luta de classes contra a burguesia nas últimas décadas. Efeitos das ausências de uma firme posição revolucionária entre as massas e do seu partido comunista na sociedade brasileira atual. Efeitos do recuo relativo da teoria marxista no país. Só que esses efeitos, para o segundo réquiem de Gullar,já se mostram um tanto quanto defasados, pois tanto a conjuntura mundial quanto a conjuntura nacional da luta de classes já apontam para uma retomada da luta de massas, o que tende a levar em seu bojo a retomadas tanto da teoria marxista quanto de sua organização revolucionária.

A própria e necessária ligação entre luta de classes e posição política não era desconhecida do antigo poeta:

“Meu povo e meu poema crescem juntos” (Meu Povo, Meu Poema, DNV).

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Vamos analisar agora, brevemente, as principais teses do segundo réquiem.

Primeira tese de Ferreira Gullar: o capitalismo como tendo “origem natural”. O capitalismo como fruto “dos instintos do ser humano”. Passagem de “natural” para final, “invencível”. Fim da história.

Ao abandonar a posição proletária e revolucionária, Gullar abandona o materialismo histórico e, com isso, regride às formulações ideológicas das classes dominantes, utilizadas para justificar a dominação de classe da burguesia. Para esta, nada melhor do que apresentar o capitalismo – e assim justificar sua exploração sobre a grande maioria da população – como algo natural e espontâneo, porém de acordo com a natureza, com uma pseudo-essência, do ser humano. Dessa forma, o capitalismo vira o fim da história ou, nas palavras de Gullar, um sistema “invencível”.

Nada mais distante, porém, da realidade do que essa caricatura ideológica.

O capitalismo, ao contrário de ser de “origem natural”, é um modo de produção historicamente determinado com o objetivo de produzir e reproduzir não apenas as condições materiais de existência, mas também as relações de dominação e exploração de classe que lhe são características.

Isso quer dizer que a constituição do modo de produção capitalista, tal qual do feudalismo e do escravismo, dependeu de uma série de fatores concretos, contingentes porém cumulativos (políticos, sociais, tecnológicos, etc.), ocorridos em determinado e longo período histórico. Essa transição do feudalismo ao capitalismo nada teve de necessária, imanente, caracterização típica de quem, à “esquerda” ou à direita, professa diversas “filosofias da história”, com sua sucessão pré-determinada e teleológica de momentos que culminariam com a realização da “essência” do homem.

Da mesma forma, o capitalismo não é a realização dos “instintos do ser humano” – supondo que tais instintos existam além da herança evolucionária que compartilhamos com os demais seres vivos (resumidos de forma geral nas buscas pela sobrevivência e pela reprodução) – sejam eles quais forem. O importante é explicitar que nesta frase de Gullar se resume a impostura ideológica do liberalismo burguês: criar um indivíduo representativo de todos, ignorando as divisões da sociedade em classes, e associar este indivíduo ao burguês. Porém atenção: não se trata aqui do burguês real, egoísta, explorador e sedento de lucro, mas de um burguês ideologicamente idealizado, um poço de virtudes.

Virtudes essas ressaltadas e condensadas nas belas e genéricas declarações de princípios, necessariamente ideológicas, da burguesia, tais como as dos pais do liberalismo inglês, ou dos direitos do homem e do cidadão da grande Revolução Francesa, ou ainda o Bill of rights da Revolução Americana, até os mais recentes estatutos da ONU ou a “constituição cidadã” brasileira. Trata-se, no entanto, de submetê-las ao confronto da realidade concreta. A realidade concreta da opressão do imperialismo inglês sobre os povos coloniais do mundo todo até meados do século passado e dos bairros proletários denunciados por Charles Dickens e Jack London. A realidade concreta da opressão sobre os miseráveis e os mineiros franceses, denunciadas por Victor Hugo e Émile Zola no século XIX, das condições de vida nos banlieues da Paris atual às tropas colonizadoras que oprimem os povos do mundo aos acordes da Marselhesa. A realidade concreta do secular escravismo americano substituído por um apartheid em que se enforcavam negros aos aplausos da multidão branca nas southern trees denunciadas por Billie Holiday, da miséria espalhada pelas depressões do século XX, retratada por John Steinbeck, e do século XXI, ainda à espera de autor, às políticas do big stick que se mantêm de Theodore Roosevelt a Obama. A realidade concreta dos sempre negados direitos à autodeterminação dos povos diante das “intervenções humanitárias” das grandes potências imperialistas. E a realidade concreta do nosso conhecido país da jabuticaba, das Vidas Secas de Graciliano à Cidade de Deus de Paulo Lins e aos Domingos Sem Deus de Luiz Ruffato, e uma das maiores desigualdades sociais do mundo, para usar esse eufemismo estatístico.

Portanto, o capitalismo não só não é algo “natural” sendo, pelo contrário, historicamente determinado, como não realiza “instinto” humano algum, inclusive porque não só não há esse “instinto” humano, como não há, tampouco, esse indivíduo humano representativo de todas as classes no capitalismo.

Mas que o capitalismo não é uma sociedade homogênea, mas dividida em classes, isso o velho poeta já sabia:

“a noite ocidental obscenamente acesa/sobre meu país dividido em classes” (Madrugada, DNV).

Tiradas, assim, suas premissas, já cairia por terra a ridícula hipótese de um capitalismo “invencível”. Mas achamos que cabe acrescentar, ainda, dois pontos adicionais. O primeiro é que não é possível a quem quer que seja, nem a este outro Gullar, ignorar a dimensão da atual crise do capitalismo, da crise da economia mundial, do imperialismo. Crises que vem se sucedendo umas as outras de maneira crescente e generalizada. Crise que, ao ampliar desmesuradamente o nível de exploração sobre as classes trabalhadoras, está fazendo crescer a reação dessas mesmas classes dominadas contra o sistema de dominação.

O segundo ponto é que uma premissa implícita da tese da invencibilidade do capitalismo em Gullar é que ela restaria provada pela queda das tentativas socialistas do século XX. Mais uma vez, o ex-poeta vê tudo ao avesso. As gloriosas e bem sucedidas experiências de derrubada revolucionária do capitalismo, bem como as primeiras tentativas de construção do socialismo na União Soviética, na China, no Vietnã, em Cuba e tantos outros lugares, são lições imprescindíveis, nos seus acertos e nos seus erros, à geração atual de comunistas. Sabemos, agora, quais erros evitar e quais lições desenvolver.

Segunda tese de Ferreira Gullar: o capitalismo como solução para a desigualdade que ele próprio cria, amplia e reproduz. A “capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade”. A “produção da riqueza” no capitalismo.

Mais uma vez, defrontamo-nos com a mais simples e caricata ideologia burguesa. O capitalismo é apresentado como o regime de produção de riqueza ao qual bastaria uma melhor regulação, um maior controle estatal, uma legislação mais apropriada ou quem sabe, uma maior consciência dos capitalistas, para que haja uma distribuição menos desigual dessa riqueza. Como criticou Lênin, um capitalismo asseadinho.

E note bem: uma distribuição menos desigual de riqueza seria tudo ao que o proletariado e as demais classes dominadas poderiam almejar. Como diz este Gullar, essas classes são aquelas que nascem “burras”, nascem “aleijadas”. E a riqueza seria criada pelas empresas, da qual dependeriam os operários. Essa matriz ideológica burguesa é compartilhada por todos os matizes de reformismo e revisionismo, tanto em suas infrutíferas tentativas de criar um capitalismo organizado, asseadinho, quanto nas suas ações para paralisar a classe operária e moderar suas reivindicações.

Mas comecemos a desmontar essa ideologia pelo seu começo. Em que base ocorre a produção de riqueza no capitalismo? O materialismo histórico nos apresenta de forma cabal que é o trabalho humano que transforma os valores de uso disponíveis na natureza, tornando-os apropriados às satisfações das necessidades humanas.

No capitalismo, no entanto, este trabalho humano adquire uma característica bastante específica. É o trabalho daquelas classes que não detêm nem os meios de produção nem as condições de garantir sua própria subsistência. Sua única maneira de subsistir é vender sua força de trabalho à classe possuidora dos meios de produção, detentora do capital. E aqui a maravilhosa descoberta científica de Marx, desnudando a raiz da exploração capitalista: ao produzir uma quantidade de riqueza que supera o valor de sua força de trabalho vendida ao capitalista, essa riqueza excedente, a mais-valia, é apropriada integralmente pelo capitalista, sem equivalente. A riqueza capitalista resume-se, toda ela, à apropriação do trabalho não pago das classes trabalhadoras.

E isso pode ser traduzido em termos poéticos. Mais uma vez, nos socorramos do antigo poeta Ferreira Gullar. E não de qualquer poema, mas de seu poema mais famoso, o Poema Sujo, escrito em meados dos anos 1970 na Argentina, onde o então poeta estava exilado.

O que ficam fazendo os proletários, Gullar?

“trabalhando para o dono – como disse/Marx” (PS).

E o que é a vida proletária, poeta?

“miséria dos homens/escravos de outros” (PS).

Uma década antes, isso já lhe estava suficientemente claro:

“Trabalhava noite e dia/nas terras do fazendeiro./Mal dormia, mal comia,/mal recebia dinheiro;/se recebia não dava/pra acender o candeeiro./João não sabia como/fugir desse cativeiro” (João Boa-Morte Cabra Marcado Pra Morrer, RC).

Ao invés das loas atuais ao capitalismo e sua pseudo-capacidade de distribuir riqueza, ao invés de se deixar festejar pela burguesia brasileira, nosso antigo poeta sabia e enfrentava a dura realidade do país com sua poesia:

“Façam a festa/cantem e dancem/que eu faço o poema duro/o poema-murro/sujo/como a miséria brasileira”
“poema/que não toca no rádio/que o povo não cantará/(mas que nasce dele)”
“Obsceno/como o salário de um trabalhador aposentado/o poema/terá o destino dos que habitam o lado escuro do país/ – e espreitam.” (Poema Obsceno, VD)

Terceira tese de Ferreira Gullar: no capitalismo quem produz as riquezas são os capitalistas e os operários conjuntamente, “um depende do outro”. “O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas”.

“O branco açúcar que adoçará meu café/nesta manhã de Ipanema/não foi produzido por mim/ ... /e tampouco o fez o dono da usina/ ... /Em lugares distantes, onde não há hospital/nem escola,/homens que não sabem ler e morrem/aos vinte e sete anos/plantaram e colheram a cana/que viraria açúcar” (O Açúcar, DNV).

Não é necessário nada além do soco no estômago que é essa poesia para demolir a patética tese da “co-dependência” entre o trabalhador e o “empresário-intelectual-poeta” (sic!).

Mas vejamos esse ponto com um pouco mais de detalhe. Este atual duplo de Gullar, este impostor, afirma que, ao invés do que escrevia antes, a produção de riqueza se dá por “milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro”, pois o burguês “é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas”. Que a burguesia passa todo o seu tempo se beneficiando das maneiras velhas de ganhar dinheiro ou inventando maneiras novas para isso é sua própria definição enquanto classe. O que Gullar não diz (pois a Veja poderia não gostar), mas que é seu sinônimo, é que para isso, a burguesia passa todo o seu tempo se beneficiando das maneiras velhas de explorar os trabalhadores ou inventando maneiras novas de realizar essa exploração. Quem diz capitalismo, diz exploração de classe.

O que o capitalista tem é apenas o dinheiro, o capital. É esse capital que ele põe em funcionamento contratando trabalhadores para gerarem a mais-valia que é por ele apropriada. Ao capitalista, o que interessa é a produção de um valor maior do que o que dispunha inicialmente, tanto faz produzindo açúcar ou cocaína, chips de computador ou armas.

Isso é tão óbvio que até o nosso Zé Molesta já o sabia:

“A verdade é muito simples/e eu vou logo lhe contar./Você não quer liberdade,/você deseja é lucrar. Você faz qualquer negócio/desde que possa ganhar:/vende canhões a Somoza,/aviões a Salazar,/arma a Alemanha e Formosa/pro mercado assegurar” (Peleja de Zé Molesta com Tio Sam, RC).

Esquecido de sua vida anterior, o que o novo Gullar parece ainda acreditar é nos velhos mitos das “robinsonadas”, do pequeno capitalista individual movido a uma ideia na cabeça e algum dinheiro no bolso. Algo como um Steve Jobs. O que ele “esqueceu” é que para transformar essas idéias em produtos vendáveis, mercadorias, o capitalista cai fora e o trabalho é feito pelos operários. Esqueceu que o sucesso do Steve Jobs é baseado em milhares de operários chineses presos em fábricas militarizadas, nas quais se faz apenas trabalhar (muito), comer e dormir (pouco) a troco de salários irrisórios. Lá como aqui e em qualquer lugar, no entanto, a exploração capitalista encontra seu limite na reação operária. Lá como aqui e em qualquer lugar, a luta dos operários limita, na medida de sua organização e disposição de luta, um avanço maior da exploração, aumenta os salários (ainda irrisórios) e conquista melhores condições de trabalho.

No tempo em que ele ainda sabia dessas coisas, ele as chamava pelo nome. Não mais um “empresário-intelectual-poeta”, mas os grandes monopólios imperialistas:

“Que o tempo é pouco/e ai estão o Chase Bank,/a IT & T, a Bond and Share,/a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,/e sabe-se lá quantos outros/braços do polvo a nos sugar a vida/e a bolsa” (Homem Comum, DNV).

E também a própria classe dominante brasileira não era poupada:

“Latifúndios com nome de gente, famílias/com nome de empresas” (Dois Poemas Chilenos, DNV).

E ainda vem esse ex-poeta criticar suas antigas posições como “radical, sectária, primária”! Primárias são as teses que se derivam do senso comum, que expressam a ideologia dominante. Como vimos, não é outra coisa que Gullar faz durante toda a entrevista-réquiem. Sectário é não se abrir ao debate, à discussão, à crítica. O marxismo sempre foi, desde Marx, o oposto a isso. Não é por outra razão que nosso blog chama-se Cem Flores (http://cemflores.blogspot.com.br/). Por fim, como dizia o jovem Marx, ser radical é tomar as coisas pela raiz, o que no caso se traduz em desvendar e denunciar os mecanismos encobertos da exploração capitalista e desnudar a ideologia burguesa que a justifica[3].

*    *    *

À guisa de conclusão, dois comentários.

Ao contrário do que propõem tanto a entrevista-réquiem de Gullar quanto a ofensiva ideológica da classe dominante na atual crise do imperialismo, o capitalismo não é o fim da civilização, o fim da história. Pelo contrário, na atualidade há crescentes indícios de aumento das lutas de massa (passeatas, greves, manifestações, ocupações, greves gerais, etc.) e de retomada do marxismo. Por certo partindo de patamares recuados, mas iniciando a contra ofensiva das classes dominadas.

E como nosso velho “poeta político” já sabia, quando essa luta avança...

“Um grave acontecimento está sendo esperado por todos/Os banqueiros os capitães de indústria os fazendeiros/ricos dormem mal. ... Um grave acontecimento/está sendo esperado/e nem Deus e nem a polícia/poderiam evitá-lo” (A Espera, VD)

“A poesia/quando chega/não respeita nada./ ... /E promete incendiar o país” (Subversiva, VD)

“Onde está/a poesia? Indaga-se/por toda parte ... /poesia/paixão/revolução” (A Poesia, DNV).

E como último e triste comentário, parece que enfim concretizou-se na vida do poeta a sua própria poesia:

“é a morte que te chama/É tua própria história/reduzida ao inventário de escombros/no avesso do dia/e não mais esperança/de uma vida melhor?/que se passa, poeta?/adiaste o futuro? ” (Omissão, B).

“O morto está morto” (Glauber Morto, B).




[1] Neste texto, todas as citações da obra poética de Ferreira Gullar foram feitas de acordo com a edição de sua Poesia Completa, Teatro e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008. Dá-se o nome do poema citado e indica-se o livro no qual foi publicado pelas suas iniciais: VM (O Vil Metal, 1954-60), RC (Romances de Cordel, 1962-67), DNV (Dentro da Noite Veloz, 1962-75), PS (Poema Sujo, 1975), VD (Na Vertigem do Dia, 1975-80), B (Barulhos, 1980-87) e PI (Poemas Inéditos, 1948-2006).
[2]Veja, 26 de setembro de 2012. O texto integral está disponível no sítio do filósofo e poeta Antonio Cícero, que o qualifica de brilhante (sic!): http://antoniocicero.blogspot.com.br/2012/10/ferreira-gullar-entevista-revista-veja.html.
[3] Faltou-nos comentar uma afirmação de Gullar, a de que a “função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar”. Para a avaliação marxista sobre o papel do Estado no capitalismo e para uma análise do comportamento recente do Estado brasileiro, remetemos ao nosso artigo “O Estado brasileiro em ação. Como o Comitê Central da Burguesia decide as medidas de política econômica e as determina aos atuais prepostos Dilma e Mantega” (http://cemflores.blogspot.com.br/2012/07/como-o-comite-central-da-burguesia.html). 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Progressismo na música: duas (semi)homenagens a Marighlella


Marighella: entre a difamação e a glória deturpada


Quando a hegemania cultural é da reação, como hoje em dia, é comum a esquerda ficar alegre, muitas vezes de maneira totalmente acrítica, com qualquer furo nesse acachapante cenário. Fica alegre e reivindica para si, sem nenhuma ponderação qualquer heróico esforço de se contrapor ao status vigente. Muitos riscos moram por aí.

Nessa virada de ano vivenciamos na mídia e na vida cultural do país um retorno do rosto mais odiado da ditadura: o de Marighella. Não é por menos, final de 2011 representou o centenário do internacionalmente conhecido comunista brasileiro. Foi lançado um filme Isa Grinspum Ferraz [1], sobrinha do revolucionário, narrado pelo grande ator Lázaro Ramos; um livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães [2]; uma música/clipe dos Racionais MC's, Mil faces de um homem leal, presente no filme de Isa [3] e que marca o retorno à ativa do maior grupo de rap da história do país; e uma música, mais recente, do dúbio artista Caetano Veloso, Um comunista, que integra seu mais recente álbum "Abraçaço" [4]. Além de outras atividades culturais e políticas de menor impacto na "opinião pública".

Quem foi Marighella, a quem interssa sua "fama"?

A mobilização popular no período de "redemocratização" do país obrigou constar na história oficial a heróica batalha de lutadores que pegaram em armas para defender seu país. Dentre eles Marighella. Mesmo que esse processo ainda não tenha, nem de longe se completado, só ver a fachada da Comissão de Verdade e Justiça tutelada pelo governo federal [5], ou tenha sido menor e menos expressivo, se comparado a outros países da America Latina que sofreram com as ditaduras fantoches do capital estrangeiro, o fato é que conseguiu-se minar, pelo menos para o povo, a legitimidade do terrorismo de estado daquela época.

O monopólio midiático, as forças armadas e diversos outros setores e aparelhos de Estado e das classes dominantes, obviamente, tentam constantemente difamar essa memória, apagar a verdade ou "relativizá-la" desse período histórico de intensa luta de classes em nosso país e no mundo. Um exemplo é o discurso liberal "anti-totalitarismo" que tenta igualar, de maneira ridícula, a violência dos "terroristas de esquerda" com o terror estatal-militar. Esquecem de ver, por exemplo, a maneira como era tratados os prisioneiros de guerra dos dois lados para ver o quão "igual" foi!

Essa ameaça de difamação é constante, e tem ganhado, infelizmente, força nos últimos anos, junto com a reorganização do setor conservador.

Isso mostra que a luta pela memória é uma disputa contínua, uma das facetas da luta de classes. Por isso é importante defender nossos lutadores de toda e qualquer falácia ou ataque. Independente do viés ideológico e da luta política devemos lembrar que nossos mortos são nossos mortos.

Porém o inimigo também pode fazer seu serviço de maneira indireta, não explicitamente. Essa é a forma mais perigosa de ataque e que mais arrasta incautos.

Marighella, de fato, foi o "inimigo nº 1 da ditadura". Um militante revolucionário extraordinário, experiente, que estava disposto, como mostrou na prática, de dar sua vida pela causa do povo brasileiro e da revolução. Mas será que sua fama, mostrado como paradigma de luta contra a ditadura, de alguma forma indireta, favorece o inimigo?

Como se sabe, Marighella e sua organização ALN, foram fortemente influenciadas pelo foquismo, retirando de maneira errônea lição da experiência cubana e sua importação mecânica. Sua saída do imobilismo do velho PC foi em direção a uma linha política extremamente militarismo, de menosprezo da teoria, da política e das massas. A ALN era uma organização de ação, visava a guerrilha urbana como soma de forças para uma guerrilha rural. As armas controlava a política, e não a política as armas. Um erro fatal.

A falência dessa linha para o proletariado e as classes trabalhadoras ficou clara em nosso país. A repressão cirúrgica do regime extirpou durante anos do país organizações revolucionárias. Eliminou-se os quadros revolucionários, eliminou-se tudo. Isso podemos incluir até mesmo uma experiência que tentou escapar do foquismo, a guerrilha do araguaia, como ficou conhecida, liderada pela reconstrução do PC no nosso país.

"Se for para fortalecer uma linha política revolucionária, que seja a errada, mais confusão e esforços inúteis serão espalhados", "pensa" o inimigo (ou pelo menos, é a lógica de seu ataque ideológico). Por isso, de certa forma, a imagem personalista de Marighella e de sua linha política incorreta são um deserviço ao verdadeiro balanço que os revolucionários devem fazer de sua luta histórica e nacional. Isso, fique claro, de forma alguma retira a importância de Marighella, sua luta, sua organização. Como dito, estão do nosso lado, e devemos defendê-la. Porém, também não podemos dispensar a auto-crítica e cair na armadilha ingênua da reação fantasiada. Junto com nossa defesa, devemos levantar nossa crítica e outras organizações "apagadas" (intencionalmente) da fama, que aplicaram políticas mais justas, e tentaram superar o foquismo, o imobilismo de direita e o sindicalismo trotskista. De toda a derrota sofrida na ditadura o que mais devemos aprender é: sem partido e sem teoria revolucioária, a classe, mesmo com quadros armados naquele momento, está desarmada e não conseguirá realizar sua tarefa histórica.

Duas (semi)homenagens a Marighella: um desvio lumpen, um desvio pequeno burguês, ou duas faces da mesma moeda

Se vimos que nem toda reivindicação faz um serviço à nossa memória e à causa, que essa pode servir sim a um deserviço, vamos a dois exemplos práticos, sobre a imagem de Marighella: a música/clipe dos Racionais e a música de Caetano.

Como dito no início do texto, a esquerda cai nos cavalos de tróia do inimigo muitas vezes, pois acata acriticamente o que lhe vem aparentemente como progressista. E realmente caiu nesse caso. Apresentaremos uma breve análise crítica para evidenciar essa afirmação.

Música/Clipe da música dos Racionais:

Letra de Mil faces de um homem leal

A postos para o seu general, Mil faces de um homem leal (2x)/  Protetor das multidões/ Encarnações de célebres malandros/ De cérebros brilhantes/ Reuniram-se no cé/u O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer/ Tô somado, é o que é, assim foi escrito/ Mártir, Mito ou Maldito sonhador/ Bandido da minha cor/ Um novo messias/ Se o povo domina ou não/ Se poucos sabiam ler/ E eu morrer em vão/ Leso e louco sem saber/ Coisas do Brasil, super-herói, mulato/ Defensor dos fracos, assaltante nato(!)/ Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis/ Tramam 30 fariseus contra Moisés, morô/ Reaja ao revés, seja alvo de inveja Irmão,/ esquina de velas pra cima de um rebelde/ Que ousou lutar, honrou a raça/ Honrou a causa que adotou,/ Aplauso é pra poucos/ Revolução no Brasil tem um nome/ Vejam o homem/ Sei que esse era um homem também/ A imagem e o gesto/ Lutar por amor/ Indigesto como o sequestro do embaixador / O resto é flor, se tem festa eu vou/ Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show/ Presta atenção que o sucesso em excesso é cão/ Que se habilita a lutar, fome grita horrível/ A todo ouvido sensível que evita escutar/ Acredita lutar, quanto custa ligar? /Cidade chama vida que esvai/ Clama por socorro, quem ouvirá? /Crianças, velhos e cachorros sem temor /Clara meu eterno amor, sara minhas dores /Pra não dizer que eu não falei das flores / Da Bahia de São Salvador Brasil /Capoeira mata um mata mil, porque /Me fez hábil como um cão /Sábio como um monge/ Antirreflexo de longe/ Homem complexo sim /Confesso que queria /Ver Davi matar Golias /Nos trevos e cancelas /Becos e vielas /Guetos e favelas/ Quero ver você trocar de igual/ Subir os degraus, precipício /Ê vida difícil, ô povo feliz / Quem samba fica, /Quem não samba, camba /Chegou, salve geral da mansão dos bamba /Não se faz revolução sem um fuga na mão /Sem justiça não há paz, é escravidão/ Revolução no Brasil tem um nome/ A postos para o seu general/ Mil faces de um homem leal (2x)  Marighella / Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer /Por mim, por você, por ter coragem em dizer.*

*Em negrito queremos destacar certas aproximações do ideário lumpen. Já o sublinhado quer demonstrar os desvios personalistas.

Percebemos que a música, de sagazes melodia e letra, é uma homenagem a um homem corajoso que ousou lutar contra as injustiças do país e o regime que as sustentava. Tenta mostrar que esse homem brotou da cultura brasileira, era também um homem comum, dividia uma vida em comum. Sua defesa é a defesa de nossa honra.

As imagens que usa diversas vezes são oriundas de um certo misticismo/teologismo (vide as comparações com figuras bíblicas) e também da vida marginalizada do país (chega chamar Marighella de "malandro", assautante nato!). O clipe também faz referências sobretudo ao segundo aspecto. Há cenas que os membros do grupo estão em vielas escuras de favelas, portando armas, em supostas "ações revolucionárias". Eis um duplo desvio ideológico: o personalismo, que desliga Marughella das massas, de sua organização, de seu período histórico, para virar um homem que "faz história" com as próprias mãos, um super-homem; outro, a estetização da pobreza, claramente pequeno-burguês, de identificar na pobreza, na miséria, a força contra o sistema. Para o velho Marx, os Racionais ainda acreditam que são os lázaros do proletariado que são a tropa de choque da revolução, e não elementos de forte propensão reacionária.

Muita confusão para uma criativa homenagem. Mas o deserviço está feito: aqueles conservadores que comparam as expropriações de grupos revolucionários a meros assaltos, a luta política com o crime (e o contrário da mesma moeda, aqueles que acham que o crime é uma "resistência política"), agradecem; aqueles que tentam mostrar que a revolução é um golpe dado por intelectuais e grandes homens que enganam uma população ignorante, também.


Música de Cateano Veloso (e banda Cê):

Letra de Um comunista

Um mulato baiano,/ Muito alto e mulato/ Filho de um italiano/ E de uma preta hauçá/  Foi aprendendo a ler /Olhando mundo à volta /E prestando atenção /No que não estava a vista /Assim nasce um comunista / Um mulato baiano /Que morreu em São Paulo/ Baleado por homens do poder militar/ Nas feições que ganhou em solo americano /A dita guerra fria /Roma, França e Bahia / Os comunistas guardavam sonhos/ Os comunistas! Os comunistas! / O mulato baiano, mini e manual /Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas /Depois por Magalhães /Por fim, pelos milicos /Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas/ Como são os comunistas? / Não que os seus inimigos / Estivessem lutando / Contra as nações terror / Que o comunismo urdia / Mas por vãos interesses/ De poder e dinheiro / Quase sempre por menos/ Quase nunca por mais/  Os comunistas guardavam sonhos / Os comunistas! Os comunistas! / O baiano morreu / Eu estava no exílio / E mandei um recado: "eu que tinha morrido" / E que ele estava vivo, / Mas ninguém entendia / Vida sem utopia Não entendo que exista/ Assim fala um comunista  /Porém, a raça humana /Segue trágica, sempre /Indecodificável /Tédio, horror, maravilha / Ó, mulato baiano /Samba o reverencia /Muito embora não creia/ Em violência e guerrilha /Tédio, horror e maravilha / Calçadões encardidos /Multidões apodrecem /Há um abismo entre homens /E homens, o horror / Quem e como fará /Com que a terra se acenda? /E desate seus nós /Discutindo-se Clara /Iemanjá, Maria, Iara Iansã, /Catijaçara / O mulato baiano já não obedecia /As ordens de interesse que vinham de Moscou / Era luta romântica/ Era luz e era treva /Vento de maravilha, de tédio e de horror / Os comunistas guardavam sonhos /Os comunistas! os comunistas!

*Sublinhado frases "anti-comunistas", negrito apoio tácito e confuso "à causa".

Caetano é um artista dos mais perdidos ideologicamente da história contemporânea do país. Por vezes vem com uma crítica social, um certo anti-conservadorismo. Outras vezes, um anti-comunismo atroz. Essa música só refoça.

A música não vem com a estética feroz dos Racionais. É quase um rock minimalista, um tanto melancólico, nostálgico. Mas a letra também tende a prestar uma homenagem, contar a história, quase literal (e mais completa e contextualizada que na música dos Racionais), das ações de um grande homem. Só que fixa bem esse homem e seus sonhos no passado. Caetano abraça, ceticamente, a "democracia" como verdadeiramente fim da história. Defende Marighella, mas muito mais para se diferenciar dos conservadores, parar gerar polêmica pela polêmica, coisa que sempre gosta de fazer.

No fim da "guerra fria", Caetano lançou uma música com um viés ideológico bem semalhante. "Os outros romanticos" [6] , de 1989, é uma música destinada aos comunistas, que ele chama de românticos, como no caso de Marighella, homens com motivações subjetivas e utópicas que se chocam com a negra natureza humana, imutável, e o mundo muito mais complexo que seus pobres esquemas. O mundo não foi feito para ser mudado, e qualquer afirmação contrária é uma violência, um retorno ao obscurantismo totalitário: eis a tese de fundo. No final da música faz uma referência hegeliana, comparando o marxismo a uma profecia, uma escatologia. Aqui a letra completa:

Eram os outros românticos, no escuro /Cultuavam outra idade média, situada no futuro /Não no passado /Sendo incapazes de acompanhar /A baba Babel de economias/ As mil teorias da economia/ Recitadas na televisão/ Tais irredutíveis ateus /Simularam uma religião /E o espírito era o sexo de Pixote, então/ Na voz de algum cantor de rock alemão /Com o ódio aos que mataram Pixote a mão/ Nutriam a rebeldia e a revolução/  E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil /Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo/ E os primeiros mênstruos /Compunham as visões dos seus vitrais/ E seus apocalipses mais totais /E suas utopias radicais / Anjos sobre Berlim "O mundo desde o fim"/ E no entanto era um SIM /E foi e era e é e será sim.

Mais uma vez, muita confusão. A versão quase lumpen "radicalista" se assemelha com a versão pequeno burguesa desiludida. Duas faces da mesma moeda, dois desvios com origem em comum e final semelhantes.

Críticas exageradas?

De fato é difícil imaginar, em meio a uma correnteza tão forte do hegemônico, uma nova forma de cultura, que não guiadas pelas imagens de ações individuais, mistificadas ou não. Ainda é um caminho longo a ser percorrido, impossível sem mudança das bases sociais. De fato, as homenagens encerram um certo progressismo, é inegável. Um progressismo possível, dentro dessa realidade concreta. Porém, não sem contradições a serem superadas, como tentamos demonstrar aqui.

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[1] http://itaucinemas.com.br/filme/marighella
[2] http://www.youtube.com/watch?v=AOwddBi7u-o
[3] http://www.youtube.com/watch?v=G-OFK14m6s0
[4] http://www.youtube.com/watch?v=otiZAYPP200
[5]http://www.faccamp.br/letramento/2012/1sem/oficina4/consuelo_dieguez_conciliaCAo_de_novo_piaui64.pdf / ou http://www.anovademocracia.com.br/no-96/4259-comissao-da-meia-verdade-se-arrasta-
[6] http://www.youtube.com/watch?v=EVgP4398kdY

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Victor Jara: um artista revolucionário

Dia 16 de setembro é aniversário da morte do cantor chileno Victor Jara. Preso e logo após assassinado pelo golpe de Pinochet no Chile, a obra e vida de Victor é um exemplo revolucionário e de compromisso com os povos oprimidos e as classes trabalhadoras. A América Latina ainda sangra com a perda de tantos companheiros que tombaram na luta contra as ditaduras fantoches do imperialismo ianque!

Abaixo disponibilizamos o documentário "El derecho de vivir em paz", em espanhol, de 1999, sobre Victor Jara.



quarta-feira, 13 de junho de 2012

César Vallejo - o "poeta dos vencidos": entre o desamparo e a esperança







Em homenagem aos 120 anos de nascimento de um dos maiores poetas da América Latina, o peruano César Vallejo, disponibilizamos aqui alguns trechos de sua obra e uma análise da mesma (em espanhol) feita pelo herético marxista e também peruano Mariátegui, em seu famoso livro 7 ENSAYOS DE INTERPRETACIÓN DE LA REALIDAD PERUANA, disponível, junto com sua obra completa aqui: http://www.patriaroja.org.pe/docs_adic/obras_mariategui/ .



César Vallejo foi um dos nomes que modernizou a poesia do século XX de nosso continente. Além de poeta foi escritor de mão cheia, passando por diversos gêneros textuais. Vallejo também foi um intelectual radical inquieto, estudioso do marxismo, que então começava a dar seus primeiros passos no novo mundo, assim como militante de esquerda, por vezes perseguido e até preso. Em suas viagens, onde constam visitas à URSS, o poeta conheceu a europa e ampliou sua bagagem cultural e política. Um poema desta época em homenagem à Guerra Civil Espanhola disponibilizamos abaixo. Logo após, reproduzimos o texto de Mariátegui.

 
ESPANHA, AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE   
Tradução de Gilfrancisco Santos


Crianças do mundo,
se a Espanha cai – digo só por dizer –
se cai
do céu abaixo seu antebraço que amarrem
pelo cabresto duas lâminas terrestres;
crianças, que idade a das frontes côncavas!
Como é cedo no sol que vos dizia!
Que veloz o ruído antigo em vosso peito!
No caderno que velho é o vosso 2!

Crianças do mundo, está
a mãe Espanha com o seu ventre às costas;
está nossa mestra com suas palmatórias,
está mãe e mestra,
cruz e madeira, porque vos deu a altura,
vertigem e divisão e soma, crianças;
ela está com ela, pais processuais!

Se cai – digo só por dizer – se cai
a Espanha, da terra para abaixo,
crianças, como cessareis de crescer!
Como o ano vai castigar o mês!
Como os dentes se reduzirão a dez,
a garatujas o ditongo, o pranto a medalha.
Como vai o cordeirinho continuar
preso pela pata ao grande tinteiro!
Como descereis as grades do alfabeto
até a letra em que a pena nasceu!

Crianças
filhos dos guerreiros, entretanto,
baixai a voz, que a Espanha está neste momento repartindo
a energia entre o reino animal,
as florezinhas, os cometas e os homens.
Baixai a voz, que está
com o seu rigor, que é grande, sem saber
o que fazer, e está em sua mão
a caveira falando e fala e fala,
a caveira, aquela que tem tranças,
a caveira da vida.

Baixai a voz, vos digo:
baixai a voz, o canto das sílabas, o pranto
da matéria e o rumor menor das pirâmides, e ainda
o das frontes que andam com duas pedras!
Baixai a respiração, e se
o antebraço desce,
se as férulas soam, se é a noite,
se cabe o céu em dois limbos terrestres,
se há ruído no som das portas,
se eu tardo,
se não vedes ninguém, se vos assustam
os lápis sem ponta, se a mãe
Espanha cai – digo só por dizer –
crianças do mundo, andai, a procurá-la!

 

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XIV. CÉSAR VALLEJO



El primer libro de César Vallejo, Los Heraldos Negros, es el orto de una nueva poesía en el Perú. No exagera, por fraterna exaltación, Antenor Orrego, cuando afirma que "a partir de este sembrador se inicia una nueva época de la libertad, de la autonomía poética, de la vernácula articulación verbal" (33).

Vallejo es el poeta de una estirpe, de una raza. En Valleio se encuentra, por primera vez en nuestra literatura, sentimiento indígena virginalmente expresado. Melgar –signo larvado, frustrado– en sus yaravíes es aún un prisionero de la técnica clásica, un gregario de la retórica española. Vallejo, en cambio, logra en su poesía un estilo nuevo. El sentimiento indígena tiene en sus versos una modulación propia. Su canto es íntegramente suyo. Al poeta no le basta traer un mensaje nuevo. Necesita traer una técnica y un lenguaje nuevos también. Su arte no tolera el equívoco y artificial dualismo de la esencia y la forma. "La derogación del viejo andamiaje retórico –remarca certeramente Orrego– no era un capricho o arbitrariedad del poeta, era una necesidad vital. Cuando se comienza a comprender la obra de Vallejo, se comienza a comprender también la necesidad de una técnica renovada y distinta" (34). El sentimiento indígena es en Melgar algo que se vislumbra sólo en el fondo de sus versos; en Vallejo es algo que se ve aflorar plenamente al verso mismo cambiando su estructura. En Melgar no es sino el acento; en Vallejo es el verbo. En Melgar, en fin, no es sino queja erótica; en Vallejo es empresa metafísica. Vallejo es un creador absoluto. Los Heraldos Negros podía haber sido su obra única. No por eso Vallejo habría dejado de inaugurar en el proceso de nuestra literatura una nueva época. En estos versos del pórtico de Los Heraldos Negros principia acaso la poesía peruana (Peruana, en el sentido de indígena).




Hay golpes en la vida, tan fuertes Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma Yo no sé!

Son pocos; pero son ...Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre...Pobre ...pobre!Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.


Hay golpes en la vida, tan fuertes ...Yo no sé!


Clasificado dentro de la literatura mundial, este libro, Los Heraldos Negros, pertenece parcialmente, por su título verbigracia, al ciclo simbolista. Pero el simbolismo es de todos los tiempos. El simbolismo, de otro lado, se presta mejor que ningún otro estilo a la interpretación del espíritu indígena. El indio, por animista y por bucólico, tiende a expresarse en símbolos e imágenes antropomórficas o campesinas. Vallejo además no es sino en parte simbolista. Se encuentra en su poesía –sobre todo de la primera manera– elementos de simbolismo, tal como se encuentra elementos de expresionismo, de dadaísmo y de suprarrealismo. El valor sustantivo de Vallejo es el de creador. Su técnica está en continua elaboración. El procedimiento, en su arte, corresponde a un estado de ánimo. Cuando Vallejo en sus comienzos toma en préstamo, por ejemplo, su método a Herrera y Reissig, lo adapta a su personal lirismo.

Mas lo fundamental, lo característico en su arte es la nota india. Hay en Vallejo un americanismo genuino y esencial; no un americanismo descriptivo o localista. Vallejo no recurre al folclore. La palabra quechua, el giro vernáculo no se injertan artificiosamente en su lenguaje; son en él producto espontáneo, célula propia, elemento orgánico. Se podría decir que Vallejo no elige sus vocablos. Su autoctonismo no es deliberado. Vallejo no se hunde en la tradición, no se interna en la historia, para extraer de su oscuro substratum perdidas emociones. Su poesía y su lenguaje emanan de su carne y su ánima. Su mensaje está en él. El sentimiento indígena obra en su arte quizá sin que él lo sepa ni lo quiera.

Uno de los rasgos más netos y claros del indigenismo de Vallejo me parece su frecuente actitud de nostalgia. Valcárcel, a quien debemos tal vez la más cabal interpretación del alma autóctona, dice que la tristeza del indio no es sino nostalgia. Y bien, Vallejo es acendradamente nostálgico. Tiene la ternura de la evocación. Pero la evocación en Vallejo es siempre subjetiva. No se debe confundir su nostalgia concebida con tanta pureza lírica con la nostalgia literaria de los pasadistas. Vallejo es nostalgioso, pero no meramente retrospectivo. No añora el Imperio como el pasadismo perricholesco añora el Virreinato. Su nostalgia es una protesta sentimental o una protesta metafísica. Nostalgia de exilio; nostalgia de ausencia.




Qué estará haciendo esta hora mi andina y dulce Rita
de junco y capulí;
ahora que me asfixia Bizancio y que dormita
la sangre como flojo cognac dentro de mí.
("Idilio Muerto", Los Heraldos Negros)

Hermano, hoy estoy en el poyo de la casa,
donde nos haces una falta sin fondo!
Me acuerdo que jugábamos esta hora, y que mamá
nos acariciaba: "Pero hijos..."
("A mi hermano Miguel", Los Heraldos Negros)

He almorzado solo ahora, y no he tenido
madre, ni súplica, ni sírvete, ni agua,
ni padre que en el facundo ofertorio
de los choclos, pregunte para su tardanza
de imagen, por los broches mayores del sonido.
(XXVIII, Trilce)

Se acabó el extraño, con quien, tarde
la noche, regresabas parla y parla.
Ya no habrá quien me aguarde,
dispuesto mi lugar, bueno lo malo.

Se acabó la calurosa tarde;
tu gran bahía y tu clamor; la charla
con tu madre acabada
que nos brindaba un té lleno de tarde.

(XXXIV, Trilce)


Otras veces Vallejo presiente o predice la nostalgia que vendrá:




Ausente! La mañana en que a la playa
del mar de sombra y del callado imperio,
como un pájaro lúgubre me vaya,
será el blanco panteón tu cautiverio.
("Ausente", Los Heraldos Negros)

Verano, ya me voy. Y me dan pena
las manitas sumisas de tus tardes.
Llegas devotamente; llegas viejo;
y ya no encontrarás en mi alma a nadie.

("Verano", Los Heraldos Negros)


Vallejo interpreta a la raza en un instante en que todas sus nostalgias, punzadas por un dolor de tres siglos, se exacerban. Pero –y en esto se identifica también un rasgo del alma india–, sus recuerdos están llenos de esa dulzura de maíz tierno que Vallejo gusta melancólicamente cuando nos habla del "facundo ofertorio de los choclos".

Vallejo tiene en su poesía el pesimismo del indio. Su hesitación, su pregunta, su inquietud, se resuelven escépticamente en un "¡para qué!" En este pesimismo se encuentra siempre un fondo de piedad humana. No hay en él nada de satánico ni de morboso. Es el pesimismo de un ánima que sufre y expía "la pena de los hombres" como dice Pierre Hamp. Carece este pesimismo de todo origen literario. No traduce una romántica desesperanza de adolescente turbado por la voz de Leopardi o de Schopenhauer. Resume la experiencia filosófica, condensa la actitud espiritual de una raza, de un pueblo. No se le busque parentesco ni afinidad con el nihilismo o el escepticismo intelectualista de Occidente. El pesimismo de Vallejo, como el pesimismo del indio, no es un concepto sino un sentimiento. Tiene una vaga trama de fatalismo oriental que lo aproxima, más bien, al pesimismo cristiano y místico de los eslavos. Pero no se confunde nunca con esa neurastenia angustiada que conduce al suicidio a los lunáticos personajes de Andreiev y Arzibachev. Se podría decir que así como no es un concepto, tampoco es una neurosis.

Este pesimismo se presenta lleno de ternura y caridad. Y es que no lo engendra un egocentrismo, un narcisismo, desencantados y exasperados, como en casi todos los casos del ciclo romántico. Vallejo siente todo el dolor humano. Su pena no es personal. Su alma "está triste hasta la muerte" de la tristeza de todos los hombres. Y de la tristeza de Dios. Porque para el poeta no sólo existe la pena de los hombres. En estos versos nos habla de la pena de Dios:




Siento a Dios que camina tan en mí,
con la tarde y con el mar.
Con él nos vamos juntos. Anochece.
Con él anochecemos, Orfandad...

Pero yo siento a Dios. Y hasta parece
que él me dicta no sé qué buen color.
Como un hospitalario, es bueno y triste;
mustia un dulce desdén de enamorado:
debe dolerle mucho el corazón.

Oh, Dios mío, recién a ti me llego,
hoy que amo tanto en esta tarde; hoy
que en la falsa balanza de unos senos,
mido y lloro una frágil Creación.

Y tú, cuál llorarás tú, enamorado
de tanto enorme seno girador
Yo te consagro Dios, porque amas tanto;
porque jamás sonríes; porque siempre

debe dolerte mucho el corazón.


Otros versos de Vallejo niegan esta intuición de la divinidad. En "Los Dados Eternos" el poeta se dirige a Dios con amargura rencorosa. "Tú que estuviste siempre bien, no sientes nada de tu creación". Pero el verdadero sentimiento del poeta, hecho siempre de piedad y de amor, no es éste. Cuando su lirismo, exento de toda coerción racionalista, fluye libre y generosamente, se expresa en versos como éstos, los primeros que hace diez años me revelaron el genio de Vallejo:




El suertero que grita "La de a mil",
contiene no sé qué fondo de Dios.

Pasan todos los labios. El hastío
despunta en una arruga su yanó.
Pasa el suertero que atesora, acaso
nominal, como Dios,
entre panes tantálicos, humana
impotencia de amor.

Yo le miro al andrajo. Y él pudiera
darnos el corazón;
pero la suerte aquella que en sus manos
aporta, pregonando en alta voz,
como un pájaro cruel, irá a parar
adonde no lo sabe ni lo quiere
este bohemio Dios.

Y digo en este viernes tibio que anda
a cuestas bajo el sol:
¡por qué se habrá vestido de suertero

la voluntad de Dios!


"El poeta –escribe Orrego– habla individualmente, particulariza el lenguaje, pero piensa, siente y ama universalmente". Este gran lírico, este gran subjetivo, se comporta como un intérprete del universo, de la humanidad. Nada recuerda en su poesía la queja egolátrica y narcisista del romanticismo. El romanticismo del siglo XIX fue esencialmente ndividualista; el romanticismo del novecientos es, en cambio, espontánea y lógicamente socialista, unanimista. Vallejo, desde este punto de vista, no sólo pertenece a su raza, pertenece también a su siglo, a su evo (35).

Es tanta su piedad humana que a veces se siente responsable de una parte del dolor de los hombres. Y entonces se acusa a sí mismo. Lo asalta el temor, la congoja de estar también él, robando a los demás:




Todos mis huesos son ajenos;
yo tal vez los robé!
Yo vine a darme lo que acaso estuvo
asignado para otro;
y pienso que, si no hubiera nacido,
otro pobre tomara este café!
Yo soy un mal ladrón... A dónde iré!

Y en esta hora fría, en que la tierra
trasciende a polvo humano y es tan triste,
quisiera yo tocar todas las puertas,
y suplicar a no sé quién, perdón,
y hacerle pedacitos de pan fresco

aquí, en el horno de mi corazón ...!


La poesía de Los Heraldos Negros es así siempre. El alma de Vallejo se da entera al sufrimiento de los pobres.




Arriero, vas fabulosamente vidriado de sudor.
La Hacienda Menocucho

cobra mil sinsabores diarios por la vida.


Este arte señala el nacimiento de una nueva sensibilidad. Es un arte nuevo, un arte rebelde, que rompe con la tradición cortesana de una literatura de bufones y lacayos. Este lenguaje es el de un poeta y un hombre. El gran poeta de Los Heraldos Negros y de Trilce –ese gran poeta que ha pasado ignorado y desconocido por las calles de Lima tan propicias y rendidas a los laureles de los juglares de feria– se presenta, en su arte, como un precursor del nuevo espíritu, de la nueva conciencia.

Vallejo, en su poesía, es siempre un alma ávida de infinito, sedienta de verdad. La creación en él es, al mismo tiempo, inefablemente dolorosa y exultante. Este artista no aspira sino a expresarse pura e inocentemente. Se despoja, por eso, de todo ornamento retórico, se desviste de toda vanidad literaria. Llega a la más austera, a la más humilde, a la más orgullosa sencillez en la forma. Es un místico de la pobreza que se descalza para que sus pies conozcan desnudos la dureza y la crueldad de su camino. He aquí lo que escribe a Antenor Orrego después de haber publicado Trilce: "El libro ha nacido en el mayor vacío. Soy responsable de él. Asumo toda la responsabilidad de su estética. Hoy, y más que nunca quizás, siento gravitar sobre mí, una hasta ahora desconocida obligación sacratísima, de hombre y de artista: ¡la de ser libre! Si no he de ser hoy libre, no lo seré jamás. Siento que gana el arco de mi frente su más imperativa fuerza de heroicidad. Me doy en la forma más libre que puedo y ésta es mi mayor cosecha artística. ¡Dios sabe hasta dónde es cierta y verdadera mi libertad! ¡Dios sabe cuánto he sufrido para que el ritmo no traspasara esa libertad y cayera en libertinaje! ¡Dios sabe hasta qué bordes espeluznantes me he asomado, colmado de miedo, temeroso de que todo se vaya a morir a fondo para que mi pobre ánima viva!" Este es inconfundiblemente el acento de un verdadero creador, de un auténtico artista. La confesión de su sufrimiento es la mejor prueba de su grandeza.