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domingo, 28 de julho de 2013

Buraco negros super-maciços e dialética maoísta.

Por Nat Winn (tradução para o português: C.R.)



A dialética maoísta declara que tudo que existe está em contradição. Contradição contém dentro de si tanto a unidade quanto a luta. É a luta a força impulsionadora a dialética e que assenta a base para o processo de transformação. Dialética não é uma abordagem para algum processo final unificado (sujeito e objeto, por exemplo).


Na atividade vital a essência do ser humano.


Eu tenho pensado muito sobre um comentário de autoria de Eve Mitchell onde ela diz:


“Unidade e luta, juntamente com os de esquerda/libertários marxistas de nossa tendência, centram nossas análises na categoria filosófica de Marx de trabalho vivo/ autotransformação/ atividade vital, que é diretamente discutida em lugares como os manuscritos de 1844, mas pode também ser encontrada como um pedaço central na crítica da economia de Marx, tal como O Capital. Onde Nat refere-se ao “ponto de produção ou reprodução capitalista”, nós devemos substituir o termo “trabalho vivo” ou “autotransformação”. Para nós, trabalho vivo é a essência de nossa humanidade; esta é uma categoria que transcende o capitalismo. Isto envolve tudo desde plantar tomates, fazer sexo, até a composição de uma partitura musical”


Eu não posso evitar de pensar que estas formulações não vão suficientemente longe.


Há contradição entre seres humanos e natureza. Isto é, há tanto unidade quanto luta entre os dois. Os seres humanos compõem parte da natureza ao mesmo tempo que conscientemente a transformam através do trabalho e do desenvolvimento das forças produtivas (tecnologia e conhecimento humano).

Eve diz que nossa atividade vital é determinada pelo nosso modo de produção. Ela sugere que o objetivo do comunismo é unir sujeito e objeto o que eu entendo que significa que o trabalho coletivo humano não será mais alienado das coisas que produz. Este conceito enxerga uma unificação dos seres humanos com os frutos de seu trabalho, apesar de ser obscuro o que isto irá significar em consideração à relação do ser humano com a natureza.

Esta concepção é incompleta em duas considerações. Por enquanto uma resolução da contradição entre trabalho socializado e propriedade privada é um verdadeiro objetivo dos comunistas, a contradição ainda será a força impulsionadora da sociedade após a sua realização. Isto é, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção sempre existirá e exigirá alguma forma de resolução.

Em segundo lugar, nosso modo de produção não é somente determinado pela atividade humana, nem tampouco nossa relação com ele será sempre marcada pela absoluta unidade. Os caminhos em que o resto da natureza é concebida (até mesmo se  os seres humanos são considerados parte da natureza) e os caminhos nos quais eles se relacionam na prática, todos são influenciados pelo modo de produção em dado tempo assim como  por várias ideias sociais e filosóficas. No entanto o relacionamento dos seres humanos com o resto da natureza não pode ser subordinada sob qualquer modo de produção dado e até mesmo a resolução da contradição fundamental no capitalismo através da revolução não resolverá as contradições entre os seres humanos e a natureza.

Natureza e cosmos (por exemplo) movem uma luta com a atividade consciente humana e esta luta marca a essência real dentro desta relação.

E há o fato de que o Sol é finito. Ele explodirá um dia e o planeta Terra não será mais habitável. Um asteroide pode atingir a Terra e destruir a nós todos antes disso. Nós devemos constantemente lidar com desastres naturais, secas, e outros aspecto da natureza e do cosmos. A natureza e o cosmos irão constantemente, se a humanidade sobreviver, limitará obstáculos a nossa existência. Para continuar a existir como uma espécie nós devemos resolver constantemente estas contradições em nosso favor.

Mao falou sobre o fim de nosso sistema solar e o fim dos seres humanos como parte de uma contradição que trará novas (mais avançadas) formas de vida a existência. Cientistas maoístas teorizaram que havia um universo aberto e infinito marcado pela descontinuidade e ruptura.

Eu deveria bancar o otimista e dizer que o Sol explode em outros 5 bilhões de nos e que nós também podemos tentar prever quando um asteroide pode se chocar com o nosso planeta, então nós temos algum tempo para acumular conhecimento e desenvolver o emprego das forças produtivas em nossa própria preservação. Talvez a humanidade sobreviva!

Falar sobre um caminho em direção à unidade (a unidade do sujeito e objeto ou dos seres humanos como uma totalidade metabólica) não captura o que os seres humanos entendem como uma coletividade sobre o mundo e o cosmos nos quais vivemos. Nesse mundo a humanidade ela mesma pode avançar apenas através de resoluções positivas de luta e transformações constantes de nós mesmos em relação à natureza e o cosmos.


Estrelas super-maciças e o nascimento de coisas novas.


Eu quero olhar para a formação de buracos negros super-maciços como um meio de pensar sobre como a luta entre opostos é a força essencial impulsionadora na criação de coisas novas. Eu penso que isto será realmente divertido!

Novamente, como nós sabemos, as vidas das estrelas são finitas. Isto é elas vem a ser, elas existem, e então elas morrem durante o decorrer de milhões de anos. Isto inclui nosso próprio Sol, o centro de nosso sistema solar, o qual cientistas prevêem, existirá talvez por outros 5 bilhões de anos e então explodirá.

Estrelas são formadas através nuvens de gás flutuando ao redor e colidindo entre si no cosmos. A gravidade no núcleo de uma estrela lança gases no interior ao mesmo tempo a fusão lança-os para o exterior. Esta relação entre gravidade e fusão mantém estrelas unidas pela duração de suas existências. Entretanto há também grande luta entre estes dois aspectos. A um certo ponto, em todo estrela que existe, a fusão consome o combustível e a gravidade a mantém . Na verdade, de fato este processo está ocorrendo também por toda a vida da estrela, fazendo com que a estrela cresça e torne-se velha.

Algumas estrelas crescem centenas de vezes maiores que o nosso Sol. Estas estrelas são conhecidas como estrelas super-maciças. Explosões de estrelas gigantes são conhecidas como Supernovas. Quando estrelas super-maciças explodem isto é chamado de Hipernova.

Quando uma Hipernova ocorre o núcleo suga todos os gases em volta para seu interior.  A gravidade torna-se absoluta. O núcleo da Hipernova é um buraco negro que é do tamanho de todo um sistema solar. Ele é um buraco negro super-maciço para ser preciso (a maioria dos buracos negros são bastante pequenos estendendo-se ao longo de 20 milhas).


Buracos negros super-maciços e a formação de galáxias.


Assim como o buraco negro suga todos os gases a sua volta para seu interior, ele se torna incapaz de absorver todo este gás. Até certo ponto umas formas quasar. Um quasar é um raio maciço emitido de ambos os lados de um buraco negro super-maciço. Um quasar é a marca de uma galáxia jovem. Lembre-se que gases estão formando estrelas e que aqueles gases passam a colidir uns com os outros. Até certo ponto o buraco negro não pode mais absorver mais nenhum gás e o quasar extinguir-se da existência. Ao mesmo tempo a gravidade criada pelo buraco negro desenvolve-se de tal maneira que as estrelas começam a orbitar em volta dele, exatamente como planetas orbitam em volta das estrelas e as luas em volta dos planetas. O enfraquecimento do quasar marca o meio da vida de uma galáxia.

Pensa-se agora pelos cientistas que buracos negros super-maciços estão no centro não apenas, de nossa galáxia Via –Láctea, mas da maioria que existem, bilhões e bilhões de galáxias. Se nós observarmos com telescópios em direção ao centro de nossa galáxia nós vemos grandes nuvens de gás. Mais além estrelas estão mais dispersas e há menos gás. Telescópios infravermelhos nos mostram que estrelas próximas ao centro da galáxia estão se movendo a milhões de milhas por hora. Cientistas pensam que apenas um buraco negro super-maciço tem a forças que permite às estrelas a viajar a tais velocidades.


Buracos negros super-maciços e dialética. 


Então essas descobertas e especulações parecem sugerir uma forma de movimento onde a luta entre opostos realmente conduz à transformação, o nascimento de coisas novas. Unidade e ordem têm sempre de ser apenas temporários. Nós também vemos irregularidade do movimento, tal que não há um equilíbrio entre fusão e gravidade. A fusao ajuda a manter uma estrela unida pela maior parte de sua vida mas eventualmente a gravidade se torna dominante, a estrela consequentemente pode explodir, e no caso da Hipernova um buraco negro é formado. Um novo processo se inicia tal que ele conduz mais provavelmente para a formação da galáxia.

Em um comentário na mesma linha onde eu cite Eve Mitchell, NPC coloca aquelas leis dialéticas na seguinte maneira:


1- Nem particular nem universal são redutíveis um ao outro, mas o universal ainda determina a forma do particular.

2- Estes particulares, embora pensados universalizados através de um único modo de produção, podem ser contraditórios uns aos outros e até mesmo ao próprio universal.

3- Diferentes particulares se interceptam (não necessariamente em uma maneira contraditória), criando pontos únicos. Mas o universal intercepta-se mais, e cada ponto criado por qualquer intercessão abre-se em direção ao universal ele mesmo. Isto significa que, combinando os pontos 1 e 3:

4- Cada particular reflete um fragmento do universal, mas também distorce este fragmento. E o universal reflete cada particular em sua totalidade, distorcendo esta totalidade.



Eu tomo o que os seres humanos estão começando a entender a respeito do cosmos como evidência de que o universal reside no particular, ou melhor, colocar dentro daquela contradição que é tanto universalidade quanto particularidade. Universalidade há em todas as coisas, todo o processo que existe, contém contradição. E particularidade há naquelas especificidades de contradição donde cada coisa particular deve ser entendida tanto em sua interconectibilidade e diferença a fim de entender um dado processo.

Também é verdade que o que é universal em uma situação pode tornar-se particular em outra e vice e versa. Uma estrela e sua relação com os planetas que a orbitam pode ser universal em um momento, mas sua relação torna-se particular quando olhamos o sistema solar dentro do contexto da galáxia por exemplo. E como uma estrela envelhece e quando uma cresce super-maciça e explode tem o potencial para destruir tudo em seu caminho de modo a produzir toda uma nova galáxia e novos planetas e talvez novas formas de vida, bem então nós vemos a relação entre que é universal e que é particular mudando novamente.

De modo similar na sociedade e economia política a contradição fundamental entre produção socializada e propriedade privada pode ser universal em um contexto, embora seja articular em relação à contradição entre forças produtivas e as relações de produção que existem em todos os modos de produção.

Nós podemos realmente falar um único modo de produção como universalização de um conjunto de particulares? Como isso pode ser quando um modo de produção desenvolve-se irregularmente e sempre contém dentro de si elementos de outros modos de produção os quais podem afetar fortemente contradições interiores ao modo dominante?

E não é o materialismo dialético uma teoria universal revolucionária que envolve nosso entendimento das coisas fora de nosso entendimento do “modo de produção”?

A ideia de que o universal determina a forma do particular me parece ser muito unilateral, até mesmo com suas ressalvas.

O que significa afirmar que o universal intercepta mais, como NPC diz, que as intercessões de vários particulares, se o universal não pode ele mesmo ser precisado exceto em consideração a fenômenos particulares e processos?

Finalmente, fala de NPC no ponto 3 de que “Diferentes particulares se interceptam (não necessariamente de uma maneira contraditória)”. Mas toda diferença contém contradição, como diz Mao, e cada intercessão de diferentes coisas contém também.  Isto não faz aquelas coisas diferentes coisas diferentes opostas (à totalidade); isto significa que há contradições, que incluem elementos tanto da unidade como da luta.

Eu levanto todas estas coisas como questões para acender discussões posteriores e debates. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Viva todas as lutadoras do povo! Viva o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora!

"as mulheres trabalhadoras não são apenas uma reserva. Elas podem e devem tornar-se — com uma política justa da classe operária — um verdadeiro exército que combaterá a burguesia. Fazer desta reserva de mulheres trabalhadoras um exército de operárias e camponesas combatendo ao lado do grande exército do proletariado, eis a segunda tarefa, que é decisiva, da classe operária"

Stalin sobre as mulheres trabalhadoras




Em homenagem ao dia 8 de março, reproduzimos um artigo do grupo página vermelha (Portugal), disponível também no link: http://www.paginavermelha.org/noticias/090309-metade-do-ceu.htm.

As mulheres detém metade do céu – isso já foi mais que um sonho
9 de Março de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

«Temos orgulho em participar
na industrialização do país»

Poster chinês 1954
Pouco depois da revolução chinesa em 1949, novas leis deram às mulheres um estatuto legal igual e os plenos direitos que lhes tinham sido negados nos dias em que os imperialistas, os seus aliados capitalistas locais e os proprietários feudais governavam o país. As novas leis puseram fim aos casamentos infantis e forçados, deram às mulheres o direito a divorciarem-se e o direito à terra, para que deixassem de ser propriedade dos homens sob qualquer forma. A libertação de um grande número de mulheres da prostituição é outro exemplo das grandes mudanças concretizadas quase do dia para a noite.

Mas Mao Tsé-tung compreendeu que o salto da igualdade formal perante a lei para a total emancipação das mulheres de tudo o que as oprimia enquanto sexo desigual requeria uma luta árdua e prolongada – e que, sem isso, a revolução não poderia entrar na via da superação de todas as marcas da opressão e da exploração deixadas pela velha sociedade e que, em vez disso, instalaria o capitalismo. A revolução, à medida que se desenvolvia e que as mulheres participavam na criação de uma nova sociedade, teria não só que transformar as relações sociais e económicas tradicionais que oprimiam as mulheres mas também as instituições sociais e os valores e o pensamento das pessoas. Com a sua famosa frase «As mulheres detém metade do céu», Mao e os revolucionários chineses estavam a proclamar que não podia haver nenhuma emancipação da humanidade sem a participação e a emancipação de metade da sociedade – as suas mulheres.

Reimprimimos aqui excertos de três livros sobre as mulheres na China revolucionária que mostram os impressionantes passos rumo à libertação das mulheres naquele que era então um dos países mais atrasados do mundo. Estes passos apenas podem ocorrer quando o proletariado, a classe cuja própria libertação requer a libertação da humanidade de todas as formas de exploração, detiver o poder de estado. Estes relatos também mostram o poderoso papel que as mulheres podem desempenhar no avanço desse processo. A realidade dos feitos da China socialista dá um vislumbre do que se pode conseguir no futuro, quando a ditadura revolucionária do proletariado for de novo estabelecida num ou mais países, como parte do processo de criação do comunismo, um mundo finalmente livre de classes e divisões de classe e das instituições e do pensamento que são o fruto da sociedade de classes.

***
No livro Fanshen, Um Documentário sobre a Revolução numa Aldeia Chinesa (Vintage Books, 1966), William Hinton escreveu sobre o campo nos 

Uma mulher mostra como tinham que amarrar os pés antes da Revolução, para os manterem muito pequenos
primeiros tempos da revolução chinesa, quando o velho domínio feudal e as suas instituições e costumes estavam a ser derrubados pela primeira vez. Ele descreve casos típicos de esposas agredidas por irem a reuniões nocturnas da Associação de Mulheres. As mulheres membros da Associação organizavam reuniões para todas as mulheres da aldeia e chamavam o marido ou o sogro para que se defendesse publicamente das acusações feitas pela mulher ou pela nora. Se ele se recusasse a responder, muitas vezes elas davam-lhe uma tareia para lhe mostrar que a partir daí as coisas seriam diferentes e que seria melhor que ele deixasse de abusar da mulher quando estivesse a sós com ela. O comité de mulheres estaria presente, sempre atento e pronto a intervir de novo se necessário. Hinton escreveu:

«Entre as que foram espancadas estava a mulher do camponês pobre Man-ts'ang. Quando ela regressou a casa vinda de uma reunião da Associação de Mulheres, o marido bateu-lhe como de costume, gritando: ‘Vou-te ensinar a ficares em casa. Vou-te mudar os teus maus hábitos.’ Mas a mulher de Man-ts'ang surpreendeu o seu amo e senhor. Em vez de, depois disso, ficar em casa como mercadoria obediente, no dia seguinte dirigiu-se à secretária da Associação de Mulheres, a mulher do miliciano Ta-hung, e fez uma queixa contra o marido. Depois, numa discussão com os membros do comité executivo, a secretária convocou uma reunião das mulheres de toda a aldeia. Pelo menos um terço, talvez mesmo metade delas, compareceram. À frente dessa concentração sem precedentes de mulheres decididas, foi exigido a Man-ts'ang que explicasse os seus actos. Man-ts'ang, arrogante e insubmisso, concordou prontamente: Disse que tinha batido na mulher porque ela tinha ido às reuniões e que ‘a única razão por que as mulheres vão a reuniões é para terem 

A caminho do trabalho nos campos
liberdade para namorar e seduzir’.
Esse comentário suscitou um furioso protesto das mulheres reunidas perante ele. As palavras rapidamente levaram aos actos. Elas precipitaram-se de todos os lados sobre ele, derrubaram-no, pontapearam-no, rasgaram-lhe as roupas, arranharam-lhe a cara, puxaram-lhe o cabelo e sovaram-no até ele já não conseguir respirar.

«‘Vais bater-lhe? Vais bater-lhe e caluniar-nos a todas? É melhor violares a tua mãe. Talvez isto te ensine.’»
«‘Parem, eu nunca mais lhe vou bater’, gritou ofegante o marido apavorado que estava à beira de desmaiar devido aos golpes delas.»
«Elas pararam, deixaram-no levantar-se e mandaram-no para casa com um aviso – quando tocasse de novo na mulher com um dedo, receberia mais do mesmo ‘remédio’.»
«Desse dia em diante, Man-ts'ang nunca mais ousou bater na mulher dele e a partir desse dia a mulher passou a ser conhecida em toda a aldeia pelo seu nome de solteira, Ch'eng Ai-lien, em vez de simplesmente pelo título de mulher de Man-ts'ang, como era costume desde o início dos tempos.»

***
O Grande Salto em Frente, iniciado em 1958, trouxe as mulheres para fora de casa e para o torvelinho da batalha pela criação de uma nova sociedade na produção, na política, na cultura e noutras frentes. As Comunas Populares criadas como forma colectiva de propriedade e de governo nos campos trouxeram os refeitórios comunitários, os infantários, as reparações domésticas cooperativas e outras coisas que não só aumentaram o bem-estar dos camponeses como também começaram a libertar as mulheres da reclusão familiar, fornecendo soluções colectivas às necessidades sociais que formalmente caiam apenas sobre os ombros das mulheres. Isso tornou ainda mais fácil a sua participação na criação de novas fábricas e em projectos de irrigação e a representação de um maior papel na política e noutros campos.
Houve resistência a esse processo por parte daqueles que no Partido Comunista queriam fazer parar a revolução com a modernização da China e o desenvolvimento do capitalismo, uma sociedade em que a igualdade formal de todos os indivíduos esconde verdadeiras desigualdades, opressão e exploração. Em vez de ser um bastião da luta 

As mulheres rurais passaram de camponesas isoladas a trabalhadoras industriais, como estas operárias da indústria electrónica
mundial pelo comunismo, eles queriam vender o país e o seu povo ao sistema capitalista mundial.
Foi por isso que Mao desencadeou a Revolução Cultural, uma grande luta de inúmeros milhões de pessoas para dar um novo e maior salto na via socialista. A luta entre as duas vias no partido e na sociedade chinesa manteve-se durante uma década. Por fim, após a morte de Mao em 1976, os «seguidores da via capitalista no partido», sobre quem Mao tinha feito um aviso, conseguiram fazer um golpe militar, prender a liderança revolucionária do partido e começar a fazer da China aquilo que é hoje – uma enorme fonte de lucro para o capitalismo globalizado e uma vez mais um lugar onde as necessidades da humanidade não contam para nada e um inferno especial para as raparigas e as mulheres.

O livro Some of Us, Chinese Women Growing Up in the Mao Era [Algumas de Nós, Mulheres Chinesas que Cresceram na Época de Mao] (editado por Xueping Zhong, Wang Zheng e Bai Di; Rugers University Press, 2001) fornece relatos individuais de mulheres chinesas (que agora vivem e ensinam nos EUA) das memórias da sua participação na Revolução Cultural e da sua experiência de «jovens educadas» que desciam aos campos para trabalharem com os camponeses. Em geral, elas consideram esse período como muito positivo e não exprimem nenhum pesar – uma refutação daquilo a que um dos editores chama a actual «narrativa da idade das trevas» sobre a Revolução Cultural e a «loucura de Mao». Os editores e as autoras salientam que as memórias da época de Mao na China são necessariamente


diversas e dependem da perspectiva de classe e do contexto social. Os pontos de vista das conhecidas «memórias de sofrimento» são veementemente contestadas por estas jovens educadas, agora mais velhas «jovens não arrependidas», que narram como saíram do ambiente urbano para irem trabalhar com os camponeses e ajudarem a vencer o enorme fosso económico, social e intelectual entre as cidades e os campos.

Nesse livro, elas querem saber: «Que experiências e que memórias contam para a história»? Embora tenham as suas próprias críticas a fazer, elas insistem em que as profundas mudanças sociais para as mulheres e as subsequentes contradições que foram desencadeadas pela revolução e pelas políticas de Mao para a igualdade de género e as tentativas de eliminar a disparidade entre as condições rurais e urbanas requerem mais investigação. Quando andavam na escola, elas não sentiam nenhum estigma enquanto mulheres. Estas jovens assumiram voluntariamente o seu papel no fermento revolucionário. Uma das autoras comenta que o facto de as jovens serem treinadas para cheerleaders [chefes de claque] no Ocidente deve ser considerado uma forma de lavagem ideológica ao cérebro em termos da posição da mulher na sociedade e proclama quão afortunada se sente por, em vez disso, ter sido «lavada ao cérebro para se tornar uma revolucionária».

Nesse excerto de Algumas de Nós, Naiha Zhang descreve os laços íntimos que ela criou com duas mulheres camponesas da sua idade e como se sentia honrada por poder trabalhar no campo. Ela salienta a atmosfera de «poder fazer» em que as mulheres eram encorajadas a desempenhar um papel activo e muitas vezes de liderança – e o faziam.

«Tanto Guirong como Lifeng se salientaram entre os seus pares. Guirong, um ano mais velha que eu, era a dirigente da Federação de Mulheres da Brigada. Lifeng, um ano mais nova, era líder da equipa de mulheres da sua aldeia. Ambas eram hábeis no trabalho do campo e nas agulhas. Guirong parecia frágil mas era conhecida pela sua destreza na agricultura, que aprendeu com o seu tio, um mestre 

Os refeitórios comunitários nas quintas socialistas ajudaram a acabar com a escravidão doméstica
agricultor. Observá-la a trabalhar o sorgo era um regalo. Nas suas mãos, a enxada de cabo longo movia-se com uma elevada eficiência e precisão, alguns golpes ágeis e secos limpavam o sorgo. Nunca havia um movimento desperdiçado ou redundante. Era igualmente uma entendida na colheita do sorgo, um outro trabalho agrícola que distinguia os camponeses ao nível da sua perícia. Ela era rápida, mas extraordinariamente calma e graciosa, deixando para trás pequenos pacotes de sorgo com a mesma forma exacta e os mesmos intervalos, criando um padrão bem desenhado se visto da extremidade do campo...»

«Dissemos frequentemente umas às outras que devia ter havido algum tipo de sorte que nos juntou e nos manteve unidas. Após um ano na estação experimental da brigada, fomos transferidas para o pequeno pomar da brigada, sendo eu a responsável. O pomar situava-se numa encosta próxima da aldeia de Guirong, com uma casa térrea de dois quartos donde se avistavam filas de pequenas árvores chinesas de maçã-caranguejo com folhas em forma de pêra. Tínhamos três bois e um antigo carro com rodas de madeira. Cultivávamos pequenos produtos, como feijões e legumes, entre as pequenas árvores de fruta. Depois de trabalharmos no pomar da brigada durante um ano, a comuna quis estabelecer uma quinta agrícola experimental na zona da comuna, comigo como sua dirigente. Disse aos dirigentes da comuna que queria que Guirong e Lifeng fossem comigo e eles concordaram vivamente. Permanecemos juntas com uma dúzia de outras pessoas – camponeses de várias brigadas e alguns zhiqing (jovens urbanos que iam para os campos) locais – até que três anos depois deixei os campos para ir para a universidade, em 1977...»

«Juntas, nós as três fizemos todo o tipo de trabalhos – um dos mais fatigantes foi atirar lama e fazer o telhado de uma casa... Tudo isto pode sugerir que passámos tempos difíceis. Sim, passámos por muitas dificuldades e suportámos sofrimentos, mas, globalmente, éramos felizes. Nessa altura, todas as organizações ou projectos tinham que ser auto-suficientes. Tínhamos de nos auto-sustentarmos antes de podermos ter dinheiro para fazermos experiências ou outras tarefas. Tínhamos orgulho em que, em resultado dos nossos esforços, tanto o pomar da brigada como a quinta experimental da comuna estavam a resultar bem do ponto de vista económico... Estudávamos em conjunto durante a noite. Guirong ficou com os livros que eu tinha. Lifeng, que 

«Criticar em profundidade a 'teoria da natureza humana' das classes dos proprietários e capitalistas»
Poster chinês 1971
tinha tido muito pouca instrução, começou a aprender a ler e a escrever. Trazia consigo um pequeno caderno e muitas vezes, quando tinha oportunidade, tirava-o para rever as palavras que nele estavam escritas. Tínhamos partilhado sonhos e aspirações e vivido juntas como eu o teria feito com os meus amigos zhiqing. Mas estávamos todas conscientes, embora não falássemos sobre isso, de que os nossos destinos finais iriam divergir devido ao facto de eu ser da cidade e elas do campo... Deixei Momoge em Janeiro de 1977, com nostalgia e um sentimento de culpa. A quinta experimental foi desmantelada no final de 1977.»

***
Claudie Broyelle visitou a China em 1971, durante a Revolução Cultural, com um grupo de mulheres activistas francesas intrigadas com a árdua e desordenada luta pela libertação das mulheres na China. Elas ouviram muitas histórias de mulheres sobre a forma como tinham saído dos papéis tradicionais que as mulheres representavam em casa e como portadoras de crianças, para aprenderem a ler, a lutar com as ideias intelectuais e a desempenhar o seu pleno papel na transformação da sociedade. No seu livro Women’s Liberation in China [A Libertação da Mulher na China] (Harvester Press, 1977), ela escreveu sobre o que, em conjunto com outras mulheres, viveu nos campos de Chao Yan:

«Dentro da fábrica havia um sentimento de solidariedade, dinamismo e dedicação. Era muito comum ver mulheres trabalhadoras a ficar depois do seu trabalho diário para terminarem uma tarefa ou praticarem uma técnica difícil. Claro que não éramos forçadas a fazê-lo e não éramos pagas pelas horas extraordinárias. Será que temos que receber bónus por estarmos a fazer a revolução? É isto a sua essência. Além disso, a nossa experiência não agradou de forma nenhuma a toda a gente. Em 1961, alguns dos gerentes da fábrica, completamente cegos pelas ordens do conselho municipal de Pequim, decidiram ‘racionalizar’ a produção. Decretaram que havia demasiada gente a trabalhar ali e que teríamos que deixar de fazer chaleiras uma vez que agora éramos uma fábrica de equipamento médico. Quão desdenhosos eram eles das nossas chaleiras! A ‘reorganização’ teria implicado que um grande número de nós fosse para casa. Eles pensavam que nos iam convencer dizendo que os homens iam obter um aumento salarial para que nós pudéssemos ficar em casa e cuidar das nossas famílias. Será que dessa forma não seria tudo mais simples? Mas esses planos tiveram uma vigorosa resistência da parte das mulheres, e elas declararam: ‘Não vamos voltar para a cozinha, não vamos sair do nosso trabalho!’ A vida na fábrica tornou-se muito tensa. Houve uma luta desesperada entre essa facção da administração que queria gerir a fábrica com vista ao lucro imediato e que, acima de tudo, não queria que as mulheres trabalhadoras se libertassem, e a grande maioria das mulheres trabalhadoras que queriam continuar no caminho que tinham escolhido.»
«Mulher condutora de tractor»
Poster chinês 1964


«Essa luta foi levada a cabo com uma completa consciência do que estava em causa. Nós compreendíamos o que estava em jogo. Na maioria dos casos, os nossos maridos e os outros homens apoiavam-nos. Isto pode-se explicar facilmente. O que aconteceu em Chao Yan não foi um incidente isolado. Em todas as fábricas, uma ofensiva reaccionária organizada por Liu Shao-chi visou quer a reintrodução das normas capitalistas de produção, quer impedir o seu derrube pelas massas. Isto explica porque é que os homens, que também estavam a ter que se opor à ofensiva burguesa, compreenderam e em geral apoiaram a resistência das mulheres. Como muitas de nós estávamos sem trabalho, não recebíamos nenhuma remuneração. Mas isso não tinha importância. Se não tínhamos trabalho, criávamos algo para nós mesmas! Se não recebíamos nenhum salário, aguentar-nos-íamos ajudando-nos umas às outras! Pedimos a outras fábricas que nos dessem trabalho que nós então fazíamos na ‘nossa fábrica’. Algumas mulheres trabalhadoras trouxeram sobras para a fábrica (tijolos, chapas metálicas e por aí adiante), que nós recuperávamos e limpávamos para as reciclarmos. O trabalho das mulheres era útil, mesmo que não fosse ‘lucrativo’, e nós provámo-lo. Poucas mulheres, apenas cerca de quinze de nós, não conseguiram continuar. Ou foram trabalhar para grandes fábricas ou voltaram para casa. Durante a Revolução Cultural, acabámos por perceber ainda mais claramente a verdadeira natureza dessa política reaccionária. Levámos a cabo campanhas para denunciar o método dessa dita ‘racionalização’.»

«A maioria dos que tinham apoiado a linha de Liu Shao-chi descobriram que interesses tinham estado realmente a servir. Eles estão agora trabalhar connosco ao nosso lado. Quase todas as mulheres que tinham saído da fábrica voltaram a trabalhar aí. Recentemente, as mulheres trabalhadoras desta fábrica aperfeiçoaram um processo para o fabrico de silicone. Antes, as trabalhadoras aqui eram todas antigas donas de casa e geralmente bastante idosas, entre os quarenta e os cinquenta anos. Agora, também temos algumas jovens que saíram da escola e que partilham os seus conhecimentos com as trabalhadoras mais velhas e que, ao mesmo tempo, aprendem com elas as qualidades da persistência revolucionária e da flexibilidade proletária. Neste bairro, virtualmente nenhuma mulher permanece em casa, só as mulheres que são demasiado velhas ou que estão mal de saúde – mas mesmo para elas a vida mudou. Elas ajudam-se umas às outras e fazem algumas tarefas domésticas para ajudarem as que trabalham longe de casa; organizam a vida política e cultural do bairro; não estão tão isoladas como antes. Esta transformação resulta da entrada de milhares de mulheres em actividades produtivas e sociais. Quanto a nós, somos assalariadas e é importante que tenhamos conquistado a nossa independência económica. Mas deve-se perceber que ainda é mais importante para nós mantermos uma posição firme no mundo, preocuparmo-nos com as questões comunitárias em vez de apenas nos preocuparmos com problemas familiares. Temos usado a produção como 

«A nova especialista em explosivos»
Poster pintado por Jin Chen, 1974
arma para nos libertarmos, para servirmos melhor o povo chinês e a revolução mundial.»
A actual situação das mulheres, seja nas sociedades capitalistas desenvolvidas, seja no terceiro mundo, continua a basear-se na opressão e assume diferentes formas em diferentes lugares. O capitalismo apenas actualizou essa opressão com formas modernas, através da sobreexploração numa economia globalizada onde há mulheres que ganham 2 dólares por dia em fábricas espalhadas pelos quatro cantos do globo. As mulheres continuam a ser violadas, mortas e transformadas em troféus de guerra. A escravização sexual de mulheres e crianças tornou-se um fenómeno mundial. E em todo o lado as mulheres são avaliadas em função da sua utilidade para os homens enquanto mães, esposas e para satisfação sexual. A libertação das mulheres só pode ser alcançada através de uma transformação revolucionária do mundo e de toda a humanidade, sendo a emancipação das mulheres uma pedra angular dessa emancipação.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prefácio de Joan Robinson (1970)


Prefácio ao livro The chinese road to socialism de Wheelwright e Bruce McFarlane. Tradução amadora.


Toda luta política é uma luta por poder. Existem três marcos na rota para a revolução socialista. O primeiro foi a Comuna de Paris. Ela falhou, mas através dela o proletariado acumulou valiosa experiência. A Revolução de Outubro foi a primeira revolução proletária vitoriosa. A Revolução Cultural é o primeiro caso de uma revolução acontecer sob uma ditadura do proletariado já constituída. Por que foi necessário recorrer a outra revolução depois do poder já ter sido conquistado, e por que o Partido Comunista Chinês e o proletariado chinês iniciou tal revolução? A razão encontra-se na lei objetiva da luta de classes. A classe inimiga não irá aceitar seu destino. Depois de ter sido desapropriada, a burguesia luta por sua restauração.
A revolução burguesa deixou a propriedade intacta. A revolução proletária toma a propriedade. A classe proprietária busca a restauração. Muitas vezes na história uma revolução tem sido sucedida por uma restauração. Na União Soviética, a contra-revolução foi derrotada, a propriedade privada foi transferida para o Estado, mas ela falhou em fazer uma Revolução Cultural. A ideologia burguesa não foi removida e o poder proletário foi corrompido por ela. Um tipo de restauração capitalista foi feita por Khrushchev em 1956.

A triste lição do revisionismo soviético nos dá um alerta que expropriar a propriedade não é suficiente/ a revolução deve continuar na superestrutura do sistema econômico. Na China, também, depois da vitória da revolução de 1949, a luta de classes persiste e forças reacionárias buscam por restauração.

O senso histórico sempre foi forte na China, desde a antiguidade. Agora o Presidente Mao e seus apoiadores olham para eles mesmos em sentido histórico. Eles tem passado por um período para uma nova fase do desenvolvimento histórico. A União Soviética provou que uma revolução pode transformar a base econômica da sociedade e que a planificação pode transformar um país atrasado em uma grande potência industrial e militar. Isto também provou, como Mao apontou, que transformar a base não é suficiente para criar o socialismo; é necessário continuar a revolução na superestrutura. A Revolução Cultural recebeu esse nome a partir de um debate sobre cultura no sentido estrito do termo – que tipo de literatura, arte e teatro é apropriado para a continuação da luta de classes? Transfomou-se então  numa revolucionarização da cultura em todos os aspectos da vida, educação e relações interpessoais. A superestrutura reage sobre a infraestrutura. Como fazer com que relações democráticas entre especialistas e simples trabalhadores impactem na produção industrial? Como fazer para que companhas contra o lucro privado afetem a comercialização do excedente agrícola?

[...]

O Partido Comunista Chinês tem uma maneiro muito diferente da União Soviética e seus discípulos. Em vez de justificar os mais grosseiros erros, os chineses aprendem a realizar auto-crítica para não cometer os mesmos erros no futuro; eles não se importam nem mesmo estrangeiros conhecerem seus erros. Nossos autores ainda que simpatizantes não veem necessidade de encobrir os erros da política, nem falsificar a realidade. Por outro lado, eles não tem necessidade de dedicar páginas à adulação. Uma fria análise do que viram já é suficiente.

[...]

Observadores hostis gostam de desacreditar muitos relatos de visitantes que, segundo eles, devem ser mantidos de lado. Existe uma grande relutância no Ocidente, e até mesmo na URSS, de acreditar o que simpatizantes maoístas relatam de suas viagens. Seria possível realizar um processo de industrialização sem oprimir de certa forma o campesinato? Como pode existir disciplina na fábrica onde trabalhadores são livre para criticar os dirigentes? Como pode haver socialismo com uma democracia total de base? Como pode um país atrasado se desenvolver, pelos seus próprios esforços, sem benefícios estrangeiros?
Porém há uma quantidade de fatos que ninguém pode negar. Frequentes discursos sobre colapsos, fome e caos se comprovaram falsos. A China prestou suas contas e hoje dá apoio a outros países enquanto não recebe nenhum. O período ruim, 1959-61, passou, sem inflação e sua moeda é hoje uma das mais instáveis do mundo. O comércio é balanceado, e e gradualmente reverte o quadro de 'subdesenvolvimento', cujo padrão é a importação de manufaturados e exportação de produtos brutos.

Se a política chinesa foi tão absurda como dizem, como pode essas coisas acontecerem? Certamente as testemunhas oculares dos detalhes da performance econômica chinesa são mais plausíveis que os zombadores que o Ocidente e a URSS divulgam.

Nossos autores entendem economia ortodoxa. Eles a entendem muito bem para ver além dela. Por dois séculos nós temos seguido a doutrina liberal de Adam Smith onde os indivíduos perseguem seus interesses particulares e daí provém a prosperidade nacional. A China, seguindo o Pensamento Mao Tse-Tung, vem provendo o contrário. Mas isso não significa que uma reversão tão profunda possa ser alcançada facilmente: 'A atual grande revolução cultural é apenas a primeira; inevitavelmente haverá muitas outras no futuro. Nos últimos anos o Camarada Mao Tse-Tung tem dito várias vezes que a questão de quem vai vencer numa revolução não pode ser decidida a não ser por um longo período histórico."

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Tudo o que vos disseram sobre o comunismo é falso: O capitalismo é um fracasso, A revolução é a solução (Partes 1 a 4) - Raymond Lotta

autor do texto


Texto abaixo retirado do site http://paginavermelha.org/, tradutores para português do texto original.

Revolution #257, 29 de Janeiro de 2012 

Nota dos Editores: O jornal Revolution (revcom.us) inicia neste número a publicação da importante conferência que Raymond Lotta deu durante a sua digressão pelas universidades norte-americanas em 2009-10. Esta versão da conferência, proferida na Universidade de Harvard em Abril de 2010, foi ligeiramente editada e foram acrescentadas notas para a versão impressa. As Partes 1, 2, 3 e 4 foram publicadas nas edições nos. 257 a 260 do Revolution, entre 29 de Janeiro e 19 de Fevereiro de 2012.

1ª Parte

É com muito gosto que estou em Harvard para falar convosco sobre os comunismo. A minha conferência tem cinco temas principais:
  • Como é que a actual atmosfera intelectual e académica restringe e mutila o discurso do que é possível fazer no mundo.
  • O que são de facto o socialismo e o comunismo – e o que não são.
  • Como o que «todos sabemos», bem como a erudição académica «de última geração» sobre a experiência das revoluções socialistas do século XX, são propagadas com distorções e mentiras... e como isso retira às pessoas a capacidade de compreensão.
  • Um olhar sobre a mais importante experiência revolucionária até hoje, a Revolução Cultural na China: os seus objectivos, os seus êxitos e as suas limitações.
  • Como é que a nova síntese de Bob Avakian permite que a humanidade vá mais longe e faça melhor a revolução socialista no mundo de hoje.
Espero que daqui resulte uma vigorosa e frutuosa troca de perguntas e respostas. Por isso, deixem-me começar.

Introdução: A ignorância institucionalizada


V. I. Lenine

Vladimir Ilitch Lenine, líder da Revolução Russa, dirige-se às massas
Imaginem-se numa situação em que os creacionistas fundamentalistas cristãos tinham tomado o poder global e que depois tinham suprimido todo o conhecimento sobre a evolução. Imaginem que eles tinham mesmo chegado a executar e encarcerar os mais proeminentes cientistas e professores que insistiam em ensinar a evolução e em levá-la ao conhecimento público. E que tinham caluniado e denunciado o facto bem estabelecida da evolução, criticando-o e ridicularizando-o como teoria distorcida e perigosa que contradiz a «verdade» bem conhecida da história bíblica da criação e as noções religiosas de «lei natural» e «ordem divina». Para continuarmos a analogia, imaginem que, nesta situação, muitas «autoridades» intelectuais, juntamente com outras pessoas que seguem na sua esteira, apanham o comboio e dizem coisas como: «não só foi ingenuidade como foi mesmo criminoso acreditar que a evolução era uma teoria científica bem documentada, não devíamos ter imposto essa convicção às pessoas». E que algumas autoridades intelectuais faziam declarações como: «Mas agora podemos ver que é ‘conhecimento comum’, que ninguém questiona – e que nós também não questionaremos; podemos ver que é conhecimento comum que a evolução encarna uma certa visão do mundo e leva a actos desastrosos para os seres humanos. Fomos enganados pela garantia arrogante dos que propagaram essa noção. Podemos ver que tudo o que existe, ou existiu, não poderia ter sido criado sem a mão guiadora de um ‘projectista inteligente’.»
Continuando nesta «experiência conceptual», suponhamos que, nesta situação, há mesmo muitos intelectuais progressistas e radicais que ficam desorientados e desmoralizados. E que são intimidados ao silêncio.[1]
Bem, isto é uma analogia com a situação que existe na vida e no discurso intelectual em relação ao comunismo. É agora aceite sem discussão o veredicto de que o comunismo é um fracasso. Pensadores radicais que antes contestavam as mentiras anticomunistas e que abriam os seus olhos e os dos estudantes para a experiência actual e libertadora da revolução comunista – muitos desses académicos progressistas aceitaram esse veredicto sem reflexão.
Vejam que, nos anos 1960, o mundo fervilhava com a revolução. A revolução chinesa inspirou pessoas em todo o mundo. Os movimentos mais revolucionários e de maior alcance dos anos 1960 – seja o dos Panteras Pretas ou os de libertação feminina radical – foram influenciados pela revolução comunista, e sobretudo pela Revolução Cultural na China. E isso teve um impacto nas universidades – incluindo aqui mesmo em Harvard – na forma como as pessoas viam as suas vidas e o significado e os objectivos do trabalho intelectual. Mas desde a derrota da revolução na China em 1976, já lá vão quase 35 anos, tem havido uma ofensiva ideológica incessante contra a revolução comunista. E isto tem tido importantes consequências.
Eu sei que há pessoas nesta sala que querem fazer algo de significativo com as suas vidas em benefício da humanidade. Talvez alguns de vós queiram dedicar as vossas energias à resolução da emergência ambiental que enfrentamos... ou a ensinar nas zonas urbanas marginalizadas... ou a explorar através das artes na esfera da imaginação e da metáfora como é que as pessoas são e poderiam ser, e como é que o mundo é e poderia ser.
Mas, independentemente das vossas paixões e convicções, este sistema tem a sua própria lógica que tudo molda. Estou a falar de um sistema que funciona na base do lucro. Estou a falar de uma economia que é a base de um império: um sistema global de exploração em que os Estados Unidos se arrogam para si próprios o «direito» de fazerem a guerra e de invadirem e ocuparem outros países. Estou a falar de um sistema económico protegido por instituições governamentais e por uma máquina militar de morte e destruição. Estou a falar dos valores e ideias que são promovidos nesta sociedade.
Vocês sabem que é urgente tomar medidas radicais para inverter a catástrofe ambiental iminente. Mas o que se faz – na realidade o que não se faz para enfrentar a emergência ambiental, de que a Cimeira de Copenhaga é o mais recente exemplo indigno – é movido e limitado pelos mecanismos do mercado mundial capitalista... pelo equil]ibrio financeiro capitalista... e pelas relações de poder e lutas de poder entre os Estados Unidos e as outras grandes potências opressoras.
Vocês querem ensinar «verdades incómodas» sobre a verdadeira história da América e o seu papel no mundo? Bem, devem fazê-lo, mas irão ser pressionados e ameaçados e provavelmente irão ficar sem emprego. Se uma mulher quiser romper com as convenções e os estereótipos, irá enfrentar toda uma vida de olhares ameaçadores, ameaças físicas e imagens sexuais degradantes que reflectem e reforçam as tradições escravizadoras e a subordinação.

Manifestação na Nevsky Prospekt

Manifestação na Nevsky Prospekt, São Petersburgo, Julho de 1917, um dos muitos levantamentos das massas que precederam a Revolução
de Outubro na Rússia
(Foto: Rheta Louise Childe Dorr)
Nós precisamos de um sistema diferente. A humanidade precisa de uma «revolução total»: na economia, na política, na cultura e na moral. E a verdade é que nós podemos criar um mundo sem exploração onde a humanidade pode florescer. Mas, e isto é uma cruel ironia, precisamente numa altura em que o capitalismo está em crise, quando toda a sua irracionalidade e o sofrimento que inflige se estão a intensificar exponencialmente – neste preciso momento, dizem-nos: «não é possível ir além do capitalismo; o melhor que podemos fazer são pequenos ajustes dentro dos seus limites». É como se tivesse sido afixado uma etiqueta de aviso quanto ao discurso sobre a possibilidade humana. Perigo - tudo o que desafie o capitalismo de uma forma fundamental é, no melhor dos casos, um sonho impossível e, no pior, uma utopia impraticável imposta de cima que resultará num pesadelo. Atenção - o projecto de fazer a revolução e construir uma economia e uma sociedade que promovam e sirvam o bem comum contradiz a natureza humana, a lógica económica e o próprio curso da história. Alerta - chegámos ao fim da história: a sociedade ocidental representa o ponto supremo e final do desenvolvimento humano.
Na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), na de Nova Iorque (NYU) e na de Chicago distribuímos um questionário de escolha múltipla sobre factos básicos relativos ao comunismo. Não eram coisas obscuras nem enigmáticas. Fizémos perguntas como: durante os anos 1930 qual foi o único país da Europa de Leste que se ergueu contra o anti-semitismo? A resposta é a União Soviética.[2] Perguntámos: nos anos 1960 qual foi o único país do mundo em que o governo e os líderes apelaram às pessoas que se revoltassem contra a autoridade institucional opressora? A resposta é a China maoista.[3] Os resultados das respostas foram péssimos – a pontuação média do teste foi de cerca de 58 em 100. Por outras palavras, as pessoas reprovaram.
Isto é uma vergonha. Porque no século XX aconteceu algo histórico a nível mundial e as pessoas não sabem o mais básico sobre isso. As primeiras sociedades socialistas forjaram-se através de revoluções monumentais, do levantamento dos miseráveis da Terra: na União Soviética entre 1917 e 1956 e na China entre 1949 e 1976. Estas foram as primeiras tentativas na história moderna de criar sociedades livres da exploração e da opressão – o socialismo. E a experiência dessas revoluções... muda tudo. O mundo não tem de ser desta maneira e nós podemos conseguir mais e melhor numa nova vaga da revolução.

O socialismo e o comunismo explicados

Então, o que é o socialismo? Clarifiquemos alguma da confusão. O socialismo não é apenas a propriedade governamental de algumas empresas ou uma ou outra regulação governamental – todos os governos capitalistas o fazem. E o socialismo não é o que Obama está a fazer – Obama não é socialista.
Na realidade, o socialismo consiste em três coisas:
Primeiro, o socialismo é uma nova forma de poder político em que os que antes eram oprimidos e explorados, em aliança com as classes médias e profissionais e a grande maioria da sociedade, governam a sociedade sob a liderança de um partido visionário de vanguarda. Esta nova forma de poder de estado mantém refreados tanto os velhos como os novos exploradores. Ela torna possível uma democracia que: (a) liberta a criatividade e a iniciativa das pessoas em todo o tipo de direcções e (b) dá às massas populares o direito e a capacidade de mudarem o mundo e de se envolverem num processo de decisão com sentido que promove um debate de maior alcance e protege os direitos individuais. Este novo estado socialista de que estou a falar serve de plataforma de lançamento para a revolução em todo o mundo
Segundo, o socialismo é um novo sistema económico onde os recursos e as capacidades produtivas da sociedade são propriedade social através da coordenação do estado socialista. Nele, a produção é organizada e planificada de uma forma consciente para satisfazer as necessidades sociais e para eliminar as desigualdades da sociedade capitalista de classes – tais como a opressão das nacionalidades minoritárias e a subordinação da mulher. É uma economia organizada para promover a revolução no mundo e proteger o planeta. A exploração e a supremacia do lucro deixarão de reger a sociedade e a vida das pessoas. Já não serão as grandes empresas farmacêuticas e os conglomerados financeiro-seguradores a determinar as condições de fornecimento de cuidados de saúde e a investigação médica. Deixarão de existir. Também deixará de haver uma General Motors e uma Boeing a enviesarem o desenvolvimento dos transportes e a produção de energia com o objectivo do lucro.
Terceiro, o socialismo é um período histórico de transição entre o capitalismo e o comunismo, um período de luta e experimentação revolucionária para transformar todas as estruturas económicas, todas as instituições e arranjos sociais e todas as ideias e valores que perpetuam a divisão da sociedade em classes.

Tropas imperialisas em Vladivostok

Tropas das grandes potências imperialisas (EUA, Grã-Bretanha e Japão) em parada em Vladivostok em 1917 em apoio ao Exército Branco que tentou esmagar a Revolução Russa (Foto: Albert Rhys Williams)
E o que é o comunismo? Aqui, quero ler-vos parte da declaração «A Revolução de que precisamos... A liderança que temos», do Partido Comunista Revolucionário:
O comunismo [é] um mundo em que as pessoas trabalham e lutam juntas pelo bem comum... em que todas as pessoas contribuem para a sociedade tudo o que podem e recebem tudo o que precisam para viverem uma vida digna de seres humanos... em que deixa de haver divisões entre as pessoas em que algumas dominam e oprimem as outras, roubando-lhes não só os meios para terem uma vida decente, mas também o conhecimento e os meios para realmente compreenderem o mundo e agirem para o mudar.[4]
As revoluções na Rússia e na China, durante o que equivale a um «nanossegundo» na história humana, conseguiram fazer coisas surpreendentes no caminho que eu estou a descrever. Claro, não sem problemas e insuficiências sérias... mas, durante o tempo em que existiram, estas revoluções consseguiram grandes feitos, apesar dos grandes obstáculos.
Porque é que os obstáculos eram tão grandes? Em primeiro lugar, porque os imperialistas trabalharam sem cessar para esmagarem essas revoluções. As revoluções socialistas do século XX tornaram-se numa ameaça mortal (e, claro, moral) à ordem global estabelecida de exploração, privilégios e desigualdade. Elas abriram à humanidade novas possibilidades e novos caminhos para concretizar essas possibilidades.
Os imperialistas não andaram a dizer a Lenine ou a Mao: «Ah, vocês querem tentar criar uma nova sociedade baseada na cooperação, querem criar uma economia planificada baseada em dar prioridade a satisfação das necessidades humanas, querem resolver os problemas da saúde e da educação e vão tentar fazer com que os que estão no fundo da sociedade a administrem cada vez mais. Muito bem, porque não tentam fazê-lo durante vinte anos e depois comparamos os resultados? Veremos então qual dos sistemas funciona melhor.»
Não! As potências capitalisto-imperialistas cercaram, pressionaram e tentaram estrangular essas revoluções. Poucos meses após a vitória da revolução bolchevique de Outubro de 1917, França, Inglaterra, Japão, Estados Unidos e mais treze potências enviaram dinheiro, armamento e tropas em socorro às forças contra-revolucionarias na Rússia que pretendiam restaurar a velha ordem de exploração e obscurantismo religioso.
Quantos de vocês sabem que o primeiro embargo de petróleo do mundo foi aplicado contra a revolução soviética? Quantos de vocês sabem que durante todo o período entre 1917 e 1950 a nova sociedade socialista da União Soviética ou estava a preparar-se para a guerra, ou a fazer a guerra, ou a recuperar dos danos da guerra?
Ou então considerem as circunstâncias que a revolução chinesa enfrentou após a sua chegada ao poder em 1949. Passado apenas um ano, as tropas norte-americanas estavam a subir pela península coreana acima e a ameaçar invadir a própria China. Quantos de vocês sabem que, no início dos anos 1950, o presidente norte-americano Eisenhower, no seu discurso sobre o estado da Nação, fez ameaças nucleares veladas e que os imperialistas norte-americanos desenvolveram planos militares para desencadearem ataques nucleares contra a nova República Popular da China?[5] Esta é a verdade histórica.
Foi nestas circunstâncias históricas que milhões de pessoas na União Soviética e na China fizeram a revolução e iniciaram profundas mudanças nas suas condições de vida e na sua forma de pensar. E uma outra razão porque elas enfrentaram grande obstáculos foi que essas revoluções não se desenvolveram no vácuo. Elas ocorreram, tal como as futuras revoluções, em sociedades que ainda continham as cicatrizes e as influências da velha ordem social, incluindo as divisões de classes, juntamente com as ideias e tradições do passado. Tudo isto também faz parte da realidade e dos desafios de fazer a revolução.
É isto que vocês têm andado a aprender sobre a história do século XX? Será que vocês aprendem que nos anos 1920 – num período em que nos Estados Unidos os negros eram linchados e em que um dos maiores êxitos da cultura norte-americanao era o filme racista Nascimento de uma Nação, que exalta o Ku Klux Klan – será que vocês aprendem que na União Soviética estava a acontecer algo totalmente diferente? Nesse mesmo período, na União Soviética estavam a ser feitos enormes esforços para eliminar a desigualdade entre as nacionalidades.
A nova sociedade socialista estava a levar a cabo uma luta contra o chauvinismo histórico da nacionalidade russa predominante. Estavam a ser canalizados recursos económicos e técnicos para as regiões com grandes concentrações de nacionalidades minoritárias. O novo estado soviético estabeleceu formas de governo autónomo nessas regiões que permitiram que os povos dessas regiões se encarregassem da sua administração. Promoveu a igualdade de idiomas e chegou mesmo a desenvolver formas escritas dos idiomas que antes não as tinham.[6]
Isso foi um surpreendente mar de mudanças. Reparem que, antes da revolução bolchevique, a Rússia era conhecida como uma «prisão de nações», tristemente famosa pelos pogroms contra os judeus e pela submissão de nações inteiras. Era uma sociedade em que, antes da revolução, certas nacionalidades minoritárias estavam proibidas de usar os seus próprios idiomas nativos nas escolas.
A maioria de vocês não sabe isto porque este conhecimento foi afastado do mundo académico e da sociedade. Vocês estão cercados e é-vos inculcada a narrativa oficial de que nada de bom resultou dessas revoluções – que elas falharam e não poderiam senão falhar.

2ª Parte – As mentiras e os métodos por trás das mentiras


Mao proclama a República Popular da China
Mao Tsé-tung proclama a fundação da República Popular da China
na Praça de Tiananmen em Pequim a 1 de Outubro de 1949
Há um pequeno problema com isto do «que todos sabemos» sobre o comunismo. Baseia-se na distorção integral da verdadeira história da revolução socialista; baseia-se em mentiras descaradas. Devo dizer que é surpreendente o que passa como sendo rigor intelectual quando se trata do comunismo. E, tristemente, tanbém é surpreendente o que aceitam pessoas que se dizem intelectualmente escrupulosas.
Eu quero desconstruir três exemplos típicos de alto perfil e grande impacto daquilo de que estou a falar.

Chang/Halliday distorcem totalmente o significado das palavras de Mao

Comecemos pelo livro Mao: A História Desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday. O livro tem sido apresentado como a biografia definitiva de Mao Tsé-tung e esteve na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times. Jung Chang e Jon Halliday querem que vocês acreditem que Mao era um hedonista cínico que assassinou dez vezes mais inocentes que Hitler. Insistem que ele era um assassino a sangue-frio – mas como não podem substanciar isso com factos, encheram o livro de mentiras e distorções.
Vejamos o Capítulo 40 do livro, que trata do ano de 1958. Tem o seguinte cabeçalho em cada página: «O Grande Salto: ‘Metade da população da China pode ter de morrer’».[7] Chang e Halliday estão a citar um discurso de Mao em Novembro de 1958 em que ele disse: «metade da população da China pode ter de morrer».
Eles fazem essa citação como prova de que Mao não se preocupava com a vida humana: que deixaria metade da população da China morrer para concretizar uma visão alucinada de uma nova sociedade. Mas quando se lê o discurso de Mao, o que ele na realidade está a dizer é o oposto:
«Na construção das obras de irrigação, entre o inverno passado e esta primavera, removemos mais de 50 mil milhões de metros cúbicos de terra e pedras a nível nacional, mas entre este inverno e a próxima primavera queremos remover 190 mil milhões de metros cúbicos a nível nacional, um aumento bastante maior que para o triplo. Teremos de lidar com todo o tipo de trabalhos: aço, cobre, alumínio, carvão, transporte, as indústrias de processamento, a industria química – [todos] requerendo muita gente. Neste tipo de situação, acho que se fizermos [tudo isto em simultâneo] indiscutivelmente metade da população da China acabará por morrer; e se não for metade, será um terço ou dez por cento, ou seja 50 milhões de pessoas mortas... Anhui quer fazer tantas coisas, é muito correcto fazer-se muito, mas tomem como princípio que isso não cause nenhuma morte.»[8]
Mao está a salientar que o plano económico está a tentar fazer demasiados grandes projectos de uma só vez, e que a insistir-se nesse plano, bem... «indiscutivelmente metade da população da China acabará por morrer» – e nós não queremos isso! Ele está a avisar contra o excesso de entusiasmo – porque isso pode levar ao excesso de trabalho, esgotamento e mortes – e Mao está a fazê-lo de uma forma altamente dramática.
Portanto, Chang e Halliday retiraram a frase de Mao completamente fora do seu contexto e inverteram o seu significado. Mentiram. Isto em si mesmo já seria suficientemente mau. Mas esta mentira é repetida em análises, jornais e blogues. Propaga-se e é citada tão frequentemente que se está a tornar num facto estabelecido. A seguir ninguém tem de provar nada. É um caso encerrado: Mao era pior que Hitler. Isto é inacreditavelmente desonesto e perverso. E no entanto passa por erudição.

A desastrada erudição de MacFarquhar convertida em verdade

Deixem-me passar agora a uma prestigiada fonte académica com um verniz de rigor erudito. Estou a falar do livro Mao's Last Revolution [A Última Revolução de Mao], de Roderick MacFarquhar, o muito conhecido estudioso da China aqui em Harvard, e Michael Schoenhals. Este livro foi publicado em 2006 e tem sido amplamente considerado como o relato «definitivo» da Revolução Cultural.
MacFarquhar descreve o contexto em que Mao desencadeou a Revolução Cultural. Eis como o faz: «Vários comentários indicam que Mao ansiava por uma medida de terror catalítico para iniciar a Revolução Cultural. Ele não teve nenhum escrúpulo em tomar vidas humanas. Numa conversa com pessoas da sua confiança numa fase posterior da Revolução Cultural, o Presidente chegou a dar a entender que o sinal de um verdadeiro revolucionário era justamente o seu intenso desejo de matar». E então MacFarquhar apresenta esta alegada declaração de Mao: «Esse homem, Hitler, era ainda mais cruel. Quanto mais cruel melhor, não acham? Quanto mais pessoas se mata, mais revolucionário se é.»[9]

Comunistas em Pequim

Militantes comunistas entram em Pequim durante a Revolução Cultural
Bem, isto é uma declaração muito sórdida. Por isso, fui às notas e fontes no fim do livro e deixem-me dizer-lhes o que diz a nota: «De uma fonte muito fidedigna vista por um dos autores».[10] Será possível acreditar nisto? Ele está supostamente a citar provas do apetite por sangue que alegadamente motivaram Mao e a Revolução Cultural. E é esta a documentação que MacFarquhar oferece? Parem e pensem nesta afronta intelectual. Fornece-se às pessoas provas de que Mao era um monstro com base num rumor totalmente inverificado e inverificável. É escandaloso. É o clássico «confiem em mim, não vos posso fornecer o discurso, a conversa ou o artigo... mas confiem em mim, é fidedigno». Faz lembrar George Bush ao desencadear a guerra no Iraque: «Vejam, Sadaam Hussein está a desenvolver armas de destruição em massa. Não posso divulgar as provas, mas confiem em mim, as minhas fontes são fidedignas.» É um rumor mascarado de algo sólido e incriminatório.
E, a partir daqui, esta declaração, que não pode ser atribuída a Mao com realismo ou possibilidade de prova, nem citada em nenhum contexto significativo, é repetida na comunicação social estabelecida e por outros senhores do mundo académico. Andrew Nathan, um conhecido liberal estudioso da China, professor na Universidade de Columbia, incluiu essa declaração atribuída a Mao na sua recensão crítica do livro na revista The New Republic.[11] Eu segui o rasto da recensão de Nathan, e ela foi reproduzida em diferentes blogues e sítios de recensão de livros.
Suponhamos agora que um de vocês na audiência está a tentar aprender sobre a Revolução Cultural e vai à Wikipedia. Bem, na entrada sobre a Revolução Cultural, encontrarão a seguinte declaração de Mao Tsé-tung, apresentada como parte das orientações de Mao para a Revolução Cultural: «Quanto mais pessoas se mata, mais revolucionário se é». E qual é a fonte? Adivinharam: Roderick MacFarquhar, essa eminência parda dos estudos chineses.[12]
A minha pergunta é: porque é que todos esses outros estudiosos não escrutinaram essa nota, em vez de repetirem essa calúnia sensacionalista sobre Mao? Porque eles não se sentem obrigados a provar nada: o projecto comunista foi declarado um desastre e um horror. E muitos desses e outros ditos estudiosos têm participado no tecer de uma narrativa das revoluções bolchevique e chinesa baseada em distorções e deturpações semelhantes sobre o que essas revoluções pretendiam fazer, o que essas sociedades socialistas de facto conseguiram e quais as verdadeiras dificuldades e desafios que enfrentaram.
Eu fiz um desafio público a Roderick MacFarquhar para um debate (o meu desafio menciona essa nota no final do livro) – e os organizadores da minha digressão transformaram-no num anúncio pago e submeteram-no a semana passada ao Harvard Crimson.[13] Mas, adivinhem o que se passou? O presidente do Crimson recusou-se a publicar o anúncio, dizendo que era «demasiado controverso». Duh!
Onde estão os académicos progressistas? Porque não estão a denunciar tudo isto? Porque muitos deles aceitaram esses veredictos, num ambiente de ataque impiedoso ao projecto comunista – enquanto outros ficaram intimidados por aquilo «que todos sabemos» e por aquilo que se tornou na norma do discurso intelectual: antes que se possa falar sequer em socialismo, mesmo que de uma forma positiva, é preciso negar a experiência das revoluções socialistas do século XX.

Entra Naomi Klein

Na realidade, estas distorções anticomunistas impregnam profundamente o pensamento político progressista. Veja-se o caso da activista e crítica social Naomi Klein. Aqui, vou basear-me na análise de Bob Avakian publicada no jornal Revolution.[14] Nas primeiras páginas do livro dela, A Doutrina do Choque, Klein descreve a situação nos Estados Unidos após o 11 de Setembro e a forma como a administração Bush a explorou.
Klein escreve: «De repente, descobrimo-nos a viver numa espécie de Ano Zero em que tudo o que sabíamos acerca do mundo antes podia agora ser ignorado como ‘pensamento pré-11 de Setembro’.» E ela tem razão quanto a isto. Mas depois usa a seguinte analogia: «Ainda que nunca tenhamos sido fortes no nosso conhecimento de história, os Estados Unidos converteram-se numa tábua rasa – numa ‘folha de papel em branco’ em que ‘podem ser escritas as mais novas e mais belas das palavras’, como Mao disse do seu povo.[15] Klein está de facto a citar um pequeno ensaio de 1958 de Mao intitulado «Apresentação de uma Cooperativa». Mas ela retira essa passagem totalmente do contexto para fazer parecer que se refere ao controlo da mente de massas não educadas por parte de líderes totalitários.
Vejamos o que de facto disse Mao:

Manifestação em Shenyang em 1968

Manifestação em Shenyang em 1968 de apoio ao movimento de massas de incentivo aos estudantes e ex-Guardas Vermelhos a irem viver nos campos
«Além das suas outras características, uma coisa marcante que distingue os 600 milhões de habitantes da China é que eles são ‘pobres e em branco’. Isto pode parecer uma coisa má, mas na realidade é uma coisa boa. A pobreza dá lugar ao desejo de mudança, de acção e de revolução. Numa folha de papel em branco, livre de qualquer marca, pode escrever-se os mais frescos e mais bonitos dos caracteres, pode pintar-se as mais frescas e mais bonitas das imagens».[16] E de seguida Mao salienta que as massas estão de facto a usar cartazes com grandes caracteres nas cidades e nos campos para levarem a cabo o debate e a luta ideológica em massas – e diz que isto é um grande antídoto ao «marasmo» da sociedade. Por outras palavras, Mao não estava a dizer, «oh óptimo, os camponeses são apenas uma massa de betume que nós os líderes podemos moldar como quisermos». Estava a dizer o oposto do que Klein sugere. Estava a dizer que serem «pobres e em branco» faz com que as pessoas não só queiram uma mudança radical como sejam capazes de tomar a iniciativa de lutar por essa mudança radical. E é claro, quando se lê esse ensaio, que Mao está a dizer que os «mais frescos e mais bonitos dos caracteres» e as «mais frescas e mais bonitas das pinturas» estão a ser escritos e pintados pelos próprios camponeses – e que, sim, isso está a acontecer com uma liderança comunista.
No início do ensaio, Mao observa: «Nunca antes as massas populares estiveram tão inspiradas, tão militantes e tão audazes como agora». «Inspirados», «militantes» e «audazes»: não é exactamente este o mundo em que George Bush ou Barack Obama querem que vivamos! Nem é o estereótipo que Klein insinua, de líderes comunistas que transformam as pessoas em robôs inconscientes.
Eis aqui três exemplos diferentes de propagação de estrondosas mentiras e distorções que reforçam a ignorância sobre o comunismo: desde os autores reaccionários de Mao: A História Desconhecida; ao A Última Revolução de Mao do liberal anticomunista Roderick MacFarquhar; e à crítica social progressista Naomi Klein no seu livro  Doutrina do Choque. Como tenho vindo a salientar, os efeitos disto não podem ser subestimados: uma redução de pontos de vista, toda uma geração de jovens a quem é roubado conhecimento.

3ª Parte – A Revolução Cultural na China: O que realmente foi

No resto desta conferência, irei utilizar o documento Comunismo: O Início de uma Nova Fase, Um Manifesto do Partido Comunista Revolucionário dos EUA.[17] Este Manifesto faz um resumo da história da revolução comunista até agora, dos seus avanços e das suas lições. Explica como o comunismo evoluiu enquanto ciência viva, criativa e flexível, desde o seu início com Marx, passando por Lenine, até Mao e Bob Avakian. Este Manifesto fornece um enquadramento para o inicio de uma nova fase da revolução comunista. E deixem-me acrescentar que ninguém se pode considerar informado e actualizado sobre o pensamento humano emancipador se ainda não leu este Manifesto.
Agora, uma das coisas que ouvimos muito frequentemente ao discutirmos o comunismo com estudantes é o seguinte: «bem, pode ser uma boa ideia, mas na prática não funciona». Quero responder a isto, voltando justamente à Revolução Cultural e entrando naquilo que foi e no que conseguiu.

Algum enquadramento histórico

A Revolução Cultural de 1966-76 foi o ponto mais alto das revoluções socialistas do século XX e de toda a primeira fase da revolução comunista, iniciada com a Comuna de Paris. A Revolução Cultural foi a luta mais radical e de maior alcance da história humana pela eliminação da exploração e da opressão e para mudar a sociedade e criar novos valores e novas formas de pensar.[18]
Mas a «narrativa dominante» burguesa é que a Revolução Cultural foi uma purga vingativa dos seus opositores por parte de um Mao sedento de poder: uma orgia de violência sem sentido e de perseguição generalizada que mergulhou a China numa década de caos. Não há uma pinga de verdade nesta narrativa. Mas antes de eu entrar directamente nisso, quero enquadrar a Revolução Cultural falando um pouco sobre a sociedade chinesa antes da revolução de 1949.
A vasta maioria dos habitantes da China eram camponeses que trabalhavam a terra, mas que tinham pouca ou nenhuma terra própria. Viviam sob o domínio de proprietários rurais que controlavam a economia local e as vidas das pessoas. Os camponeses lutavam desesperadamente pela sobrevivência. Nos piores anos, muitos deles tinham de comer folhas e cascas de árvores, e não era incomum as famílias camponesas verem-se obrigadas a vender os filhos para pagarem as suas dívidas. A agricultura estava infestada de ciclos infindáveis de inundações e secas e fome. Para as mulheres, a sua existência era um inferno em vida: espancamentos pelos maridos, pés dolorosamente atados, casamentos arranjados e as jovens forçadas a tornar-se concubinas dos proprietários rurais e dos senhores da guerra.
Na maior cidade da China, Xangai, estima-se que as brigadas municipais de saúde pública recolhiam 25 000 cadáveres das ruas por ano. Ao mesmo tempo, os bairros controlados por estrangeiros resplandeciam. Num país com 500 milhões de habitantes, só havia 12 000 médicos treinados em medicina moderna e morriam 4 milhões de pessoas por ano devido a doenças epidémicas ou infecciosas.[19]
É por coisas destas que as pessoas fazem revoluções. Foi por isto que milhões de pessoas na China participaram conscientemente na luta liderada por Mao pela tomada do poder de estado e pela criação de uma nova sociedade.

Distorções comuns sobre a Revolução Cultural


Médicos pés-descalços

Cartaz chinês da Revolução Cultural com as frases:
«Destruir o velho mundo. Construir o novo mundo», 1966.
1ª Distorção: Os chamados peritos na China como Roderick MacFarquhar falam na obsessão de Mao com a revolução, com o combate ao revisionismo e o impedir a contra-revolução, como se Mao estivesse a imaginar ou a manipular os inimigos para satisfazer os seus caprichos políticos. A verdade é que a revolução de 1949 acabou com o domínio estrangeiro, os grandes capitalistas e os grandes proprietários rurais. Mas, logo desde o inicio, houve importantes forças nessa revolução cuja perspectiva da sociedade não passava de transformar a China numa grande potência industrial que tivesse o seu lugar na economia mundial e no sistema internacional de estados-nações. Essas forças converteram-se numa nova classe capitalista centrada no interior do Partido Comunista da China e do estado e, por volta de meados dos anos 1960, estavam a posicionar-se para tomarem o poder. Os seus líderes, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, tinham objectivos coerentes e um programa coerente para a China: acabar com o socialismo, restaurar a exploração em nome da eficiência e abrir a China ao capital estrangeiro em nome da interacção com o mundo moderno. Foi por isto que Mao advertiu contra o revisionismo, que é um programa e um ponto de vista capitalista expressos numa terminologia marxista.
2ª Distorção: Os relatos burgueses descrevem a Revolução Cultural como uma horrível tentativa de Mao de incentivar as pessoas à histeria generalizada.
A verdade é que a Revolução Cultural foi um levantamento popular revolucionário em que participaram centenas de milhões de pessoas numa profunda e intensa luta sobre o rumo da sociedade:
Iria a China socialista avançar na via socialista para o comunismo: para uma comunidade mundial da humanidade sem classes, onde tenham sido eliminadas todas as formas de exploração e desigualdade social, onde o homem tenha deixado de dominar a mulher, onde já não existam nações dominantes e nações dominadas e em que o próprio mundo já não esteja dividido em nações, onde tenha sido eliminada a divisão da sociedade entre os que trabalham sobretudo com as suas mãos e os que trabalham sobretudo na esfera das ideias, onde já não seja necessário um estado para impôr o domínio de um grupo da sociedade sobre o outro?
Ou iria a China socialista tomar a via capitalista de regresso à exploração intensa, à aglomeração nas cidades de migrantes desesperados à procura de trabalho, à subordinação da mulher e ao ressurgir da prostituição e da objectificação da mulher – em suma, iria a China tornar-se na China de hoje?
3ª Distorção: A narrativa burguesa sobre a Revolução Cultural fala em «desastrosa implementação das utópicas fantasias» de Mao.
A verdade é que Mao e os revolucionários que lideraram a Revolução Cultural tinham objectivos coerentes e visionários. Que objectivos eram esses?
  • Mobilizar as pessoas na sociedade para derrubarem essas novas forças capitalistas e revolucionarem o próprio Partido Comunista.
  • Revigorar a revolução, submetendo todos os níveis de autoridade e governação à crítica e ao questionamento das massas.
  • Promover os valores socialistas de «servir o povo» e pôr em primeiro lugar os interesses da humanidade mundial e combater a moral capitalista de maximização do auto-lucro e auto-enriquecimento, bem como a mentalidade confuciana de se curvar perante a autoridade e as convenções.
  • Reconfigurar e revolucionar as instituições e a estrutura da sociedade: a) para criar um sistema de ensino que, em vez de produzir uma elite privilegiada, contribua de facto para a elevação do conhecimento e das capacidades da sociedade e para a eliminação das grandes divisões da sociedade; b) forjar uma nova cultura revolucionária, como as obras revolucionárias modelo na ópera e no ballet que punham uma nova ênfase nos operários e camponeses e na sua resistência à opressão (em vez dos velhos dramas sobre a corte imperial) e que criaram poderosas imagens de mulheres revolucionárias fortes e independentes; c) criar novas instituições de base dentro das fábricas, escolas e hospitais que verdadeiramente dêem poder ao povo.
Eram estes os objectivos cruciais da Revolução Cultural; não era nenhum «utopismo louco».

Uma verdadeira revolução


Médicos pés-descalços

Uma foto oficial do início da década de 1970, de promoção
do movimento dos médicos pés-descalços

Sejamos claros, a Revolução Cultural foi uma verdadeira revolução. Perturbou a rotina da vida normal; fervia de invenção e inovação; inspirou dezenas de milhões de pessoas mas também chocou e perturbou dezenas de milhões logo no seu início. As escolas fecharam; os jovens foram para os campos para se ligarem aos camponeses, os estudantes de Pequim foram a Xangai fomentar protestos nas fábricas, os trabalhadores foram encorajados a erguer as suas cabeças e perguntar: «Quem de facto manda aqui?» Isto tornou-se muito desordenado. Havia um debate político e intelectual generalizado: reuniões de rua, protestos, greves, manifestações, aquilo que ficou conhecido como «cartazes de grandes caracteres» que continham comentários e críticas às políticas e aos líderes. O papel e a tinta eram fornecidos gratuitamente, os edifícios públicos eram disponibilizados para reuniões e debates.[20] Era uma sociedade em mudança e a mudar o mundo de uma forma cada vez mais consciente. Nunca houve, na história mundial, um movimento revolucionário com esta dimensão e este nível de consciência. Mao via os jovens como força catalízadora para despertar e mobilizar a sociedade. Em 1966-67 havia em Pequim mais de 900 jornais em circulação.
No Outono de 1966, havia em Xangai cerca de 700 organizações nas fábricas. Por fim, os operários revolucionários, sob a direcção maoista, conseguiram unir vastos sectores da população da cidade para derrubar os seguidores da via capitalista que estavam no comando da cidade. E o que se seguiu foi extraordinário: as pessoas começaram a experimentar novas instituições de autoridade política da cidade; e a liderança maoista pôde analisar e retirar lições dessa experiência e desses debates.[21] Nos campos, os camponeses debatiam como é que os valores confucianos e o sistema patriarcal ainda influenciavam a vida das pessoas.

E quanto à violência?

Os relatos ocidentais típicos fazem acusações de que ataques violentos a pessoas e a eliminação física de opositores tinham a bênção oficial de Mao – e que, quer fosse uma política ou não, a violência arruaceira era a norma. Estas duas alegações são falsas.
A orientação de Mao para a Revolução Cultural foi claramente especificada em documentos oficiais amplamente divulgados. Na Decisão em 16 Pontos, que guiou a Revolução Cultural, declarava-se: «Onde houver debate, deve ser conduzido através da argumentação e não da força.[22] Sim, houve violência durante a Revolução Cultural. Mas: a) ela não foi a principal característica da Revolução Cultural – as principais formas de luta foram os debates de massas, a mobilização política das massas e a crítica de massas; b) quando os jovens activistas Guardas Vermelhos e outros recorreram à violência, isso foi claramente condenado e combatido pela liderança revolucionária maoista – por exemplo, em Pequim, os operários, sob a orientação de Mao, entraram nas universidades para impedirem as lutas entre facções de estudantes e para os ajudarem a resolver as suas diferenças; e c) muita da violência que ocorreu durante a Revolução Cultural foi de facto incitada por altos quadros seguidores da via capitalista que tentavam defender as suas posições privilegiadas.
Essa Decisão em 16 Pontos não foi uma directiva de circulação restrita entre os círculos internos do partido que de alguma forma tenha escapado à atenção dos nossos brilhantes estudiosos académicos. De facto, foi divulgada em toda a China como orientação sobre as metas, os objectivos e os métodos dessa revolução!

Êxitos reais e sem precedentes

A Revolução Cultural conseguiu coisas surpreendentes e sem precedentes.


  • Dizem-nos que Mao era anti-ensino e anti-intelectual. É falso.
  • Quantos de vocês sabem que durante a Revolução Cultural o número de matrículas nas escolas secundarias das zonas rurais subiu de 14 para 58 milhoes?[23] Ou que o número de matrículas de operários e camponeses nas universidades disparou? A razão porque Mao é etiquetado de «anti-ensino» é que a Revolução Cultural desafiou a ideia elitista burguesa de que o ensino é uma escada para as pessoas «sobressaírem» ou uma forma de usarem as capacidades e o conhecimento para obterem vantajas sobre os outros.
    Não era nenhum anti-intelectualismo, mas antes uma questão de pôr o conhecimento ao serviço de uma sociedade que estava a acabar com as desigualdades sociais. Os antigos currículos universitários foram revistos. O estudo foi combinado com o trabalho produtivo. Os velhos métodos de ensino que viam os estudantes como receptores passivos do conhecimento e os professores e instrutores como autoridades absolutas foram criticados.



  • Dizem-nos que Mao não se preocupava com a vida humana. É falso.

  • A China, um país relativamente atrasado, alcançou algo que o país mais rico do mundo, os EUA, não têm conseguido fazer: fornecer cuidados de saúde universais. Como resultado da Revolução Cultural, foi estabelecido um sistema de saúde que respondeu e resolveu as necessidades dos camponeses das zonas rurais da China, os quais constituíam 80 por cento da população chinesa.
    Em pouco mais de uma década após a tomada do poder em 1949, a revolução conseguiu eliminar doenças epidémicas como a varíola e a cólera. Foram lançadas campanhas de massas para combater o vício do ópio.[24] E juntamente com a mobilização das massas, houve educação em massa. Isto era uma característica muito importante e definidora dos cuidados de saúde na China socialista: maximizar a participação da comunidade e a consciência e responsabilidade das massas em relação às questões e preocupações da saúde. Houve simultaneamente uma distribuição centralizada dos recursos de saúde necessários e uma grande descentralização.[25]
    Um dos mais entusiasmantes desenvolvimentos da Revolução Cultural foi o que ficou conhecido como movimento dos «médicos pés descalços». Eram jovens camponeses e jovens urbanos enviados para os campos que tinham sido rapidamente treinados em cuidados de saúde básicos e numa medicina virada para satisfazer as necessidades locais e capaz de tratar as doenças mais comuns. Em 1975, havia 1,3 milhões desses «médicos pés descalços».[26]
    Os resultados foram espantosos. A esperança de vida no tempo de Mao duplicou de 32 anos em 1949 para 65 anos em 1976.[27] Amartya Sen, o economista galardoado com o Prémio Nobel, fez um cálculo: se a Índia tivesse o mesmo sistema de saúde que a China no tempo de Mao, teriam morrido na Índia menos 4 milhões de pessoas por ano. Isto equivale a um total de mais de 100 milhões de mortes desnecessárias na Índia desde a independência em 1948.[28]
    Digam-me qual é o sistema económico-social que valoriza a vida humana… e qual é o que não o faz.

    4ª Parte – A natureza humana pode ser mudada


    Médicos pés-descalços

    Cartaz de divulgação do movimento dos médicos pés-descalços
    As pessoas dizem que o comunismo não pode funcionar porque vai contra a natureza humana... que as pessoas são egoístas e só pensam nos seus próprios interesses... que não terão nenhum incentivo para trabalharem se não puderem competir para passarem à frente dos outros. Mas isto não são declarações científicas que descrevem uma natureza humana imutável. São declarações sobre a natureza humana no capitalismo, sobre como as pessoas são condicionadas a pensar e a agir NESTA sociedade. O capitalismo produz e requer uma certa forma de pensar: a do «primeiro eu», a de que «o vencedor fica com tudo» e que «a cobiça é uma coisa boa». E esta perspectiva e estes valores marcam tudo, todas as instituições e todas as relações na sociedade. As pessoas têm de competir pelo emprego, pela habitação, por um lugar no sistema de ensino. Também têm de competir e de se aperfeiçoarem no «mercado» das relações humanas. Será, então, surpreendente que nesta sociedade as pessoas sejam indiferentes, insensíveis e mesmo cruéis umas para com as outras?
    É isto que o socialismo, a revolução socialista, muda. Abre toda uma nova esfera de liberdade para as pessoas mudarem as suas circunstâncias e a sua forma de pensar. E foi isto que aconteceu durante a Revolução Cultural.
    Na China, durante a Revolução Cultural, havia um sistema económico baseado na utilização dos recursos em benefício da sociedade e da revolução mundial. Foram criadas novas relações sociais e novas instituições que permitiam que as pessoas cooperassem entre si e contribuissem o máximo possível para uma sociedade libertadora e para a emancipação da humanidade. O sistema educativo promovia os valores de servir o povo, de não usar o conhecimento para a auto-promoção individual mas sim para melhorar a sociedade e a humanidade. Durante a Revolução Cultural, as pessoas mediam as suas vidas e os actos dos outros pela lente moral de «servir o povo».
    Vocês podem ler entrevistas e livros de académicos como Dongping Han, Bai Di e Mobo Gao. Estes autores cresceram durante a Revolução Cultural e participaram nela – e escrevem sobre o que foi crescer no ambiente social da Revolução Cultural, o que para eles significava estarem num enquadramento social que valorizava a cooperação e a solidariedade. Contam como isso afectou a atitude deles em relação a outras pessoas, o seu sentido de responsabilidade social e a forma como a Revolução Cultural influenciou o que eles sentiam ser importante e significativo na vida.[29]
    Uma vez mais, não estou a falar de nenhum tipo de utopia e também não estou a dizer que tudo foi feito de uma forma perfeita na China maoista. Mas mudou as pessoas – porque a sociedade socialista cria este novo enquadramento que permite às pessoas mudarem-se a si próprias de uma forma consciente.
    E quando em 1976 o capitalismo foi restaurado na China e regressaram as velhas relações económicas do «cão come cão», as pessoas mudaram novamente: de regresso à velha perspectiva do «eu contra ti» e «cada um por si». As pessoas mudaram, não porque de alguma forma se tenha reafirmado uma natureza humana primordial, mas sim porque a sociedade regressou ao capitalismo.
    (continua)

    NOTAS

    [2] A revolução russa de 1917 trouxe a emancipação política e social dos judeus num país com uma história de anti-semitismo virulento e de violentos pogroms contra os judeus. A igualdade de direitos dos judeus manteve-se com José Estaline nos anos 1930 e durante a II Guerra Mundial. Em contraste, nos anos 1930, os judeus na Hungria, Roménia e Polónia enfrentaram movimentos fascistas organizados e um anti-semitismo institucional – e, mais tarde, os campos da morte. Ver Arno Mayer, Why Did The Heavens Not Darken? [Porque é que os céus não escureceram?] (Nova Iorque: Pantheon, 1988), págs. 55-89. [regressar]
    [3] No início da Revolução Cultural, Mao promoveu as palavras de ordem «É justo revoltarmo-nos contra os reaccionários» e chamou o povo a «bombardear o quartel-general» dos seguidores da via capitalista que estavam a levar a cabo políticas elitistas e opressoras. O fornecimento de materiais para cartazes e jornais, a utilização gratuita dos comboios pelos estudantes e o encorajamento na imprensa foram algumas das formas chave como a crítica e a luta de massas foram promovidas. Ver a «Decisão do Comité Central do Partido Comunista da China sobre a Grande Revolução Cultural Proletária» (Adoptada a 8 de Agosto de 1966, Pequim, Edições em Línguas Estrangeiras, 1966); também disponível online em inglês em: www.marxists.org/subject/china/peking-review/1966/PR1966-33g.htm. [regressar]
    [5] Acerca das ameaças nucleares e planos de guerra nuclear contra a China maoista do início dos anos 1950, ver John Wilson Lewis e Xue Lita, China Builds the Bomb [A China Constrói a Bomba] (Stanford: Stanford University Press, 1988), capítulos 1 e 2; Rosemary J. Foot, “Nuclear Coercion and the Ending of the Korean Conflict” [«A Coerção Nuclear e o Fim do Conflito Coreano»], International Security, Inverno de 1988/89 (Vol. 13, nº 3); Matthew Jones, “Targeting China: U.S. Nuclear Planning and ‘Massive Retaliation’ in East Asia, 1953-1955”: [«Visando a China: Os Planos Nucleares Norte-Americanos e a ‘Retaliação em Massa’ na Ásia Oriental, 1953-1955»], Journal of Cold War Studies, Outono de 2008 (Vol. 10, nº 4); e "For Eisenhower, 2 Goals if Bomb Was to Be Used" [«Para Eisenhower, 2 Objectivos se a Bomba Viesse a Ser Usada»], The New York Times, 8 de Junho de 1984, e Bernard Gwertzman, "U.S. Papers Tell of '53 Policy to Use A-Bomb in Korea" [«Documentos Norte-Americanos Revelam a Decisão de 1953 de Usar a Bomba Atómica na Coreia»], The New York Times, 8 de Junho de 1984. [regressar]
    [6] Sobre a abordagem e os sucessos da revolução bolchevique no alargamento do ensino às nacionalidades minoritárias, no assegurar da igualdade de idiomas e na promoção do ensino em línguas nativas, ver, por exemplo, Jeremy Smith, “The Education of National Minorities: The Early Soviet Experience” [«A Educação das Minorias Nacionais: A Experiência Inicial Soviética»], Slavonic and East European Review (Vol. 75, nº 2), Abril de 1997. [regressar]
    [7] Jung Chang e Jon Halliday, Mao: A História Desconhecida (Portugal: Bertrand Editora, 2005 e Companhia das Letras, 2006; Brasil: 2005; EUA: Nova Iorque, Alfred A. Knopf, 2005), Capítulo 40, págs. 426-439 da edição norte-americana. [regressar]
    [8] Mao Tsetung, "Talks at the Wuchang Conference, 21-23 November 1958" [«Intervenções na Conferência de Wuchang, 21-23 de Novembro de 1958»], em Roderick MacFarquhar, Timothy Cheek e Eugene Wu, eds., The Secret Speeches of Mao Tsetung [Os Discursos Secretos de Mao Tsé-tung], (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1989), págs. 494-495. Chang e Halliday usam a mesma fonte em língua chinesa, mas traduzem-na de forma ligeiramente diferente. [regressar]
    [9] Roderick MacFarquhar, Michael Schoenhals, Mao's Last Revolution [A Última Revolução de Mao] (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2006), pág. 102. [regressar]
    [10] Ibid., pág. 515, nota 2. [regressar]
    [11] Andrew J. Nathan, "The Bloody Enigma" [«O Enigma Sangrento»], The New Republic, 30 de Novembro de 2006. A declaração que MacFarquhar atribui a Mao é proeminentemente invocada por outros «respeitados» estudiosos da China numa recensão crítica mais recente na The New York Review of Books; ver Jonathan Mirsky, "How Reds Smashed Reds" [«Como os Vermelhos Venceram os Vermelhos»], 11 de Novembro de 2010. [regressar]
    [12] Esta alegada declaração de Mao cuja fonte é A Última Revolução de Mao foi desde essa altura removida da entrada da Wikipedia sobre a Revolução Cultural. [regressar]
    [13] "An Open Letter from Raymond Lotta to Roderick MacFarquhar" [«Uma Carta Aberta de Raymond Lotta a Roderick MacFarquhar»], Revolution #198, 11 de Abril de 2010. [regressar]
    [14] Bob Avakian, "Naomi Klein's The Shock Doctrine and its Anti-Communist Distortions—Unfortunately, No Shock There" [«A Doutrina do Choque de Naomi Klein e as Suas Distorções Anticomunistas – Infelizmente, Nao Há Aí Nenhum Choque»], Revolution #118, 3 de Fevereiro de 2008. [regressar]
    [15] Naomi Klein, A Doutrina do Choque (SmartBook, 2009, edição original: New York: Henry Holt and Company, Inc., 2008), pág. 20 da edição original. [regressar]
    [16] Mao Tsetung, "Introducing a Cooperative" [«Apresentação de uma Cooperativa»], em Selected Readings from the Works of Mao Tsetung [Leituras Seleccionadas das Obras de Mao Tsé-tung] (Pequim: Edições em Línguas Estrangeiras, 1971), págs. 499-501. [regressar]
    [17] Op. cit., disponível em português em www.paginavermelha.org/documentos/pcr-manifesto.htm e em inglês em revcom.us/Manifesto/Manifesto.html [regressar]
    [18] Para uma avaliação histórico-teórica da Revolução Cultural, ver Bob Avakian, Mao Tsetung's Immortal Contributions [As Contribuições Imortais de Mao Tsé-tung] (Chicago: RCP Publications, 1979), capítulos 5 e 6; e Comunismo: O Início de uma Nova Fase, op. cit., II. [regressar]
    [19] Jonathan D. Spence e Annping Chin, The Chinese Century [O Século Chinês] (Nova Iorque: Random House, 1996), pág. 84; Fredric M. Kaplan, Julian M. Sobin, Stephen Andors, Encyclopedia of China Today [Enciclopédia da China de Hoje] (Nova Iorque: Harper & Row, 1979), pág. 233. [regressar]
    [20] Sobre as fases iniciais da Revolução Cultural, ver Jean Daubier, História da Revolução Cultural Chinesa (Portugal, Editorial Presença, 1974) e Han Suyin, Wind in the Tower [Vento na Torre] (Boston: Little, Brown, 1976), capítulos 3 a 5. [regressar]
    [21] Sobre as lutas de massas em Xangai, ver Daubier e também Elizabeth J. Perry e Li Xun, Proletarian Power: Shanghai in the Cultural Revolution [Poder Proletário: Xangai na Revolução Cultural] (Boulder: Westview Press, 1997). Sobre a forma como Mao analisava as experiências das massas e dirigia a luta pela criação de novas instituições de poder, ver Raymond Lotta, Nayi Duniya e K.J.A., "Alain Badiou's 'Politics of Emancipation': A Communism Locked Within the Confines of the Bourgeois World" [«A ‘Política de Emancipação’ de Alain Badiou: Um Comunismo Fechado Dentro dos Limites do Mundo Burguês»], Demarcations, Verão-Outono 2009, capítulo 6, II. [regressar]
    [22] Do Ponto 6 da «Decisão do Comité Central do Partido Comunista da China Sobre a Grande Revolução Cultural Proletária», op. cit., e em: www.marxists.org/subject/china/peking-review/1966/PR1966-33g.htm. [regressar]
    [23] Suzanne Pepper, "Chinese Education after Mao" [«O Ensino na China Depois de Mao»], China Quarterly, Março de 1980 (nº 81), págs. 6-7. Para ler estudos relevantes sobre a expansão do ensino nos campos e a transformação da educação durante a Revolução Cultural, ver Dongping Han, The Unknown Cultural Revolution: Educational Reforms and Their Impact on China's Rural Development [A Revolução Cultural Desconhecida: As Reformas Educativas e o Seu Impacto no Desenvolvimento Rural da China] (Nova Iorque: Garland Publishing, 2000); e Ruth Gamberg, Red and Expert: Education in the People's Republic of China [Vermelho e Especialista: O Ensino na República Popular da China] (Nova Iorque: Schocken, 1977). [regressar]
    [24] Ver Kaplan, et al., op. cit., págs. 233 e 242; e C. Clark Kissinger, "How Maoist Revolution Wiped Out Drug Addiction in China" [«Como a Revolução Maoista Erradicou o Vício das Drogas na China»], Revolutionary Worker #734, 5 de Dezembro de 1993. A versão completa deste ensaio, Uma questão de poder: Como a China revolucionária acabó com as drogaa, saiu no Revolutionary Worker (actualmente Revolution) #476, 10 de Outubro de 1988, e foi reimpresso sob a forma de folheto (Chicago: RCP Publications, 1988). [regressar]
    [25] Victor W. Sidel e Ruth Sidel, Serve the People: Observations on Medicine in the People's Republic of China [Servir o Povo: Observações sobre a Medicina na República Popular da China] (Boston: Beacon Press, 1973), págs 22-24. [regressar]
    [26] Teh wei Hu, "Health Care Services in China's Economic Development" [«Os Serviços de Saúde no Desenvolvimento Económico da China»], em Robert F. Dernberger, editor, China's Development Experience in Comparative Perspective [A Experiência do Desenvolvimento da China numa Perspectiva Comparada] (Cambridge: Harvard University Press, 1980), págs. 234-238. [regressar]
    [27] Penny Kane, The Second Billion [O Segundo Milhar de Milhão] (Hammondsworth: Penguin, 1987), pág. 172. [regressar]
    [28] Ver Jean Dreze e Amartya Sen, Hunger and Public Action [Fome e Acção Pública] (Oxford: Clarendon Press, 1989), págs. 205 e 214. Noam Chomsky usa as taxas de mortalidade comparadas de Dreze e Sen para chegar a esta estimativa de 100 milhões de mortes desnecessárias na Índia (ver "Millennial Visions and Selective Vision, Part One" [«Perspectivas Milenáres e Perspectivas Selectivas, 1ª Parte»], Revista Z, 10 de Janeiro de 2000). [regressar]
    [29] Ver Bai Di, “Growing Up in Revolutionary China” [«Crescer na China Revolucionária»], Entrevista, Revolution #162, 12 de Abril de 2009, http://revcom.us/a/161/Bai_Di_interview-en.html; Dongping Han, “The Unknown Cultural Revolution: Life and Change in a Chinese Village” [«A Revolução Cultural Desconhecida: Vida e Mudança numa Aldeia Chinesa»], Entrevista, Revolution #176, 6 de Setembro de 2009, http://revcom.us/a/175/dongping_han_full_QA-en.html; Mobo Gao, Gao Village [A Aldeia Gao] (Honolulu: University of Hawai’i Press, 1999). [regressar]