terça-feira, 6 de março de 2012

Marco de estrada



O grandioso General Giap e o Presidente Ho Chi Minh: diante desses homens franzinos tombaram os mais poderosos exércitos, japonês, francês e ianque. "Todo está sujeto a cambio. Las grandes fuerzas decadentes tendrán que ceder el lugar a las pequeñas fuerzas nacientes. Las fuerzas pequeñas se transformarán en grandes, porque la gran mayoría de la gente exige el cambio. [...] Lo grande no tiene nada de temible. Será derribado por lo pequeño. Y lo pequeño se hará grande." Mao Tsé-Tung, El imperialismo ianque es un tigre de papel.



Nem muito alto,
nem muito largo.
Nem imperador,
nem rei.
Você é só um marco de estrada,
que se ergue junto à rodovia.
As pessoas passam
Você indica a direção certa,
e impede que elas se percam.
Você informa a distância
que se precisa ainda percorrer.
Sua tarefa não é pequena
e toda gente lembrará sempre de você.

Ho Chi Minh

segunda-feira, 5 de março de 2012

Crise do capital espectral, crise do capitalismo: análise do filme Inside Job e reflexões sobre o papel do indivíduo na história e a atual crise

[Augusto Machado]




(Bolsa de NY, cena do documentário Inside Job [2010, USA])



Ao ver um filme, e aqui se falará do recente inside job, ou qualquer meio informativo mais aprofundado sobre as grandes instituições, organismos e corporações que estão no comando do capitalismo contemporâneo, não nos resta dúvidas: vivemos sob diversas ditaduras. Seria essa afirmação uma piada de mau gosto de alguém que não sabe diferenciar o menos pior e reduz e iguala tudo ao nível do apocalíptico? Expliquemos melhor: o que a ideologia burguesa nos ensina sobre o termo "ditadura" se refere ao restrito âmbito político-estatal - ditadura é aquilo que foge aos parâmetros do capitalismo parlamentarista com suas eleições democráticas regulares de sufrágio universal. Porém, o que o pensamento marxista se esforça em identificar e caracterizar é como, por trás de um regime político aparente e legalmente não despótico, se reproduz a dominação, a exploração, a opressão, por vezes de maneira mais engenhosa, criativa e ampla do que um simples fortalecimento dos aparelhos repressivos do status de uma sociedade ou nação. A ditadura, nesse sentido, não é um marco formal jurídico, mas um determinado conglomerado de relações sociais, historicamente situadas, onde se manifesta e se alastra o poder, no caso, de classe. Essas relações ditatoriais se dão e emanam sobretudo nas relações econômicas, sob as quais se erguem todo o constructo da sobrevivência humana em coletividade.

Vivemos sob diversas ditaduras, e aqui nos interessa a ditadura do capital. O capital - uma coisa-produto, o dinheiro vivo? (Então viveríamos sobre uma sociedade global fetichizada?) Um jogo consciente dos poderosos? (Então viveríamos sob uma ditadura com rostos específicos que agem voluntariamente?) Para responder tais perguntas, de maneira alguma categoricamente nesse curto e parco espaço, precisamos nos debruçar um pouco sobre o fenômeno da dominação (de classe) no capitalismo, se esta pressupõe um sujeito, e o que significa isso, para então refletir sobre os aspectos infraestruturais, políticos e ideológicos atuantes ou não na história.

Em Marx podemos encontrar a definição dos capitalistas, ou dos "proprietários", como "instrumentos da acumulação, funcionários do capital":

Para evitar possíveis erros de entedimento, ainda uma palavra. Não pinto, de modo algum, as figuras do capitalista e do proprietário fundiário com cores róseas. Mas aqui só se trata de pessoas à medida que são personificações de categorias econômicas, portadoras de determinadas relações de classe e interesses. Menos do que qualquer outro, o meu ponto de vista, que enfoca o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode tornar o indivíduo responsável por relações das quais ele é, socialmente, uma criatura, poir mais que ele queira colocar-se subjetivamente acima delas. (Marx no prefácio da primeira edição d'O Capital)
Sob o nível teórico devemos ver tais indivíduos, os capitalistas, como portadores de relações que alimentariam um modo de produção, no caso o capitalismo. Como diz Balibar(Ler o Capital v. 2, 1980, p. 190), "as classes não são o sujeito deste mecanismo [de distribuição dos meios de produção num quadro social, ou podemos dizer, da divisão do trabalho], mas o seu suporte, e as características concretas dessas classes, seus efeitos". O fator objetivo, e mais especificamente institucional, aqui aparece como preponderante. O capitalista, "empiricamente", é privilegiado nesse modo de produção, é proprietário dos meios de produção, que se automatizam cada vez mais, e do trabalho, controlando assim o processo de produção (apropriação da natureza) e valorização (exploração/expropriação dos produtores diretos); busca o lucro e a disciplina dos assalariados; porém não é o deus por trás da máquina: pelo contrário é o seu servo. Mas tal fetichização seria de caráter hegeliano/idealista, que prevê escatologicamente a plena consciência de si do sujeito após um período de alienação? Ao nosso entender o marxismo não precisa de tal filosofia da história, de uma teleologia. A fetichização aqui se forma não por haver algo que escape da totalidade que um sujeito deve abarcar, que no final das contas o controla, mas sim porque essa esfera objetiva trabalha no desgaste de tais suportes, que são as classes, no caso a classe trabalhadora, que exerce a função de força de trabalho no capitalismo, e também das forças produtivas, ententida como relação social com a técnica/tecnologia, em benefício da manutenção do sistema do capital e de seus imperativos.

O que significa de maneira mais precisa esse desgaste? Esse termo tenta escapar da noção de retorno idílico a uma completude de um sujeito anterior à "alienação". Nesse sentido, a luta contra a sociedade capitalista não é contra a sua "fetichização/alienação" no sentido abstrato, que envolve um espírito/práxis "humana", normalmente individual. O socialismo não é uma religação a um período pré-moderno: pelo contrário, prevê sua superação. Vemos em Marx (Capital, Livro 1, v. 1)que : "Todo o trabalho diretamente social ou coletivo, executado em grande escala, exige, com maior ou menor intensidade, uma direção que harmonize as atividades individuais e preencha as funções gerais ligadas ao movimento de todo organismo reprodutivo, que difere do movimento de seus órgãos isoladamente considerados. Um violinista isolado comanda a si mesmo, uma orquestra exige um maestro. Essa função de dirigir, superintender e mediar assume-a o capital [no capitalismo], logo que o trabalho a ele subordinado se torna cooperativo."

Isso quer dizer que a crítica do marxismo não deve se voltar à toda e qualquer forma de divisão do trabalho, reivindicando um igualitarismo de sujeitos "conscientes de si". A questão central é que sob o capital, toda forma de processo de trabalho está subordinada a fins desvinculados dos interesses dos produtores diretos, subordinando-os a relações de exploração de classe. E a crítica deve se limitar a isso e vislumbrar uma sociedade sem classes, sem a atual forma extremada de divisão social do trabalho (o que não significa "super-Sujeitos" totais e hegelianos).

Com tal perspectiva escapamos de um risco pesado e muito presente na esquerda de todos os tempos: o subjetivismo e o voluntarismo, que geram uma visão moralista na política. Muitas construções sobre o conceito de ideologia se embasam nesses desvios: elas sempre pressupõem conceitos como consciência, alienação, sujeitos etc. Ora a ideologia não é exatamente a capacidade de, através de um inconsciente das estruturas sociais, práticas e concepções se reproduzirem sem que sujeitos a formulem maquiavelicamente (mesmo havendo instituições, think tanks responsáveis pelas sistematizações diversas no âmbito cultural, científico etc.)? Por outro lado isso não quer dizer, por exemplo, que o diretor do FMI não sabe seu papel e o que deve fazer, mas, como dito acima, este servindo de suporte, há uma sutil consciência, desejo, planejamento. Porém todo esse "voluntário" processo empiricamente constatável em alguns exemplos "concretos", no sentido feurbachiano, é permitido somente por condições e espaços objetivos e não deve se figurar como um fator determinante para uma teoria que tente abarcar as formações sociais. Se tal teoria fosse uma teoria dos/sobre os homens cairia ou na metafísica ideológica das diversas filosofias burguesas (buscando uma natureza humana, por exemplo) ou no empirismo positivista das ciências burguesas (que nega o papel da abstração e da teoria). Balibar comenta a necessidade de se pensar a prática e produção/reprodução/transformação dentro das formações sociais sem cair em formulações antropológicas (idealistas): "[...] a necessidade constringente das relações de produção só aparece então como uma forma que possuiria já o objeto de sua atividade, e que limita as possibilidades de criar uma forma nova" (p. 233). Isso seria caminhar para um materialismo (estruturalista? achamos que não: o estruturalismo provém, apesar de atacar corretamente o subjetivismo histórico e epistemológico, de uma noção de contradição simples e universal, diferente das contradições complexas entre estruturas presentes no materialismo histórico, como demonstrou Althusser).

Esqueçamos de uma síntese do que já foi posto ou de uma tese final: não há espaço nem condições, nem este é o objetivo. Para finalizar é preciso enfatizar que na história o jogo de forças das estruturas sociais estabelecem quais fatores possuem mais peso em determinadas conjunturas, não podendo haver universalizações vazias. Mas não nos enganemos: esses momentos possuem pés no âmbito objetivo, na materialidade determinante mas nem sempre dominante. Como dizia Mao, em Sobre a contradição, o subjetivo pode se tornar dominante em momentos da história. Uma visão paralisante seria tudo, menos dialético.

Toda essa reflexão sobre o materialismo histórico, e qual o papel do sujeito e do subjetivo na história e no capitalismo segundo essa teoria, é no sentido de embasar a análise crítica sobre o filme inside job, filme premiado e que representa, em grande parte, um discurso comum à social democracia, aos reformistas, e até mesmo fundamentalistas de todo o tipo sobre o atual período que vivemos. Qual discurso é esse? É o que se perde moralmente no empírico dos magnatas que se fartam de prostituição, drogas, corrupção e luxo; no empírico (paradoxalmente, por demais fictício) também do capital financeiro, como o grande vilão das pertubações nos países centrais e desmantelamento dos estado de bem estar social, sem o qual não haveria crises nem efeitos econômicos e sociais negativos. O sobrepeso que se coloca nos indivíduos concretos, nos sujeitos do sistema, que deliberadamente formulam no alto de seus gabinetes as preferências do capital, no filme, é que serve de base para o discurso ideológico e que na prática se torna reformista (já que a solução também está no âmbito subjetivo e não tão estrutural, no próprio regime de expansão-acumulação do capital: mudança de pessoal, de preferência, de valores etc.).

As informações sobre o crack de 2008 que o filme traz são bem organizadas e expostas, ainda mais para um público leigo; conhecer quem são os poderosos executivos por trás de tudo aquilo pegos em saias justas também atrai o espectador e torna um assunto para alguns massante num espetáculo a la reality show. Sendo uma mega produção, de grande visibilidade, pode-se identificar um viés progressista na obra e na sua circulação. Entretanto, é preciso cuidado, e salientar o dever dos marxistas frente a tal fenômeno: apontar suas limitações e consequências. Senão far-se-á apologia reformista e utópica de um capitalismo global de face humana, como se as crises, a tendência a monopolização e o crescimento do setor financeiro não fossem partes constituintes e tendências gerais do capital, sendo possível extirpá-las de maneira completa e permanente e sem uma revolução que ponha em cheque a propriedade privada dos meios de produção e os estados capitalistas.

Abaixo disponibilizamos, complementarmente, trechos de um texto de Chesnais de 1998 que visam esclarecer um pouco mais a fundo a quanto anda o capitalismo pós-desregulamentação dos quais somos frutos e vítimas, esse mundo "sem alternativas" que se fortaleceu depois do desastre do socialismo do século XX e início do massacre do capital sem rivais à altura, e mesmo assim onde Lenin e Marx são mais atuais que nunca.

A GLOBALIZAÇÃO DO CAPITAL E AS CAUSAS DAS AMEAÇAS DA BARBÁRIE in: O livro negro do capitalismo, Record: 2000.

[...] A liberdade que o capital, industrial e financeiro, encontra para se espalhar mundialmente como nunca tinha podido fazer desde 1914 tem sua origem na força que recuperou durante a longa fase de acumulação ininterrupta dos "trinta anos gloriosos" (uma, senão a mais longa de todas as histórias do capitalismo). No entanto, o capital não teria nunca conseguido alcançar seus objetivos sem o sucesso da "revolução conservadora" do fim da década de 1970. O triunfo do "mercado" não poderia ter sido atingido sem as repetidas intervenções das instâncias políticas dos Estados capitalistas mais poderosos, apoiados pelas organizações capitalistas internacionais mais importantes, o FMI e o Gatt/OMC em primeiro lugar. Estas intervenções tiveram início muito antes de 1989 ou 1991. Elas começam dez anos antes, na virada dos anos 1970-1980. É este momento em que as forças políticas mais antioperariado dos países da OCDE iniciaram o processo de liberalização, de desregulamentação e de privatização. Mas o caminho foi amplamente preparado. Os políticos antioperariado nunca teriam conseguido levar adiante seus objetivos se a contra-revolução brejneviana não tivesse esmagado previamente a primavera de Praga, assim como o movimento do proletariado polonês do mesmo período; se as direções dos partidos comunistas da França e da Itália, especialmente, não tivessem interferido de 1968 a 1978 para conter e repelir o potencial verdadeiramente democrático e consequentemente anticapitalista dos grandes movimentos sociais - operários e estudantis - que apareceram um pouco por todo o mundo na década de 1968-78 na Europa, bem como nos Estados Unidos e na América Latina.

Por outro lado, a atual vitória do capitalismo é tão completa que mesmo entre aqueles que combatiam os seus efeitos há muitas pessoas que já não utilizam o termo. Chamam de "neoliberalismo" e não tem contra ele mais do que a esperança, quimérica, julgo, de um retorno às formais mais humanas da sociedade capitalista. Alguns ficariam supreendidos, senão chocados, se lhes dissessem que ao recuarem perante a palavra "capitalismo" estão dando apoio a todos aqueles que afirmam - confiantes no balanço desolador do "socialismo real" que o desmoronamento da URSS acabou de revelar - que "a vitória da democracia e do mercado" assinala "o fim da história" ou ainda "o horizonte inultrapassável" das variantes de organização política e social fundadas sobre a propriedade privada dos meios de produção.

[...]

A atualidade da noção de parasitismo

O título do capítulo VIII de O Imperialismo, estágio supremo do capitalismo, "O parasitismo e a putrefação do capitalismo", sempre incomodou muito os teóricos dos partidos comunistas ocidentais. Isto era verdade no passado. Na época, a "coexistência pacífica" com o capitalismo, bem como as suas diferentes metamorfoses, dificilmente podia basear-se apenas na defesa da "pátria socialista". Mesmo dominado pelo "imperialismo americano", era preciso que o sistema com o qual a coexistência estava proibida tivesse qualquer coisa, por muito pouco que fosse, de "positivo"; que parecesse ainda suscetível de oferecer à classe operária e às suas camdas sociais aliadas algumas perspectivas de melhoria das suas condições materiais e morais de existência.O caráter "perturbador" da análise de Lenin é ainda hoje mais evidente no que diz respeito ao que resta destes partidos. No entanto, o segmento histórico correspondente àquilo que se chama de "globalização" ou ainda a "globalização do capital" é certamente aquele em que um conjunto de tendências analisadas por Lenin com a ajuda de Hobson se reafirmou numa escala ainda mais gigantesca do que na véspera da Primeira Guerra Mundial.

Durante algum tempo, nos anos 1950 e 1960, o capital industrial - aquele que Marx afirma, no capítulo I do Livro II de O capital, ser "o único modo de existência do capital onde a sua função não consiste apenas em apropriação, mas também em criação de mais-valia, dito de outra forma, de sobreproduto" - pareceu dominar de novo as economias capitalistas avançadas. A "classe dos rendeiros, isto é, das pessoas que vivem do 'corte dos coupons, pessoas que fazem da ociosidade profissão" (Lenin, Capítulo VII), parecia ter desaparecido e ter apenas uma existência teórica. Do mesmo modo, colocada sob a égide de grupos industriais (as sociedades multinacionais), a dominação imperialista sobre os países neocoloniais ou "dependentes" parecia progredir muito pouco, pois era acompanhada da ampliação das relações de produção capitalistas e da formação de uma classe operária autóctone. O capitalismo não parecia conseguir se definir de forma lapidar como uma "imensa acumulação de capital-dinheiro num pequeno número de países", a saber, os países identoficáveis como "Estados rendeiros". A produção parecia sobrepor-se à apropriação; a indústria , à finança; o lucro (largamente investido; à renda financeira. Largamente centrado na existência da figura do rendeiro, o capítulo VIII da obra de Lenin estava entre aqueles pelos quais era possível passar muito depressa.

Hoje, deste ponto de vista, as coisas são ainda piores: evidentemente não há alinhamento possível numa social-democracia ela própria transformada em social liberal, se não ignorarmos a análise de Lenin, com risco de dizermos que ela era válida no passado, mas não o seria hoje. Infelizmente não é o caso. Neste século XX, a sociedade mundial encontra-se de novo sob o controle férreo de um capitalismo dominado por contratos de rendimentos, um capitalismo cuja avidez e ferocidade são tanto mais fortes quanto ele é parasitário. ésimultaneamente no sentido de Lenin, isto é, organiado em torno de instituições (os mercados financeiros) e de Estados (os Estados Unidos e o Reino Unido em primeiro lugar), cuja única característica possível é a de rendeiro, e no de Marx, ou seja, marcado por formas de acumulação que estão mais voltadas para a apropriação do que para acriação de mais-valia. Um pouco mais à frente, no mesmo capítulo do livro II, Marx escreve de fato qualquer coisa cujo alcance passou praticamente despercebido até hoje: "É porque o aspecto dinheiro do valor é a sua forma independente e tangível que a forma A...A', cujo ponto de partida e de chegada são o dinheiro real, exprime da forma mais tangível a idéia de fazer 'fazer dinheiro', principal motor da produção capitalista. O processo de produção capitalista aparece apenas como um intermediário inevitável, um mal necessário para fazer dinheiro. É por isso que todas as nações dedicadas ao modo de produção capitalista são periodicamente apanhadas de vertigem de querer fazer dinheiro sem o intermediário do processo de produção." Hoje, os grandes Estados capitalistas fizeram mais do que ceder a esta vertigem. Colocando os "mercados" no comando, colocaram a economia mundial, tanto a dos seus próprios países como a do globo inteiro, nas mãos de pessoas cuja visão do mundo é precisamente essa.

Uma acumulação correspondente às prioridades do capital-dinheiro

Na sua configuração atual, o movimento do sistema capitalista mundial é comandado antes de mais nada pela reconstituição de forças de concentração do capital-dinheiro tão poderosasquanto inovadoras (os grandes fundos de coleta de poupança e de aplicação financeira), bem como a transferência, em benefício dos mercados financeiros nos países centrais, de funções importantes de distribuição de recursos e de regulações econômicas essenciais que durante muito tempo foram controladas pelos Estados. Os grandes industriais tem um papel primordial, mas não são eles que comandam o movimento de acumulação no seu conjunto. Esta é ordenada a partir de gigantescas transferências de valor e de mais-valia em benefício do capital-dinheiro vivendo dos dividendos e dos juros sobre os empréstimos. A promoção da esfera financeira na posição de "força autônoma" por parte das pessoas que ignoram tudo do ciclo "encurtado" do capital A...A', como análise do caráter idólatra das finanças, teve por função ocultar o papel desempenhado pelos próprios Estados na gênese da "tirania dos mercados". Esta permite disfarçar os macanismos através dos quais a esfera financeira, antes de instalar os circuitos fechados de distribuição interna de ganhos e perdas puramente financeiros, se alimenta de transferências de riquezas muito concretas. Os capitais que se valorizam na esfera financeira nasceram - e continuam a nascer - no setor produtivo. A valorização, ou "frutificação" da maior parte dos recursos reais captados pelas instituições financeiras, é feita sob a forma de aplicações em obrigações e ações, isto é, em títulos de crédito sobre a atividade econômica futura.

[...]

Duas características marcam o capital-dinheiro de forma inerente. A primeira é a convicção de que os fundos em que investe sob a forma de ativos negociáveis nos mercados financeiros, isto é, que coloca financeiramente, tem a "propriedade natural" de "produzir rendimentos". É ao que Marx se referiu um dia dizendo que, para os seus detentores, os ativos deviam produzir recursos (dividendos e juros em primeiro lugar), "com a mesma regularidade que a pereira produz peras" (O capital, III, capítulo XXIV). A segunda característica, intimamente ligada à primeira, é o de ser portador daquilo a que se chama no jargão atual de "abordagem patrimonial" que se desenvolve em todo o detentor de ativos financeiros a propensão para manter um estoque de riquezas especulativas às quais ele pode entregar, a característica deste capital é a de estar situado em locais e de ter horizontes de valorização distintos e muito afastados do local onde se desenvolvem as atividades de investimento, de produção e de comercialização (sendo que estas asseguram a conclusão indispensável do ciclo de valorização do capital produtivo). A distância não é meramente física; é ideal. É com toda a razão que Lenin, no mesmo capítulo, fala a propósito da classe dos rendeiros como "pessoas completamente isoladas da participação em qualquer empresa". Esta caracterização permanece exata mesmo quando os representantes do capital-dinheiro rendeiro fazem parte de "comissões de auditoria" a partir das quais eles exercem o "governo da empresa". As instituições que operam nos mercados financeiros tem a sua própria representação do mundo, a começar pela economia. Necessitam dos fluxos regulares de recursos das suas colocações, de rendimentos seguros pelo menor custo. Os prazos de amadurecimento da grande maioria dos investimentos produtivos situam-se totalmente fora de horizonte. Entre colocações financeiras, os títulos dívida pública, especialmente os dos Estados cuja credibilidade financeira é mais elevada, ocupam um lugar de destaque. A segurança e a regularidade dos rendimentos fazem deles a escolha por excelência das concentrações contemporâneas do capital financeiro cuja função é assegurar os fluxos de rendimentos permanentes e estáveis. Mas os dividendos recebidos monetariamente a patir dos lucros dos grupos industriais adquiram uma importância crescente. É o nível e a regularidade dos fluxos de dividendos que as comissões de auditoria tem por missão controlar sem descanso.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Roque Dalton, poesia revolucionária da América Latina




Roque Dalton (1935-1975), poeta da revolução salvadorenha


Sobre Dolores de Cabeza


Es bello ser comunista,
aunque cause muchos dolores de cabeza.

Y es que el dolor de cabeza de los comunistas
es histórico, es decir
que no cede ante las tabletas analgésicas
sino sólo ante la realización del Paraíso en la tierra.
Así es la cosa.

Bajo el capitalismo nos duele la cabeza
y nos arrancan la cabeza.
En la lucha por la Revolución la cabeza es una bomba de retardo.

En la construcción socialista
planificamos el dolor de cabeza
lo cual no lo hace escasear, sino todo lo contrario.
El comunismo será entre otras cosas,
una aspirina del tamaño del sol.

-----------------


Los Policias y Los Guardias

Siempre vieron al pueblo
como un monton de espaldas que corrían para allá
como un campo para dejar caer con odio los garrotes.

Siempre vieron al pueblo como el ojo de afinar la puntería
y entre el pueblo y el ojo
la mira de la pistola o el fusil.

(Un día ellos también fueron pueblo
pero con la excusa del hambre y del desempleo
aceptaron un arma
un garrote y un sueldo mensual
para defender a los hambreados y a los desempleadores.)
Siempre vieron al pueblo aguantando
sudando
vociferando
levantando carteles
levantando puños
y cuando más diciéndoles:
"Chuchos hijos de puta el día les va a llegar".
( Y cada día que pasaba
ellos creían que habían hecho el gran negocio
al traicionar al pueblo del que nacieron :
"El pueblo es un montón de débiles y pendejos --pensaban--
qué bien hicimos al pasarnos del lado de los vivos y de los fuertes").

Y entonces era de apretar el gatillo
y las balas iban de la orilla de los policías y los guardias
contra la orilla del pueblo
así iban siempre
de allá para acá
y el pueblo caía desangrándose
semana tras semana año tras año
quebrantado de huesos
lloraba por los ojos de las mujeres y los niños
huía de espanto
dejaba de ser pueblo para ser tropel en guinda
desaparecía en forma de cada quién que se salvó para su casa
y luego nada más
soló los bomberos lavaban la sangre de las calles.

(Los coroneles los acababan de convencer:
"Eso muchacos __les decían__
duro y a la cabeza con los civiles
fuego con el populacho
ustedes también son pilares uniformados de la Nación
sacerdotes de primera fila
en el culto a la bandera el escudo el himno los próceres
la democracia representativa el partido oficial y el mundo libre
cuyos scrificios no olvidará la gente decente de este país aunque
por hoy no les podamos subir el sueldo
como desde luego es nuestro deseo".)

Siempre vieron al pueblo
crispado en el cuarto de las torturas
colgado
apaleado
fracturado
tumefacto
asfixiado
violado
pinchado con agujas en los oídos y los ojos
electrificado
ahogado en orines y mierda
escupido
arrastrado
achando espumitas de humo sus últimos restos
en el infierno de la cal viva.

(Cuando resultó muerto el décimo Guardia Nacional. Muerto
[por el pueblo
y el quinto cuilio bien despeinado por la guerrilla urbana
los cuilios y los Guardias Nacionales comenzaron a pensar
sobre todo porque los coroneles ya cambiaron de tono
y hoy de cada fracaso le echan la culpa
a "los elementos de tropa tan muelas que tenemos".)
El hecho es que los policías y los guardias
siempre vieron al pueblo de allá para áca.
que lo piensen mucho
que ellos mismos decidan si es demasiado tarde
para buscar la orilla del pueblo
y disparar desde allí
codo a codo junto a nosotros.

Que lo piensen mucho
pero entre tanto
que no se muestren sorprendidos
ni mucho menos pongan car de ofendidos
hoy que ya algunas balas
comienzan a llegarles desde este lado
donde sigue estando el mismo pueblo de siempre
sólo que a estas alturas ya viene de pecho
y trae cada vez más fusiles.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Panta Rei (Tudo Flui): um estudo sobre Heráclito de Éfeso.


[Carlos Rios]

Prometeu
Graças a mim, os homens não mais desejam a morte.
O Coro
Que remédio lhes deste contra o desespero.

Prometeu
Dei-lhes esperança infinita no futuro.

(Ésquilo, Prometeu acorrentado)

O filósofo do vir-a-ser se apresenta num primeiro momento a nossos olhos encoberto por trevas de incompreensão. Seria ele um misantropo ensimesmado em suas próprias verdades, mergulhado num grande orgulho, no seu “próprio sistema solar”- como diria Nietzsche1 ? Ou teria ele tocado uma verdade mais profunda na escuta do que-é-com? Tais questões revelam a necessidade de identificar qual seria o traço mais cacterístico de Heráclito de Éfeso e denotar quais são sua bases mais profundas, assim como os seus desdobramentos. Teria dito ele que o pricípio é “o fogo”, o qual arremeteria ao renovar do mundo por um grande incêndio consumidor e renovador? Como pontos luminosos pendendo na escuridão nos vemos entre dúvidas neste ponto de partida, porém eis que o fogo heraclítico surge triunfante para iluminar e dirimir as indagações.
Assim, cumpre apresentar as bases do pensamento heraclítico para que se fundamentem demais questões. A expressão aqui tomada com título deste breve artigo “Panta Rei” (Tudo Flui) é traço mais seguramente marcante de Heráclito: o devir, o vir-a-ser, a pura fluição. Podem atestar isso alguns dos fragmentos:

49a- No mesmo rios estamos e não estamos, somos e não somos.

As águas de um rio a cada instante seriam diferentes devido ao contínuo fluir da correnteza. Tal consideração reflete uma questão já embrionária nos seus predecessores milesianos referente ao perecer das coisas, o tormento da finitude foi um forte estímulo para os questionamentos da existência, para a observação da natureza ou para a construção de “abrigos metafísicos”2. É justamente esta marca o ponto máximo da filosofia heraclítica, poderia ser por isso considerado o pai da dialética com o primeiro a se atentar para o movimento, a dinâmica da natureza, conferindo centralidade ao processo à mudança. 
 
É nítido, portanto, que o princípio (arché) heraclítico é o devir. Diferentemente de seus predecessores o elemento apontado como princípio, o fogo, seria a realização sensível de uma intuição mais profunda do vir-a-ser. Hegel caminha para este viés analítico e acrescenta que Heráclito teria “inalgurado a filosofia” admitindo também a influência deste em seu pensamento3.
Além disso, deve-se também lembrar do papel que cumpre a guerra dos contrários neste fluxo perpétuo, pois para Heráclito a luta dos contrário pende para a unidade e esta seria a harmonia no devir:

8- Heráclito (dizendo) que o contrário é o convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.4
[A contradição dos opostos é o movimento que tende a unidade, este movimento daquilo que é um]

48- Para o arco o nome [é] vida; a obra , porém, morte.
[O instrumento elucidado é sobre a oposição entre a vida e morte]

10- Conjunções o todo e o não-todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissoante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.
[a relação dos contrários aqui é tomada na relação todo-parte e inversamente, este pesamento é importante para outros encadeamento de Heráclito pois revela a participação do particular em um universal]

Esta última mensão poder ser evocada para cacterizar o vir-a-ser: uma determinação cega que não conhece o dualismo entre alma e matéria, ou mesmo o arbítrio divino personificado. Esta relação de contrários tal como universal-particular mencionado, parece ser aquilo que há de mais extradionário e inovador no logos heraclítico. Quer dizer, sendo puro devir, a pura dialética, a arché heraclítica uniria por identidade ser e não-ser, universal e particular, o que poderia parecer um disparate, porém, em verdade resguarda uma profunda verdade. Nietzsche teria afirmado que Heráclito teria caminhado pela trilha da dedução de duas negações conexas: a) a negação da separação de um mundo físico de um metafísico, ou alma e matéria, o que implica na refutação do “abrigo metafísico” no qual se lançou Anaximandro5; b) a negação do ser expressa na relação de identidade de ser e não-ser6.
Hegel teria explicado a relação do ser e não-ser ao ressaltar que o ser logo é levado pelo transcorrer do devir tornando-se em não-ser, aqui aparece a necessária intuição temporal. Aquilo que agora é em breve não o será mais devido a infadigável marcha do tempo, que tudo carrega, assim ser torna-se não-ser, e este por sua vez, em outro ser dado que a cada instante é assim novo. Por isso esta unidade constante é segundo o vir-a-ser, como afirmou muito brilhantemente 


Heráclito:
84a- Transmutando repousa.
[O constante fluir é o princípio permantente.]

Esta é a caracterização a qual Hegel atribui um princípio lógico que se expressará em “modos da realidade”, a unidade de contrários pode assim ser levada para relação entre ideal e real e as formas sob as quais se manifesta o princípio do devir: a) o tempo como puro conceito, como uma intuição abstrata da consciência do devir; b) o fogo de Heráclito como processo sensível do devir. Pois aqui se pronuncia o termo lógico alcançado por Heráclito tendo no fogo sua manifestação do campo sensível. Vários fragmentos arremetem ao fogo e podem ser evocados aqui:

66- Pois todas (as coisas) o fogo sobrevindo empolgará.
[evoca-se aqui claramente o fogo como princípio]

64- De todas as coisas o raio fulgurante dirige o curso.
[ novamente o fogo sendo evocado para materializar o fluir, só que aqui por meio da referência ao raio que abriga um relação com o fogo]

90- Por fogo trocam-se todas as coisas e o fogo por todas, tal como ouro por mercadorias e mercadorias por ouro.
[Sendo o fogo o princípio sensível do movimento ele aqui é comparada com o princípío monetário de troca, quer dizer por tudo perpassa e em tudo está contido é a unidade dos contrários, se a moeda (ouro) pode figurar essa idéia poderíamos pensar também num baralho de cartas onde o coringa equivale a todas as cartas.]

31- Direções do fogo: primeiro mar, o do mar metade terra, metade incandescência...Terra dilui-se em mar e se mede no mesmo lógos, tal qual era antes de se tornar terra.
[nas direções do fogo se perpecebe a transmutação do fogo em outros elementos, outros fragmentos citam uma direção para cima e outra para baixo nesse devir do fogo.]

30- Este mundo, o mesmo de todos os seres. Nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.

Este último fragmento retoma a já mencionada causalidade cega do devir. Como se observa nenhum deus ou homem fez o mundo como é, onde no princípio estaria aderido a todas as demais coisas tal como variações de grau, a expressão da unidade dos contrários. A mesma causalidade cega se expressaria também no fragmento 32: Uma só coisa, o único sábio, quer e não quer ser recolhido pelo nome de Zeus. Nele se destacam as seguintes características: a primeira é a relação entre o fato de ser cultuado sob o nome de Zeus, pois o princípio é sob ele venerado, porém assim chamado seria inapropriado tomando em conta que o devir sem face é o verdadeiro e único princípio; e de modo complementar, por não ser compatível com uma expressão antropomórfica revela o caráter abstrato e o descolamento mítico operado pelo logos heraclítico. 
 
Por tanto, não se poderia falar do lógos heraclítico aderido a perspectivas dualistas de alma e matéria como aqui já se ressaltou. Reale7, por outro lado, ao analisar acerca da dimensão ética de Heráclito o aproxima da doutrina órfica depositária da alma imortal. E alguns dos fragmentos na interpretação de Reale possuem uma relação entre a vivificação da alma com a mortificação do prazeres do corpo e inversamente8 onde estaria presente uma doutrina ascética que se manisfetaria também no diálogo Fédon de Paltão. Se este viés é válido, no entanto, tornam-se inviáveis e prejudicadas todas as considerações anteriores sobre o caráter do vir-a-ser heraclítico: se há alma imortal aguardando assim julgamento não é possível o devir sem face antes mencionado ou: para todo julgamento não deveria haver um juiz? Aqui Nietzsche parece atentar melhor para o conteúdo da justiça que reliza-se no processo, no devir, no combate dos contrários; assim Heráclito estaria a observar:

“(...) inúmeros pares lutarem em alegre torneio sob a tutela de rigorosos árbitros, sobreveio um pressentimento ainda mais alto: não podia considerar os pares em luta e os juízes separados uns dos outros, os próprios juízes pareciam combater, os próprios combates pareciam julgar-se– sim, como no fundo só percebia a justiça uma, eternamente reinante, ele ousou proclamar: “O próprio conflito do mútiplo é a pura justiça!””9

Existe uma contraste grandioso no infortúnio visto por Anaximandro e sua culpa originária a ser expiada com a morte e o devir heraclítico, tocar esta questão é revirar as estruturas do “dogma da queda”. Este não parece se figurar no logos heraclítico tal é a grandiosidade de seu pensamento onde não reside tal pessimismo diante do vir-a-ser que não é temido ou repelido por meio de “abrigos metafísicos”, ele, ao contrário, é abraçado por Heráclito como o verdadeiro princípio. Assim, poderia ser interpretada a “alma” mencionada em Heráclito como o vivificante, o retomar da unidade, a combustão do mundo; estabelecendo uma afinidade com o fragmento 118: A alma seca (é) a mais sábia e melhor. O seco tem relação aqui com o fogo o movimento da própria vida não como destruição mas o movimento dinâmico, como quis Hegel: “(...) assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida.”10
Tal sabedoria só poderia ser alcançada por meio da desconfiança do sensível, do particular, mediante o processo universal do vir-a-ser:

1-Deste lógos, sendo sempre, os homens se tornam descompassados, quer antes de ouvir, quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas) segundo esse lógos a inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu discorro segundo (a) natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como se comporta. Aos homens escapa quanto fazem despertos , tal como esquecem quanto fazem dormindo.

A percepção do particular abriga dúvida porque esta seria um quadro concebido aos olhos humanos de modo estático não atentando para o caráter dinâmico da “infinita trama de concatenações”11 do processo universal. Esta contradição entre a percepção imediata e fragmetária e a imagem de conjunto dinâmica, entre o particularmente acessível aos sentidos e o processo universal da natureza é comunicada por uma relação de incerteza da consciência perante o processo universal. Esta manifesta-se também por meio da relação entre sono e vigília podendo ainda ser acrescido a esta reflexão o fragmento:

21- Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono.
Sono e vigília se expressam como a forma de relação entre o logos e a consciência, ou seja, do processo universal da natureza e a consciência. Assim, vigília como consciência do mundo exterior se colocaria diante do que é morto e a “morte” poderia arremeter a ascepções possíveis para uma especulação imediata, sem instrumentos mais refinados: tudo é morte por se tratar da constante fluir que tudo devora e renova, que tudo faz perecer, porém ao dormir nos abrigamos no nosso entendimento particular e nos afastamos desta forma de compreenção circusncrita aos sentidos; ora, esta primeira impressão apresentaria de imediato um grande problema por conta da já mencionada suspeita de Heráclito diante dos sentidos, prejudicando a interpretação. Mas é justamente este o “nó” da questão, o logos heraclítico desconfia do sensível porém não o aparta por completo como forma de sondar o princípio, a relação racional com a relidade exterior seria um dos modos de ordenação da realidade baseado no princípio lógico mais profundo do vir-a-ser Heraclítico. Esta parece ser a senda trilhada por Hegel para explica-lo:
“Por mais que Heráclito afirme que no saber sensível não há verdade, porque tudo o que é flui, o ser da certeza sensível não é, enquanto é, com a mesma força afirma ele que, no saber é necessário o modo objetivo.”12

Expondo também as colocações em contrário, para Reale tal princípio lógico ou a dialética moderna não se enquadrariam no logos heraclítico, o não abandono da pesquisa da physis seria um sintoma disso, o que porém fica pouco claro diante da já mencionada, e reafirmada por Reale, desconfiança do sensível expressa em Heráclito. Este nó de contradição se contorce ainda mais, pois se o logos heraclítico atenta para uma inteligência que tudo ordena sob uma lei comum, o termo “aquilo que-é-com” é manifestação disso, se observará na busca pelo fogo as experiências sensíveis, como modo subsumido a uma lógia universal ordenadora, como parece ser a resolução mecionada antes por Hegel.
Voltados todos nós com olhos estalados e lentes embaçadas um quadro preciso do logos heraclítico parece mais e mais difícil de se capturar, ironicamente tal como o devir. Assim, toda a sorte de considerações deste grande filósofo como homem orgulhoso e misantropo, como profeta solitário e outras pechas que mais parecem ficar no aparente do ir ao fundo. Pois, se há um logos como buscá-lo se é impossível captura-lo no constante fluir? Como atingir o que sempre transmuta e repousa pelo movimento? A reposta é acompanhar-lhe o movimento, realizar a escuta intuitiva do lógos desconfiando do sensível, das opiniões vãs, dos eruditos por meio desta constante vigília. É claro que tal fato custa caro e como todo aquele que se volta para a busca da verdade é sujeito a toda sorte de estigmatização, condenação e outras iniquidades.
A injustiça dos deuses invejosos e ciumentos nunca deixa de o punir a hýbris dos heróis desobedientes. O fogo heraclítico assim como o fogo roubado de Efésto por Prometeu comungam deste conhecimento daquilo que é e tudo move, é a esperança no seio do vir-a-ser é o começo da jornada, são as pegadas dos primeiros gigantes a quem muito devemos por sua tão generosa desobediência. E tudo flui.

1Aqui se refere ao texto de Nietzsche em sua críitca moderna sobre Heráclito considerando a defesa que este autor faz desta qualidade para o filósofo mencionando a trilha solitária do filósofo: “O muro de sa auto-sufiência tem de ser de diamante(...)” (Nietzsche, Crítica moderna, Os pensadores)
2Como afirmaria Nietzsche em sua doxografia sobre Anaximandro: “Desse mundo do injusto, do insolente declínio da unidade originária das coisas, Anaximandro refugiou-se num abrigo metafísico (...)” (Nietzsche Op. Cit.), que aqui está diretamente referido à finitude, a morte seria uma expiação à injustiça da separação originária com o ilimitado (apeiron).
3Como Hegel afirmou na sua doxografia: “(...)não existe frase de Heráclito que eu não tenha integrado em minha Lógica.” (Hegel crítica moderna , Os pensadores)
4Aqui a discórdia(ódio) poder ser interpretada como a divisão ou separação dos contrários, em seu contrária a amizade (amor) sera a sua união; Empédocles seria um dos que concordaria com tal elemento do logos heraclítico.
5“(...) negou a dualidade de mundos interamente diversas, que Anaximanrdro havia sido forçado a admitir; não separa mais um mundo físico de um metafísico (...)”Nietzsche, Op. Cit.
6“(...) depois deste primeiro passo [negação da separação alma e matéria], já não podia ser impedido de uma ousadia muito maior da negaçã: negou, em geral o ser.”Nietzsche, Op. Cit.
7REALE, Giovanni. História da Filosofia antiga. Volume I.
8Aqui poderiam se lançar mão de diversos fragmentos, tal como: 4- Se felicidade consistisse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.;85- Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de alma.
9Nietzsche Op. Cit.
10Hegel, Op.Cit.
11Engels teria usado esta expressão ao retratar a concepção de mundo dos gregos detacado-se por ela Heráclito: “ (…) deparamo-nos, em primeiro plano com a imagem, de uma trama infinita de concatenações e influências recíprocas , em que nada permanece o que era, nem como e onde era , mas tudo se move e se transforma, nasce e morre. (…) Essa concepção do mundo (…) aparece claramente expressa pela primeira vez em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a um processo constante de transformação, de incessante nascimento e caducidade.” Engels, F. Do socialismo utópico ao cintífico. Editora Global, São Paulo-SP, 1980, pg. 45.
12Hegel também teria afirmado claramente: “O sonhar é um saber de algo de que somente eu sei.”
13 Como afirmaria Nietzsche em sua doxografia sobre Anaximandro: “Desse mundo do injusto, do insolente declínio da unidade originária das coisas, Anaximandro refugiou-se num abrigo metafísico (...)” (Nietzsche Op. Cit.), que aqui está diretamente referido à finitude, a morte seria uma expiação à injustiça da separação originária com o ilimitado (apeiron).